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segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

A espiritualidade dos Padres do Deserto - Continuação



Perguntaram a um ancião o caminho que levava ao abade António. «Na caverna de um leão vive uma raposa», respondeu.
Os mestres cristãos do deserto floresceram, explodiram num ápice que durou três séculos, do III ao VI depois de Cristo. Constantino tinha restituído aos cristãos, pouco tempo antes, o direito a existirem, rompendo com o Dogma de Cômodo — Cristianous me éinai, os cristãos não são —, e subtraído com uma certa suavidade a jovem religião ao terreno espantosamente humido do martírio, aos tempos incomparáveis das catacumbas.
Isto significava, evidentemente, entregá-la a esse perigo mortal que se manteve por dezoito séculos: o pacto com o mundo. Enquanto os cristãos de Alexandria, de Constantinopla, de Roma, regressavam à normalidade dos dias e dos direitos, alguns ascetas, aterrados com esse possível pacto, fugiam correndo, para se embrenharam nos desertos da Cétia e da Nitria, da Palestina e da Síria. Embrenhavam-se num radical silêncio que só alguns dos seus ditos conseguiram romper, bólides dirigidos a um céu insondável. Em verdade, a maior parte desses ditos foi pronunciada para nada revelarem, tal como a vida desses homens quis ser igual à vida de «um homem que não existe». («Dizia-se dos Cetiotas que se algum conseguia surpreender as suas práticas, ou seja, se alcançava o conhecimento das mesmas, tal não era considerado virtude mas antes pecado».)
Os ditos e feitos dos Padres — lógoi kai erga, verba et dieta — foram recolhidos em todos os tempos com extrema piedade, porque eram quase sempre nozes duríssimas, intragáveis, por trazerem em si a totalidade da vida, impossíveis de partir com os dentes, como nas fábulas, no instante do perigo extremo, e além disso os Padres, na maior parte das vezes, recusavam-se a escrevê-los. Foram recolhidos em pergaminhos: gregos, coptas, armênios, siríacos. Nesses pergaminhos não foram perpetuados apenas os oráculos e os prodígios dos Padres e dos seus discípulos, mas também os de alguns leigos desconhecidos que secretamente praticavam os seus preceitos e, ainda que nas metrópoles que os Padres abominavam, foram algumas vezes mestres dos seus mestres.
Alguns padres foram anacoretas. Como António o Grande, pai de todos os monges, o mestre egípcio que ao longo dos séculos se venera como senhor dos animais porque, tendo regressado à inocência pré-adâmica, encantava as feras. Outros, anacoretas com momentos de vida comum, vizinhos duma igreja, dum forno, dum poço. Outros ainda, cenobitas em qualquer mosteiro ou pequena laura de pedras negras, entre penhascos e abismos. Em montanhas majestosas e esquálidas ocupavam cavernas de animais ferozes ou escavavam covis que se assemelhavam a gigantescos pombais: e em todos esses sombrios buracos abertos na pedra havia um corpo de homem. A fera e o cadáver teriam sido os seus modelos.
(«Abade Pastor, gravai no fundo do vosso coração que há um ano que estais no vosso túmulo.») Ou seja: fera e anjo, como num único arquétipo, essa criatura inconcebível, de hirsuta cabeleira e grandes asas acastanhadas, alimentada a gafanhotos e mel, João o Precursor — e no arquétipo desse arquétipo, o profeta do fogo, Elias. Dentro da caverna a fera e à entrada do sepulcro o anjo: Arsénio sentado na soleira da sua cela, com um fino pano ao peito para recolher as lágrimas que não cessavam de correr: lágrimas nas quais o eu se dissolve como o sal em águas vivas; lágrimas supremamente misteriosas e às quais a Igreja romana compôs uma missa votiva.
Mas, para além de João e Elias, parece de fato que os Padres do deserto não tiveram antecessores. Na tipologia cristã, ninguém antes deles se lhes assemelha. A sua doutrina parece sair inteira e decisiva da cabeça de António o Grande e continua inabalável, imutável, durante dezoito séculos, em todo o Oriente cristão: tantos quantos os da Igreja mística do Oriente sobre a qual foi fundada.
Do arcabouço espiritual de António surge a maravilhosa linhagem dos Padres antigos: surge Arsênio o Romano, que foi pedagogo na corte de Bizâncio e se fez monge aos quarenta anos, «e nunca ninguém soube dizer como viveu». Surgiram Macário o Grande, Evágrio o Pôntico, Hilário, Pastor, Alónio, Sisoe, Poemen, Paísio, João o Anão, Moisés o Etíope. E, a partir destes, toda uma multidão até aos mestres do deserto de Gaza do século VI: Serido, Barsanúfio, João, Dositeu. Surgiram também os sublimes mestres sírios do século V, Isaque de Efrem. O seu magistério formou o dos seus amigos e discípulos, bispos e doutores do Oriente: Atanásio, Crisóstomo, Basílio, os dois Gregórios. Através de Cassiano o Romano, começam a despontar os fundamentos da regra patriarcal de Bento de Núrcia, e de todo o monaquismo do Ocidente. Mais tarde, um outro latino, Nicéforo o Solitário, e Gregório do Sinai definiram a doutrina e a prática da oração do nome de Jesus, a puríssima e ininterrupta oração que é o âmago da Philokalia grega e russa e do romance que edificou um povo inteiro, os Relatos dum peregrino ao seu pai espiritual. É nele que assenta ainda hoje o regimento que existe em todo o Monte Athos, com os seus anacoretas cujo número ninguém conhece, essas aves estáticas aninhadas nas grutas a prumo sobre o mar de Karoulia, e também a regra da comunidade monástica eslava, e os poucos skiti russos que restam.
No Ocidente esse magistério, depois dum eclipse apenas aparente devido ao desastre universal do Renascimento (já que entre os contemplativos da antiga cepa ele nunca foi interrompido), volta a emergir na misteriosa Contra-Reforma. Podemos voltar a senti-lo inalterado no cardeal Bona, monge cistercense, em Santo António Maria Zacarias, em Lourenço Scupoli (que numa célebre tradução russa é um texto ascético do mundo eslavo). Para não falar daquele que edificou o sistema, João da Cruz. Nessa época, da qual se ignora tanto, se não vemos renascer no Ocidente o espírito anacoreta, a xenìteia no mundo, ou migração interior, não deixou de tocar muitos homens que se aproximaram da perfeição.
