Total de visualizações de página

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

A Paz que Brota do Perdão: o Início da Conversão - Continuação

A Paz que Brota do Perdão: o Início da Conversão - Continuação


A história da humanidade está repleta de ricos exemplos de homens e mulheres que viveram uma experiência de paz, transformando suas vidas. Através deste ângulo pessoal, inspiraram muitas pessoas a buscarem seguir por mesmo caminho, que podemos apresentar como um caminho de experiência do amor e do desejo de Deus para cada pessoa e para a sociedade: de viver intensamente em paz.

A paz se constitui em primeira instância como uma virtude que a alma experimenta porque faz uma experiência íntima de Deus, ou seja, é Deus quem pacifica o ser humano, porque dele tem misericórdia, nesse sentido ela é uma realidade teológica.

A paz também reflete uma realidade psicológica, como realidade prática na vida, na sociedade, porque ela incide sobre a qualidade dos interelacionamentos humanos, possibilitando ao indivíduo viver o amor de Deus amando o próximo, portanto de anteciparmos o reino de Deus entre nós, isto é, já experimentando uma perspectiva de ressurreição dos afetos, de recuperação da alegria, de aquisição de sentido e de geração de valores morais e éticos que ajudem à humanidade a se tornar cada vez mais humana, no sentido pleno que Deus criou. Trata-se de uma perspectiva de sacralização da vida presente até a Ressurreição eterna.

Isto se faz possível porque a paz é capaz de comunicar o eu interior presente na subjetividade da pessoa humana como realidade espiritual de criatura na qual Deus insufla o seu Espírito, que sabemos ser o Espírito da Paz, e esta presença santificante se mistura a um nós da comunidade para refletir a mesma realidade de doação divina, de um criador que nos faz sua imagem e semelhança.

A paz que Deus vivencia no interior da Trindade Santa é a paz que Ele manifesta ao mundo como manifestação harmoniosa de um viver no paraíso, lugar onde a perspectiva da vida comunitária tem sua maior significação e seu sentido mais pleno. A paz, então realiza o desejo e a realização do estar com Deus, de ir-Lhe ao encontro em todos os momentos e situações. Assim, a paz é um desafio à coragem e determinação humana, que nos podem demonstrar se optamos ou não por Deus e pelo paraíso.

O ser humano deseja este paraíso, e por ele se empenha à medida que descobre o sentido pleno e a riqueza do viver com Deus, presente na vida e no ser, e mais, da necessidade de ver Deus presente em cada pessoa humana. Com isso, a paz deixa de ser apenas uma experiência individual e se demonstra essencialmente comunitária.

Nesse sentido, tal desejo humano tem que se transformar em reflexo da ação direta da graça de Deus que ensina a pessoa individualmente, que toca no ser humano enquanto criatura e que transforma a sociedade num paraíso. Essa é uma utopia que nos inquieta e desafia. Daí podermos abstrair que o desejo humano de estar no paraíso de Deus é um princípio agente de transformação da realidade existencial em lugar da paz primordial, que predominava no início da criação, no Éden, como o modelo de lugar da Paz, que hoje queremos contemplar na pessoa humana e nas nossas comunidades.

Esse princípio ativo é o ir ao encalço da paz, é nossa caracterização como cristãos, uma vez que se manifesta no desejo de imitação do amor de um Deus que nos amou ao extremo, inclusive morrendo na Cruz como ação salvífica para toda a humanidade.

Na cruz Jesus Cristo viveu sua expressão máxima de comunhão com o Pai, falando-lhe de modo direto, de comunidade com a humanidade, manifestando que não nos deixaria órfãos e que nos enviaria o Paráclico. Qual foi então a expressão íntima do ser de Jesus Cristo naquele momento? A da comunhão que nos permitiria vivermos a paz realizada pela redenção. A paz, então é a marca da comunhão com Jesus Cristo, é expressão do ser membro da Igreja desse Jesus Cristo, que nasce na sua cruz. A paz, então é transformação da morte em ressurreição, e é por isso que se pode dizer que nenhum de nos gozará de paz se não nos esforçarmos e nos convertermos à esperança de que com a graça de Deus podemos ser novas criaturas.

O gesto do perdão de Jesus Cristo não foi uma manifestação de autoridade, mas de gratuidade. Aliás, a este propósito podemos ressaltar que muitas vezes não conseguimos entender em profundidade essa lição de Jesus, uma vez que tantas vezes encaramos nossas atitudes de perdão como necessidade explícita de comprovação de nossa autoridade, do tipo, eu perdou porque tenho razão, porque sou superior. Na prática, vivemos tentados a agir assim, mascarando-nos como virtuosos. Cristo não agiu assim, Ele era sobremaneira humilde. Perdoou porque simplesmente queria amar, e amar acima de tudo era o Príncipe da Paz.