Falar dos Padres do deserto, já foi dito, é tarefa quase intransponível, pois que o nosso maior desejo seria pô-los a falar. Para tal era necessário ser-se um deles, e nesse caso nada seria dito. Eles já não existem, não os temos connosco, nem sequer os meios de chegarmos a eles. O próprio espaço que os isola é de tal modo excessivo que se torna impossível atravessá-lo. Homens assim, verdadeiramente grandes, como é sempre verdadeiramente grande a Verdade, não podiam surgir a não ser na extrema solidão, e nada a não ser o «nu e ardente deserto» saberia contê-los. «O que é mais notável nos Padres do deserto», afirmou um teólogo inglês, Bryan Houghton, «é que eles se mantenham obstinadamente no deserto. Nunca conseguiremos alcançá-los. Deles próprios não revelam absolutamente nada. E nem sequer parece demasiado importante que alguém consiga interrogá-los. Porque eles sabem bem que serão eles os últimos a rir. Tinham alcançado o ponto em que o eu havia simplesmente desaparecido. Não existia mais psique à qual se pudesse atribuir uma qualquer psicologia. E apesar dos carismas divinos de que sofriam — uso a palavra sem ironia porque os carismas divinos são coisas terríveis —, que pensariam eles? Silêncio, silêncio...»
E mesmo os seus movimentos exteriores são de tal modo escassos e secretos que só podemos atribuir-lhes minudências geológicas ou então encará-los dentro dos grandes movimentos simbólicos dos heróis das Escrituras. Pisam a terra ardente das silvas (descalçarem-se e colar o rosto ao chão são dos pouquíssimos gestos em que os surpreendemos continuamente), avançam pela coluna de nuvens que lhes cega a vista e os deverá conduzir à terra do leite e do mel. Mas desta terra, no entanto, nem uma palavra, nunca. É o exílio, a travessia o que conta para eles e que eles vieram ensinar, com os seus monossílabos siderais e as suas monumentais reticências: o ser irreversivelmente estranhos nesta terra, o viver exactamente «como um homem que não existe».
De si próprios, os Padres do deserto dão uma única certeza: a sua caverna é um martyrion, eles vieram «para lutar por todos os mortos»: a morte do corpo, a morte do homem, a morte da própria mente (nous) para «se tornarem permanentemente conviventes com Deus no silêncio». O anjo sentado à entrada do sepulcro não se cansa de repetir: «Aquele que procurais — António, Arsênio, Macário — não está aqui».
É esta a hesychìa, a quietude divina ou santa impassibilidade que — como é razoável — transformava aqueles homens que não se comoviam em seres de fogo, e de tal modo que dos seus dedos erguidos saltavam chamas, e a sua palavra era «como um golpe de espada», e convinha que, durante a oração, um discípulo estivesse de vigia às suas portas para que as gentes não vissem que aquela porta era a boca de uma fornalha.
Dito isto — renunciando duma vez por todas a «saber» alguma coisa dos Padres e ainda muito menos a interpretá-los — talvez possamos, se houver coragem bastante e nos mantivermos imóveis a seus pés, contemplar — de dito em dito e sobretudo de silêncio em silêncio — essa doutrina que saiu armada do cérebro de António. Fiquemos pois aos pés dos Padres, essas «nascentes» tão celebradas em todas as épocas pelos arqueologismos revolucionários; assim talvez nós possamos encontrar aquilo que em todas as épocas esses mesmos arqueologismos se esforçaram por dispensar, tudo o que em todas as épocas conseguiram dispensar sempre um pouco mais, e de tal modo que quase nada resta num mundo que, como nunca antes, vai celebrando os fastos imaginários, românticos e sentimentais dessas origens.
Nem por sombras me ocorre alcançar os degraus fundamentais da scala coeli dos Padres: a total amputação do mundo, o extremo aperfeiçoamento dos poderes — eles mesmos simples instrumentos para a metamorfose do homem interior — através do silêncio, do jejum, do canto dos salmos, do trabalho manual: tudo o que é cânone constante, direi óbvio, de todo o monaquismo tradicional cristão. Mas com os Padres do deserto uma luz especial, que a sua taciturnidade não atenua, se derrama sobre elementos concretos para se tornarem mais tarde apenas implícitos, concretos e mais tarde praticamente perdidos, formando as pedras angulares dos seus ensinamentos, e das suas próprias vidas.
A sobrenaturalizaçao dos cinco sentidos, por exemplo: ou para melhor dizer, a existência dos «sentidos sobrenaturais» que a hesychìa designou a vida, através dos quais um corpo ainda vivo pode tornar-se em algo semelhante a um corpo glorioso, ou a água na qual alguns padres se limitaram a lavar simplesmente as mãos, para exorcizar um noviço tentado pelo espírito impuro. Mãos que, uma vez erguidas, soltam chamas, e que é preciso baixar de imediato em oração para não serem arrastadas rapidamente pelo êxtase. Corpos sobre os quais uma águia de fogo cai a prumo durante o Ofício Divino, ou que um lençol de fogo cobre no acto de vestir. Resplandecente, ameaçadora autonomia de uma bagatela, de um cíngulo, de um saltério, impregnando a vida de um santo ao questionar o inimigo como ferro incandescente, obrigando-o a soltar altos gritos.
O próprio lugar onde tudo se joga — a mente — tem uma vida própria, absoluta, segundo Isaque, um corpo próprio, o qual consome, até ao fundo, actos e acções, nem mais nem menos que o outro corpo, até o outro corpo ficar deserto: um sepulcro dominado pelos demônios. («E aquele que tiver olhado uma mulher com desejo de fornicação...».)
É António o Grande quem define duma vez por todas essa relação feroz e funesta entre o corpo e a mente humana, numa dessas sentenças que se soltam dele como o fulgor do flanco escarpado de um Sinai. «Os demônios não são corpos visíveis, mas nós tornamo-nos os corpos deles quando aceitamos os seus pensamentos tenebrosos. Porque, ao acolhermos tais pensamentos, acolhemos os próprios demônios e concedemos-lhes a sua expressão corpórea». Sob esta luz, adquire novo e arrepiante sentido a imagem do demônio ou do possesso que ronda «os desertos, por entre os túmulos». (Gregório Magno atribui a este ser errante na mente semelhanças ferozes: «lúpus qui sine cessatione quotidie non corpora sed mentes dilaniaty malignus videlicet spiritus».)
Na mente pura e unida Deus pode morar. Da mente dilacerada, múltipla, Deus afasta-se. É a única razão para a solicitude de não pecar, o único e verdadeiro móbil da infatigável purificação.
As técnicas desta purificação são infinitamente variadas e infinitamente contraditórias. Cada preceito vê-se refletido constantemente no seu contrário, num jogo de espelhos opostos, num vertiginoso explodir de antinomias que torna impossível neste caso, e mais que nunca neste caso, qualquer sentimento de posse ou de sucesso. Mas no centro tudo se rege sempre — como atitude para com o mundo exterior — em função de uma preliminar e radical subversão de todas as leis da psicologia natural. Ou seja, no fundo, um denominador comum a todos os atletismos espirituais, que podemos encontrar em qualquer ponto do tempo ou do espaço. A luta contra as potências tenebrosas que apertam o assédio à mente é vencida pela subversão de todos os meios naturais de luta, segundo uma espécie de aikido espiritual no qual as energias agressivas do inimigo são por assim dizer utilizadas em vez de serem rejeitadas no seu ímpeto, de forma a transformá-las no seu oposto. E a santa rejeição do Evangelho e dos pequenos evangelhos que são as fábulas. «A quem te pede a túnica, darás também o manto; e a quem te atormenta no espaço duma milha, tu deves ir com ele pelo menos duas». Se um homem ou um demônio te acusa, deves duplicar essa acusação; se um homem ou um demônio te ameaça, deves mostrar-te ávido de uma ameaça ainda mais violenta. «Ancião, que farás tu, quando te restam ainda cinquenta anos para viver (e para sofrer)? Haveis-me afligido bastante pois eu estava preparado para viver duzentos anos». E ao maligno, quando se manifesta: «Vem, que isso me dá prazer!». E passados doze anos, ao vê-lo afastar-se vencido: «Por que foges? Não te vás ainda embora!»
A técnica do koan budista não é de maneira nenhuma desconhecida destes terríficos e suavíssimos zen cristãos. «É bom procurar os anciãos ou é melhor permanecer na nossa cela? Uma regra dos padres antigos era a de visitar os anciãos, que por sua vez ordenavam precisamente que cada um permanecesse na sua cela».
«Com o aplauso de uma só mão», os mistérios inextrincavelmente entrelaçados do destino e da providência divina soam como melodiosos contrastes nos ditos e feitos dos Padres do deserto. O que é bênção para Sisoe, para Hilário poderá ser interdição e perigo; se o escriba não é suficientemente veloz para gravar exatamente as palavras de Barsanúfio, isto significa que é tal como ele grava que Deus quer que sejam gravadas e assim atuará o que ficou gravado; e se ao ancião enfermo não fosse destinado o óleo pestilento, o discípulo distraído acabaria por deitar mel na sua sopa.
«Providência», ensina António, «é o Verbo de Deus que se cumpre a si próprio e dá forma à substância que constitui este mundo». Neste divino tapete é lícito ao homem tecer-se a si próprio com o fio mágico daquele amor que tem o nome estranho de Comunhão dos Santos. Todos os portentos, todas as conversões, todas as graças narradas pelas histórias dos Padres do deserto são concedidas a qualquer um «pela dor que é assumida» por outro, pela privação e humilhação que um outro por sua vez aceitou. Do mesmo modo, o abade Bane, abandonadas todas as obras de caridade corporal pela pura oração, poderá conseguir «que a cevada cresça em abundância no mundo inteiro, e que todos os pecados de uma geração sejam remíveis». Qualquer outra forma de caridade, em relação a Deus ou em relação ao próximo, surge aos olhos dos Padres como algo risível: como sentimentalismo ou cumplicidade.
Em torno destes grandes leões jacentes do espírito, o mundo das formas, tal como o da palavra, é praticamente abolido e torna-se mais terrivelmente violento. Os seus objetos heráldicos — o saltério, o cinto de couro, o manto de pele, o cesto de vime, a tigela, os pequenos pães, o sal — juntam-se numa solidão quase ameaçadora, como ossos de dinossauro, na luz secante, na sombra total. As sentenças são dardos com pontas de ferro que zunem longamente nos ares antes de atingirem verticalmente o coração do discípulo. Deus precipita-se a prumo nessas celas, nesses corpos, com um único e tremendo bater de asas. E nesses corpos, radicados no céu, existe uma força que espanta: visionários e taumaturgos sujeitos à tentação até chegarem aos cem anos, frágeis rapazes que escavam nas montanhas.
A narração nua e sintética, com regras sempre iguais como os poemas de Homero, duma psicologia ousada e duma frugalidade verbal que fazia com que a narrativa profana soasse como um vozear vazio de cães que impedia Arsênio de meditar, é sempre o maravilhoso retrato do homem que não parece conseguir já dominar-se, de tal modo ele permanece para lá de qualquer enigma: o homem espiritual. O abade Moisés o Etíope que tinha sido escravo e ladrão, Paulo o Ilustre, os dois pequenos mártires irmãos, o belíssimo oficial transformado «num antigo leproso». Só na grande prosa russa, que começa com os Relatos de um peregrino, e de forma alguma esgotada, se transmitiu, através de Bizâncio e da literatura eclesiástica oriental, algo deste estilo.
E no entanto, naquela história do Padre do deserto que Tolstoi pretende ressuscitar, Padre Sérgio, não existe nem a fera nem o anjo, apenas o herói, um patético príncipe russo. «O homem que não existe», todos os Padres do deserto são todos os Padres e nenhum Padre; e precisamente por isto, e ainda uma vez mais, é um só, irrepetível, inconcebível Padre. Do tecido de centenas de ditos e feitos que lhe dizem respeito, poder-se-á reconstruir, refazer um Arsênio? Arsênio oculto na igreja por detrás duma coluna, «belo, a barba branca, corpo magro e bem acabado, de sobrolho caído pela abundância das lágrimas»; Arsênio, ex-preceptor imperial perenemente imerso no fedor das folhas apodrecidas «em troca dos perfumes e óleos olorosos usados pelos outros»; Arsênio que «tinha decidido não escrever nem receber nunca uma carta, e em geral não dizer praticamente mais nada»; Arsênio «todo em fogo» na oração, e de tal modo atormentado na sua cela por «grande aflição e tristeza», que os discípulos se afastavam aterrados; Arsênio que suplica para não ir quando se ouve dizer que ele está em certo lugar; Arsênio que, regressado aos discípulos por ele abandonados durante meses, lhes pergunta porque não partiram a procurá-lo, acrescentando, banhado em lágrimas: «A pomba não encontrou onde pousar e voltou ao ninho...»; Arsênio, moribundo, confessando o seu terror e que ameaça falar, frente ao tribunal de Cristo, dos que tentam fazer relíquias do seu corpo. «Mas como, Abade? Nós não sabemos preparar os mortos.» «Não sereis capazes de atar-me a uma corda pelo pé e arrastar-me até ao cimo da montanha?».
Qual o poeta suficientemente forte para conseguir esboçar um tal perfil? Suficientemente puro para inventar essas cenas mínimas que literalmente despedaçam os corações, como o choro repentino do ancião doente a quem se estende a taça de vinho: «Não pensava voltar a saborear vinho, antes de morrer...».
Essa escola de aldeões celestes, os pintores da Rússia do Norte, viu em visões e projetou nas tábuas dum ícone a divina infância dos Padres do deserto: infância que nos trespassa e aterra como a própria Sapiência, como a inexplicável majestade da inocência animal. O velho anacoreta que «pastava com os búfalos», numa das mais breves e grandes prosas que a mão esboçou, acaba por ser encontrado uma manhã, com os búfalos, nas redes. «Ao vê-lo, os caçadores foram tomados de terror». E libertaram o velho que, sem preferir palavra, «fugiu correndo atrás dos búfalos».



"Onde há vontade, há um Caminho"

A sobriedade do corpo e do espírito, condição da oração




Quando nos entregamos à oração dessa maneira, é importante não dar plena liberdade ao corpo. Santo Isaac, o Sírio, diz que uma oração em que o corpo não esteja desconfortável e o coração aflito, permanece embrionária, sem alma. Ela leva em si o germe da autoconfiança e do orgulho, que conduzem o nosso coração a crer que fazemos parte, não apenas dos "chamados", mas também dos "poucos escolhidos" (Mt 22:14).

Não confies nesse tipo de oração, pois é a raiz de muitas ilusões. Como teu coração continuou apegado à carne, teu tesouro também continua a ser de ordem carnal; e, enquanto acreditas, talvez, que atinges o céu, consegues apenas o que também é carnal. A alegria que sentes carece de pureza e se traduz de modo exuberante; tens urgência de falar, sentes vontade de catequizar e converter os outros, sem teres sido chamado pela Igreja a exercer o ofício de mestre. Interpretas a Escritura conforme a tua mentalidade carnal, e não consegues suportar que te contradigam; defendes apaixonadamente o teu ponto de vista. Tudo isso porque te esqueceste de disciplinar o corpo e, por isso, de humilhar o coração.
A verdadeira alegria é tranqüila e estável; por isso, o apóstolo nos ordena: "Ficai sempre alegres" (1Ts 5:16). Ela resulta de um coração que derrama lágrimas sobre o mundo e sobre si mesmo, porque todos se desviaram da luz que não se apaga. A verdadeira alegria se consegue através das lágrimas. Por esse motivo, está escrito: "Bem-aventurados os aflitos" (Mt 5:5), e: "... Bem-aventurados vós, que agora chorais," mortificando o "eu" carnal, "porque haveis de rir" pelo "eu" espiritual (Lc 6:21). A verdadeira alegria é reconfortante, uma alegria que brota, não só do conhecimento de nossa própria fraqueza, mas também da misericórdia do Senhor; e ela não precisa de um riso ruidoso para se expressar.

Pensa ainda nisto: quem se apega às coisas da terra, pode encontrar alegria, mas também agitação, inquietação e aflição; seu espírito se expõe a contínuas flutuações. A "alegria do teu Senhor" (Mt 25:21), ao contrário, é estável, porque Deus é imutável.

Portanto, vigia a tua língua e disciplina o teu corpo, através do jejum e de uma vida austera. A tagarelice é o grande inimigo da oração. Por isso, deveremos dar contas de toda palavra inútil (Mt 12:36). Quando queremos manter limpo um apartamento, procuramos impedir que entre a poeira da rua. Preserva teu coração das tagarelices e dos mexericos sobre os acontecimentos do dia.
"Notai como um pequeno fogo incendeia uma floresta imensa. Ora, também a língua é um fogo" (Tg 3:5-6). Porém, sem ar, a chama se apaga. Deixa também sem ar as tuas paixões, e elas se extinguirão pouco a pouco. Se sentes inflamar-se a tua ira, cala-te, e não deixes que ela transpareça. Fala dela somente a Deus. Assim apagarás a mecha que acabou de se acender. Quando te perturbas pelos erros dos outros, segue o exemplo de Sem e de Jafé, e cobre-os com o manto do silêncio (Gn 9:23); assim sufocarás o desejo de julgar, antes que as chamas subam. O silêncio está pronto para ser preenchido com a oração atenta, como um vaso vazio para se encher de água.

Porém, quem quiser praticar a arte da vigilância espiritual, não é só da língua que deve cuidar. Deve cuidar de si mesmo (Gl 6:1), minuciosamente, e estender a solicitude às profundezas do seu ser. Nessas profundezas, descobrirá imensos espaços interiores, onde se agita um grande número de lembranças, imaginações e pensamentos. Não despertes uma lembrança que poderá cobrir de lama a tua oração; não revolvas as impressões que antigos pecados deixaram em ti. Não sejas "como o cão que torna ao seu vômito" (Pr 26:11). Não deixes que a tua memória se demore em fatos que poderiam reanimar teus maus desejos; não permitas que tua imaginação divague. O baluarte preferido do demônio é exatamente a nossa imaginação. Por meio dela, ele nos atrai para a "relação", isto é, a discussão com ele; daí, para o consentimento e para o pecado em ato. Ele semeia a incerteza e a agitação entre os teus pensamentos; ele te sugere todo tipo de raciocínios, de provas, de perguntas vãs e de respostas que damos a nós mesmos. Opõe, a isso tudo, a palavra do salmista: "Afastai-vos de mim, perversos, eu vou guardar os mandamentos do meu Deus" (Sl 119,115).



 
"Onde há vontade, há um Caminho"

A armadura do monge




“Os que tem de ir a guerra – dizia São Jerônimo em uma conversa com seus monges -, preparam-se antes com cuidado”.
O soldado “olha se tem escudo, se tem espada, se tem machado, se tem flechas, se seu cavalo está em boas condições”. Para lutar convém preparar antes a armadura. Segundo Filoxeno de Mabbug, era a “armadura espiritual” a única coisa que o monge devia levar consigo ao abandonar o mundo.
Muitos são os padres e escritores que descreveram, mais ou menos minuciosamente, a armadura espiritual. Alguns de seu elementos eram conhecidos desde tempos atrás. São Paulo falava do cinto da verdade, a couraça da justiça, o escudo da fé, o elmo da saúde, a espada da palavra de Deus. Em outras passagens do Novo testamento se mencionam estas armas e outras semelhantes: a oração, o jejum, e a sobriedade, a leitura e o uso da Sagrada Escritura, a invocação do nome de Jesus. Entre outros Padres da Igreja, insiste Orígenes nestas práticas, assim como também na vigilância constante e o cultivo de todas as virtudes. Outras armas são, segundo o mesmo Orígenes, o afastamento dos cuidados e distrações do mundo, as visões consoladoras e reconfortantes que o Senhor concede a seus atletas, e especialmente o “discernimento de espíritos”. Os monges se servem de todas estas armas, e com a experiência do combate cotidiano, foram completando seu arsenal.
O arsenal dos demônios se distingue por sua abundância e sua diversidade. A arma que habitualmente usam são os logismoi, os “pensamentos“, as vezes bons em si, mas em geral maus e perversos. O demônio não dá as caras, se esconde detrás dos maus impulsos que estão dentro do homem – e ainda detrás dos bons – e se serve deles insidiosamente para corrompe-lo. Segundo nossos mestres, é esta a única maneira de atacar aos monges novatos. Assim, logo que Antão abandonou o mundo, pretendem faze-lo retroceder recordando-lhe os bens que deixou, o cuidado que deve ter com sua irmã, seus afetos familiares, os prazeres da vida e a dificuldade da virtude. Como se vê, estes pensamentos não são precisamente maus, e por isso resultam mas temíveis. Mas se servem também os demônios de outras tentações realmente brutais, como pensamentos de luxúria, particularmente indicados para vencer aos jovens. São os oito logismoi ou “vícios capitais”, como os chamará Cassiano.
Outras armas importantes nas mãos dos demônios são as visões e alucinações, que sabem usar quando fracassam os logismoi. O demônio aparece sob uma das formas enganosas que mencionamos acima e outras similares. São as tentações mais conhecidas dos anacoretas e têm por fim excitar a luxúria, a gula, o medo, etc. Uma terceira categoria está constituída pelas formas piedosas ou sobrenaturais que as vezes adota o Tentador. Para poder enganar ao solitário, os diabos são capazes inclusive de sustentar conversações espirituais, cantar salmos e citar a Escritura.
Teofano, o Recluso – Conselhos aos Ascetas


"Onde há vontade, há um Caminho"

sábado, 20 de janeiro de 2018

50 APOTEGMAS - CONSELHOS DE UM MONGE DO DESERTO PARA A SUA VIDA





Muito temos a aprender com esses homens que viveram no deserto e lá se tornaram grandes mestres

Esses apotegmas – ditos – são do Padre do Deserto Pai Antão O Grande.
Muito temos a aprender com esses homens que enebriados pelos amor a Deus e pelo desejo de tornar real o motivo da nossa existência, ou seja, conhecer, amar e servir a Deus; foram para o deserto e lá se encontraram consigo mesmos e sua limitações, travaram inúmeras batalhas, principalmente com os maus pensamentos e comportamentos e por fim se tornaram grandes mestres. É realmente uma pena que muitos tenham se esquecido da grande fonte de ensinamentos que os padres nos oferecem, ensinamentos fundamentados na experiência, em vivências reais de homens santos.
É importante lembrar que os Padres viveram por volta de 300 depois de Cristo, o mais conhecido é Santo Antão, mas haviam muitos outros, padres e madres do deserto. Esse ponto faz com que a doutrina dos padres, quanto a espiritualidade, seja mais apurada e mística. Também devemos nos atentar para o fato de que esses homens e mulheres tinham uma dimensão muito elevada da sua decisão em viver no deserto, pois acreditavam que estavam se apresentando em nome dos homens para combater os inimigos dos homens e de Deus, eles fugiam do mundo e iam batalhar internamente e muitos externamentos com a concupiscência da carne e o demônio. É importante esse apontamento pois, muitos acham que eles eram fugitivos do mundo, num sentido pejorativo, mas não é o caso, eles eram homens muito corajosos, assim como o são os enclausurados de hoje – que também estão em um deserto – pois se entregam em nome dos homens para fazer oposição ao demônio e sua ação maligna no mundo.
Assim os ditos dos Padres podem nos ajudar muito em nossa vida espiritual, pois os Padres sempre partiam da prática, do cotiano para guiar seus discípulo até Deus:
Se o ferro é negligenciado e não recebe a manutenção devida, à força de permanecer sempre abandonado sem servir a nada, acaba comido pela ferrugem e já não tem mais nem utilidade nem beleza. O mesmo acontece com a alma. Se ela permanece inerte, se não se dedica a viver na virtude e a se voltar para Deus, se ela se priva da proteção divina por causa de suas más ações, em sua negligência ela se destrói sob o efeito do mal que ataca a matéria do corpo como o ferro se destrói sob o efeito da ferrugem, e não possui mais nem beleza, nem utilidade em vista da salvação.
Deus é bom, impassível, imutável. Mas se nós consideramos razoável e verdadeiro que Deus não muda, podemos nos perguntar como Ele se alegra com os bons e se zanga com os maus, como se irrita com os pecadores e é benevolente quando homenageado. A resposta é que Deus não se alegra nem se irrita, pois alegrar-se e entristecer-se são paixões. Da mesma forma, não há como homenageá-lO com presentes, pois então Ele seria dominado pelo prazer. Ora, é impossível, a partir das coisas humanas, ver no Divino o bem e o mal. Deus é Bom, e Ele não nos faz senão o bem, jamais o mal, pois em tudo isto Ele permanece sempre igual. Também nós, se, por nossa semelhança, perseveramos no bem, também nós nos unimos a Deus. Mas se, por dissenso, nos entregamos ao mal, nós nos separamos de Deus. Vivendo na virtude, ligamo-nos a Deus; mas levados ao mal, fazemos dEle nosso inimigo, cuja irritação não é gratuita, uma vez que os pecados impedem a Deus de brilhar em nós e nos atiram aos demônios que nos castigam. Se, pelas orações e pelo bem que fazemos, obtemos a absolvição de nossas faltas, não é por termos honrado a Deus ou tê-lO feito mudar, mas porque, curando nosso próprio mal com nossas ações e nosso retorno ao divino, desfrutamos novamente de sua bondade. Isto equivale a dizer então que Deus se afasta dos desonestos, e que o sol se esconde diante dos que são privados de visão.
A alma verdadeiramente dotada de razão, quando vê a felicidade dos bandidos e a prosperidade dos indignos, não se perturba imaginando aquilo que eles desfrutam nesta vida, como aqueles que, dentre os homens, são desprovidos de razão. Pois ela conhece claramente a instabilidade da fortuna, a incerteza da vida presente, a brevidade da existência e a integridade do Juízo. Esta alma crê que Deus não a esquecerá e lhe dará o alimento de que ela necessita.
A alma dotada de razão, que mantém firmemente sua boa resolução, conduz como um cavalo o ardor e o desejo, suas paixões privadas de razão. Se ela as domina, pressiona, se assenhora delas, ela é coroada e julgada digna da vida no céu. Ela recebe de Deus que a criou a recompensa por sua vitória e suas provações.
O bem não é visível, assim como as coisas do Céu. Mas o mal é visível, como as coisas da terra. O bem é aquilo que não se pode comparar. Assim, o homem que possui inteligência escolhe o melhor.
O corpo unido à alma passa das trevas do seio materno à luz do dia. Mas a alma unida ao corpo permanece ligada às trevas do corpo. Assim, convém ter aversão e endireitar o corpo, na medida em que ele se mostra adversário e inimigo da alma. A abundância e o prazer das comidas despertam no homem as paixões do mal. Mas a temperança reabsorve as paixões e salva a alma.
Pelo corpo, o homem é mortal. Mas pelo intelecto e pela palavra, ele é imortal. Mesmo se você se cala, você pensa. E se você pensa você fala. Pois é no silêncio que a inteligência engendra a palavra. E a palavra de reconhecimento dirigida a Deus é a salvação do homem.
A alma está no corpo. A inteligência está na alma. E a razão está na inteligência. Quando é concebido e glorificado por ela, Deus imortaliza a alma atribuindo-lhe a incorruptibilidade e as delícias eternas, Ele que por sua simples bondade fez existir todas as criaturas.
Nosso Deus deu a imortalidade às coisas do Céu e fez mutáveis as coisas da terra. Ele colocou a vida e o movimento no universo. A tudo Ele criou para o homem. Assim, não se deixe cativar pelas imagens deste mundo que lhe chegam pelo demônio, quando ele introduz em sua alma maus pensamentos. Mas procure imediatamente os bens celestiais, e diga a si mesmo: “Se eu quiser, eu tenho em mim o poder de rechaçar também este ataque da paixão. Mas se eu não o fizer, é porque quero satisfazer meu desejo.” Continue assim com este combate, que pode salvar sua alma.
O mal anda de mãos dadas com a natureza, como a ferrugem com o ferro, ou as excreções com o corpo. Mas não foi o ferreiro quem fez a ferrugem, nem os pais que fizeram a excreção. Da mesma forma, Deus não criou o mal. Ao contrário, Ele deu ao homem o conhecimento e o discernimento, para que ele pudesse fugir do mal, sabendo que este é nocivo e condenável. Assim, quando você ver alguém feliz por ser rico e poderoso, cuidado para não invejá-lo. É o demônio que cria esta ilusão. Mas tenha imediatamente a morte diante dos olhos, e você não cobiçará jamais nem o mal, nem as coisas deste mundo.
Aquele que faz da piedade a companhia de sua vida não permite ao mal entrar em sua alma. E se o mal não penetra nela, a alma permanece ao abrigo do perigo e da infelicidade. Nem as enganações do demônio, nem os golpes da sorte prevalecerão nestes homens. Pois Deus os livra do mal. Eles vivem sob sua guarda, longe de toda infelicidade, semelhantes a Ele. Se os elogiarem, eles rirão de quem os elogia; se os ofenderem, não responderão aos insultos. Pois eles não se comovem com o que é dito ou não dito a respeito deles.
O mal é uma afecção da matéria. Deus não está em causa. Ele deu aos homens o conhecimento, o saber, o discernimento do bem e do mal, e a liberdade. É a negligência e a irresponsabilidade dos homens que engendram as paixões do mal. Portanto, Deus não é sua causa. Os demônios caíram na maldade depois de uma escolha deliberada. O mesmo acontece com a maior parte dos homens.
Conceba as coisas de Deus. Seja piedoso, sem inveja, bom, casto, doce, contente tanto quanto possível, afável, alheio às disputas. Possua estas virtudes e as que lhes assemelham. Pois esta é a fortuna inviolável da alma: agradar a Deus pelo exercício dessas virtudes, não julgar ninguém, não dizer de ninguém: “Fulano é mau, ele pecou”. É melhor nos ocuparmos de nossos próprios males e examinarmos se nossa própria conduta agrada a Deus. Porque afinal, que sentido faz nos preocuparmos se o outro é mau?

A alma se compadece do corpo, mas o corpo não se compadece da alma. Assim, quando o corpo está moribundo, a alma sofre com ele. E quando o corpo está vigoroso e se sente bem, a alma experimenta a mesma alegria. Mas quando a alma se põe a refletir, o corpo não acompanha esta reflexão. Ele permanece abandonado a si mesmo. Pois a reflexão é um estado da alma, assim como a ignorância, o orgulho, a perfídia, a cupidez, o ódio, a inveja, a cólera, o desdém, a vanglória, a estima, a discórdia, o sentido do bem. Tudo isto é suscitado pela alma.
Dentre aqueles que se encontram num albergue, alguns recebem um leito, outros não o obtêm e deitam-se no chão, onde roncam tanto quanto os que dormem em sua cama. Após passarem a noite e deixarem pela manhã os leitos, eles partem juntos, cada qual levando apenas o que possui. O mesmo acontece com todos os que chegam a este mundo. Tanto os que viveram pobremente quanto aqueles que passaram a vida entre a glória e a riqueza, todos saem da vida como do albergue. Eles não levam consigo nada daquilo que fazia as delícias e a riqueza do mundo. Eles não levam senão suas próprias obras, boas ou más: aquilo que fizeram durante a vida.
O homem dotado de razão é combatido pelos sentidos de sua natureza racional, por meio das paixões da alma. Ora, existem cinco sentidos no corpo: a vista, o olfato, a audição, o paladar e o tato. A infeliz alma é capturada pelos cinco sentidos quando ela se submete às quatro paixões que lhes correspondem. Estas quatro paixões são a vanglória, a loucura insensata, a cólera e a lassidão. Portanto, a partir do momento em que, com prudência e reflexão, o homem levou a bom termo o combate e dominou as paixões, ele não é mais combatido. Sua alma está em paz, e ele recebe a coroa de Deus por sua vitória.
Não convém que a alma que é dotada de razão e que combate, se deixe ficar facilmente apreensiva e medrosa diante das provas que lhe acontecem, se ela não quiser ser ridicularizada por sua preguiça. Pois a alma perturbada pela imaginação das coisas do mundo esquece o que ela deve a si mesma. São as virtudes da alma que nos abrem o caminho aos bens eternos. A causa dos castigos está no mal que os homens fazem a si mesmos.
Os sábios devem lembrar-se continuamente: se suportamos nesta vida as pequenas penas passageiras, nós os homens usufruiremos após a morte de um imenso prazer e de delícias eternas. Desde logo, aquele que combate as paixões e que quer ser coroado por Deus, se ele cair, não deve se desencorajar, nem permanecer em sua queda desesperando de si. Mas é preciso que ele se levante, retome o combate, e busque novamente a coroa. Até o último suspiro é preciso lembrar-se desta queda que lhe sucedeu. Pois os golpes que o corpo recebe são a armadura das virtudes e asseguram a salvação da alma.
Aqueles que participam dos Jogos Olímpicos não recebem a coroa por vencerem um, dois ou três adversários, mas após terem vencido a todos os que enfrentaram. O mesmo acontece com o homem que quer ser coroado por Deus. Sua alma deve dedicar-se à sabedoria, não somente nas coisas do corpo, mas em tudo o que se refere a perdas e ganhos, invejas, alimentos, a vanglória, as injúrias, a morte e as afecções análogas.
Saiba que as dores físicas são naturais do corpo, uma vez que este é corruptível e material. Diante de tais sofrimentos, a alma instruída deve armar-se de perseverança e paciência, e não reprovar a Deus por haver criado o corpo.
Os homens não devem adquirir nada de mais. Se por acaso eles têm muito, será bom para eles saber que tudo nesta vida é, por natureza, corruptível, tudo desaparece facilmente, se degrada e se destrói. Assim, eles não devem se inquietar com o que quer que aconteça.
Se você quiser, você será escravo das paixões. Se você quiser, e você é livre, você não será sujeito às paixões. Pois Deus o criou livre. E aquele que sobrepuja as paixões da carne recebe a coroa da incorruptibilidade. Pois se não houvesse paixões não haveria virtudes, nem as coroas dadas por Deus aos homens que delas são dignos.
Se nos esforçamos para cuidar das paixões do corpo para evitar a zombaria daqueles com quem encontramos, com mais razão devemos nos esforçar para curar as paixões da alma, uma vez que seremos julgados na presença de Deus, para que não sejamos submetidos à desonra e ao ridículo. Pois nós somos livres. Assim, mesmo quando sentimos em nós o desejo de más ações, não querer fazê-las é possível, está ao nosso alcance levar uma vida que agrade a Deus. Jamais alguém poderá nos forçar a fazer algo de mal, se não quisermos. Combatendo assim, seremos de fato homens dignos de Deus, e viveremos como anjos no céu.
 A gratidão e a conduta virtuosa são os frutos do homem que mais agradam a Deus. Ora, os frutos da terra não amadurecem em uma hora: é preciso tempo, a chuva, cuidados. Da mesma forma, os frutos do homem não brilham senão pela ascese, o estudo, o tempo, a perseverança, a obstinação e a paciência. Mas mesmo que, ao ver em você estes frutos, alguns o considerem um homem piedoso, desconfie sempre de si mesmo enquanto você viver em um corpo, e considere que nada daquilo que vem de você agrada a Deus. Saiba que, de fato, não é fácil um homem permanecer até o fim puro de toda falta.
Quando você fecha a porta de sua casa e fica só, saiba que um anjo designado por Deus a cada homem estará com você. É este anjo que os gregos chamam de daimon interior. Ele não dorme jamais. É impossível enganá-lo. Ele está sempre com você, ele vê tudo e a escuridão não o atrapalha. Com ele, Deus está em toda parte. Pois não existe lugar nem matéria aonde Deus não esteja, uma vez que ele é maior do que tudo e tem todos os seres em sua mão.
O que é conforme a natureza não é pecado. O pecado é a escolha do mal. Comer não é pecado. Pecado é comer sem dar graças, sem decência nem temperança. Pois convém guardar em vida o corpo fora de toda imaginação perversa. O olhar, se é puro, tampouco é pecado. O pecado está em olhar com inveja, com orgulho ou com indiscrição. É não escutar pacificamente, mas com hostilidade. É não guardar a língua para a ação de graças e a prece, mas deixá-la dizer não importa o quê. É não usar as mãos para socorrer os outros, mas servir-se delas para matar e roubar. Desta forma, cada um dos nossos membros peca por si só, fazendo mal em lugar do bem, contra a vontade de Deus.
As condições nas quais nos encontramos malgrado nós mesmos e sem que o desejemos são uma prisão e um castigo. Assim, ame aquilo que você possui atualmente. Pois se você o assumir de má vontade, você estará punindo a si mesmo por sua própria conta. Na verdade, não existe senão um caminho: o desprezo pelas coisas do mundo.
Quem não se satisfaz com o que possui presentemente para viver, mas quer sempre mais, sujeita-se às paixões que perturbam a alma e lhe impõem pensamentos e imaginações. Pois possuir mais é um mal em si. Assim como uma túnica grande demais atrapalha quem disputa uma corrida, também o desejo de aumentar as riquezas impede a alma de combater e ser salva.
Aqueles que conhecem a Deus enchem-se de todas as bem-aventuranças da bondade. Aspirando às coisas do céu, eles desdenham as coisas desta vida. Tais homens não agradam à maioria, nem tentam agradá-la. Assim, muitos dentre os que não compreendem nada, não apenas os detestam, como zombam deles. Em sua pobreza, eles aceitam suportar tudo isso, sabendo que o que parece um mal à maioria, aos seus olhos é o bem. Pois aquele cujo intelecto se abre às coisas celestes, crê em Deus e compreende que todas as coisas são criações de sua vontade, enquanto que aquele cujo intelecto não se abre, jamais acreditará que este mundo é obra de Deus e que ele foi feito para a salvação do homem.
Deus, com sua palavra, destinou as espécies animais a diferentes usos sucessivos. Algumas devem ser comidas, outras devem servir. E ele criou o homem para contemplar suas vidas e suas obras e para reconhecê-las e interpretá-las. Que os homens se apliquem, assim, a não morrer sem antes contemplar e entender Deus e suas obras, como os animais desprovidos de razão. O homem deve saber que Deus tudo pode, e que nada se opõe Àquele que pode tudo. A partir do nada ele fez, e fez tudo o que quis com sua simples palavra, para a salvação dos homens.
Quando você tiver que se haver com alguém que disputa e combate a verdade e a evidência, corte imediatamente a disputa e afaste-se deste homem cuja inteligência está petrificada. Da mesma forma, com efeito, com que uma água ruim estraga os melhores vinhos, também as conversas sem sentido corrompem aqueles que consagram a vida e o pensamento à virtude.
Não convém aos menos dotados dos homens, os que se desesperam de si mesmos, tratar com negligência e desdém a conduta virtuosa amada por Deus,  sob pretexto de ser-lhes inacessível e fora de alcance. Ao contrário, eles devem colocar nisso todas as suas forças e cuidar de si, pois mesmo que não possam atingir os cumes da virtude e da salvação, entretanto, por seu esforço e seu desejo, ou eles se tornam melhores, ou ao menos não se tornam piores, o que para a alma não é pouco benefício.
Os que consideram como uma infelicidade a perda de dinheiro, de filhos, de servidores ou de qualquer outro bem, saibam que devemos antes de tudo contentarmo-nos com o que Deus dá, e devolver-lhe com entusiasmo e gratidão, quando preciso, sem sermos afetados por esta privação, ou antes por esta restituição, pois aqueles que se servem daquilo que não lhes pertence não cessam de devolver.
Os homens bons e amados por Deus não denunciam o mal de outrem senão na sua presença, e cara a cara. Eles jamais reprovam os ausentes. E eles não aceitam escutar os que assim acusam os outros.
Os que se perderam por causa das esperanças desta vida e não sabem senão em palavras levar a vida mais bela, são um pouco como pacientes que buscam os remédios e os instrumentos da medicina, mas que não sabem servir-se deles nem se inquietam com isto. É por isso que, quando estamos em falta, não devemos jamais acusar nossos pais ou qualquer outra pessoa, mas apenas a nós mesmos. Pois se a alma se abandona à negligência, torna-se para ela impossível vencer.
A marca da alma dotada de razão e virtuosa está no olhar, no caminhar, na voz, no riso, nas ocupações e nas conversas. Pois tudo se transforma e se readapta para se tornar mais nobre. O intelecto amado por Deus guarda suas portas, vigilante e sóbrio, interditando a entrada à infâmia dos maus pensamentos.
É preciso que os homens se conduzam em verdade como convém a seu comportamento e sua conduta. Uma vez operado este redirecionamento, torna-se fácil conhecer as coisas de Deus. Com efeito, aquele que venera a Deus com todo seu coração e com toda sua fé, recebe da providência divina a possibilidade de dominar a cólera e a cobiça. Ora, a cobiça e a cólera são a fonte de todos os males.
Devemos chamar “criador de homens” àquele que é capaz de domar as naturezas incultas a ponto de fazê-las amar a instrução e a cultura. Da mesma maneira, aqueles que transformam os desviados inspirando-lhes uma conduta virtuosa que agrada a Deus, também devem ser chamados “criadores de homens”, pois eles remodelam os homens. Pois a doçura e a temperança são para as almas humanas uma felicidade e uma boa esperança.
Aqueles que desejam levar uma vida virtuosa, piedosa e louvável, não devem ser julgados por seu comportamento, que pode ser simulado, nem por sua conduta, que pode ser enganadora. Mas como os artistas, os pintores e os escultores, é por suas obras que eles revelam sua conduta virtuosa e amada por Deus, e que eles rejeitam como armadilhas todos os prazeres maus.
Não se deve dizer que é impossível ao homem alcançar uma vida virtuosa, mas sim que isto não é fácil. Esta vida não está ao alcance de qualquer um. Mas partilham a vida virtuosa aqueles, dentre os homens, que se consagram à piedade e cujo intelecto é amado por Deus. Pois o intelecto comum está voltado para o mundo, ele é mutante, ele nutre tanto bons como maus pensamentos, ele se altera por natureza e se dirige para a matéria. Mas o intelecto amado por Deus sabe preservar-se do mal que a negligência suscita no homem.

É examinando a si mesmo que o homem dotado de razão experimenta o que lhe convém e lhe é útil, o que é apropriado à alma e lhe é vantajoso, e o que lhe é estranho. E é assim que ele evita o mal que é nocivo à alma, por ser-lhe estranho e separá-la da imortalidade.
Se você pensa que ter dinheiro e mostrar opulência não passam de aparência ilusória e passageira, se você sabe que a vida virtuosa que agrada a Deus o resgata das riquezas, e se você refletir seriamente nisto e guardar na lembrança, você não mais gemerá, nem se lamentará, você não acusará ninguém, mas em tudo dará graças a Deus, vendo aqueles que são piores do que você apoiarem-se sobre a eloqüência e o dinheiro. Pois este é para a alma um mal tão grave como a cobiça, a ambição e a ignorância.
A temperança, a resignação, a castidade, a perseverança, a paciência e similares, são as correspondentes potências virtuosas consideráveis que recebemos de Deus para resistir às dificuldades do momento, fazer-lhes frente e nos socorrer. Se exercermos e mantivermos estas potências, perceberemos que daí em diante nada mais de difícil, doloroso e intolerável nos acontece, com o pensamento de que tudo é humano e pode ser dominado pelas virtudes que estão em nós. Os que não têm a inteligência da alma não pensam assim, pois eles não compreendem que tudo acontece para o bem e como se deve, para nosso benefício, a fim de que brilhem as virtudes, e que sejamos coroados por Deus.

O homem dotado de razão na verdade não tem senão uma coisa no coração: obedecer e agradar ao Deus do universo, e conformar sua alma com a única preocupação de Lhe ser agradável, dando-Lhe graças pela realidade e a força de sua providência por meio da qual Ele dirige todas as coisas, seja o que for que lhe aconteça durante a vida. De fato, seria fora de propósito agradecer pela saúde do corpo aos médicos que nos prescrevem remédios amargos e desagradáveis, enquanto recusamos a Deus a gratidão por coisas que nos parecem penosas, como se não soubéssemos que tudo o que acontece é como deve ser, e para nosso bem, pelos cuidados da providência. Pois o conhecimento de Deus e a fé nele são a salvação e a perfeição da alma.
Quando a idéia de um prazer se apoderar da sua imaginação, vigie para não se deixar invadir por ela. Apresse-se a se lembrar da morte e observe o quanto será melhor para você saber que superou mais esta perdição do prazer.
O homem conhece a Deus e é conhecido por Deus na medida em que se esforça para jamais separar-se dele. E o homem não se separa de Deus quando é bom e domina todo prazer, não por falta de recursos, mas por vontade e temperança.
O homem é o único ser capaz de receber a Deus. Ele é o único, dentre os seres vivos, com quem Deus conversa, à noite por meio dos sonhos, de dia através da inteligência. Assim, continuamente, Ele anuncia e apresenta previamente aos homens que são dignos disto os bens que os esperam.
É a providência divina que dirige o mundo. Nenhum lugar está privado dela. A providência é a razão absoluta que modelou a matéria para dela fazer o mundo. Ela é o criador e o artesão de tudo o que existe. Pois é impossível que a matéria tenha sido organizada sem o poder decisivo da razão, que é a imagem, a inteligência, a sabedoria e a providência de Deus.
A coroa da incorruptibilidade, a virtude, a salvação do homem, consiste em suportar as adversidades com coragem e gratidão. Dominar a cólera, a língua, o ventre e os prazeres, é também um grande auxílio para a alma.
Filocalia Tomo I Volume 1
ANTÔNIO
O GRANDE
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"Onde há vontade, há um Caminho"