Estamos diante de uma das realidades espirituais mais profundas da vida humana, isto é, a de podermos viver uma dimensão de paz, que se originou por conta do perdão na Cruz, concedido como gratuidade de Deus. E isso se prolonga ao longo de nossa história, porque mesmo recaídos por nossos pecados podemos receber o perdão e restabelecermos nossa paz com o Criador. Cada pessoa humana então, é um ser a quem Deus convida incessantemente a viver a paz interior do retorno, bem ao molde do filho pródigo.

Tudo o que se entende acerca da paz nada mais é do que descobrir que ela foi deixada por Deus como um sinal de sua harmonia, de sua presença, inclusive como estímulo à superação de nossos próprios limites. Viver em paz, é antes um desafio à humanidade e não um deleite egocêntrico. Por isso, ninguém pode viver em paz vendo que o seu próximo não a vive. No mínimo devemos mostrar-lhe nossa paz e ao máximo devemos nos empenhar para que dela ele participe. Isto é, quem vive em paz comunica paz, é agente de Deus na vida humana, é evangelizador, pois vive sua dimensão de missionário do amor de Deus.

Estamos diante de uma possibilidade histórica que nos permite reconhecermos na história da Igreja, uma grande quantidade de homens e mulheres que viveram essa busca como seu ideal maior, de modo que viveram em paz, daí serem admirados e se tornarem modelos.

Através desses exemplos de seguidores de Cristo (sem deixarmos de considerar a grandiosa quantidade de pessoas, que não cristãs, também foram em suas vidas, mensageiras da paz) podemos ressaltar de suas vidas que o encontro da paz, conduziu-lhes por um caminho de conversão de suas vidas.

Dentre o imenso número dos convertidos a Deus que por isso viveram uma experiência de paz interior, temos a figura de São João Gualberto. Homem incitado pela lógica de seu tempo histórico, por volta do ano 1000 a vingar o assassinato de seu irmão e com isso resgatar o poder e a autoridade de sua família.

A experiência histórica de João Gualberto, que lhe proporcionou o alcance de sua paz interior, teve como marco inicial sua experiência da Cruz de Cristo, que vivenciado num dos dias da liturgia do Tríduo Pascal, lhe demarcou o tempo de sua conversão e de sua vocação monástica.

Conta-nos a história, que numa Sexta-feira Santa, o jovem e valente João Gualberto encontra o assassino de seu irmão, a quem desejava matar para vingar o sangue do irmão e honrar o nome da família. Neste encontro todas as condições lhe estavam favoráveis para realizar com êxito o seu premeditado intento. Todavia, o jovem não imaginava que o seu inimigo tivesse a atitude de pedir-lhe perdão.

Assim, ele pede a João Gualberto que em nome do Cristo, que na Cruz perdoou seus crucificadores, e que naquele dia a Igreja celebrava como um mistério de salvação, ele lhe perdoasse.

Após alguns instantes de introspecção que tomaram conta de João Gualberto, o valente homem abraça o seu inimigo, experimentando um sentimento de libertação interior muito profundo. Era seu encontro com a paz.

O peso do desejo de vingança, a idéia fixa e a energia despendida no planejamento daquele momento, agora não mais existiam, e ele, João Gualberto abria-se a um estado interior de pacificação, o que também no outro deve ter acontecido em função da libertação do medo e do peso da consciência por ter matado alguém. Ambos viveram suas dimensões pessoais de encontro com a paz.

Quanto a João Gualberto, depois daquele momento marcante de sua vida, dirige-se à Igreja de São Miniato (Florença), confiada aos monges beneditinos cluniacenses, e lá vai rezar diante do crucifixo, ainda comovido pela menção do gesto de perdão de Cristo, que fora a estrutura de comunicação utilizada pelo seu inimigo: “Perdoa-me em nome do Cristo que hoje a Igreja celebra como a salvação e redenção da humanidade”.

Após sua oração e contemplação daquele crucifixo, percebe que o Cristo daquela cruz lhe inclina a cabeça. Esta experiência foi entendido por ele como um sinal da aprovação de Deus ao seu gesto humano, como também um chamado vocacional a tornar-se monge.

João Gualberto pede então, ao abade daquele mosteiro para ali tornar-se monge, e assim viver no claustro seu encontro com a paz. Ele vive dali por diante uma intensa recuperação de sentido para o ser cristão: perdoar e converter-se, expressões de uma alma que vive a paz como passagem a um estado de nova criatura.

Desta forma, o testemunho de paz desse santo monge reflete sua vida e espiritualidade, e chega até cada um de nós com a mesma intensidade de desafio, realizando assim a expressividade da paz beneditina como um dom e um desafio, que em nossa experiência de lectio divina podemos ler nas bem-aventuranças, ou seja, de que são “Bem-aventurados os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus”.

Dom Robson Medeiros OSBV, Prior
Mosteiro de S. João Gualberto
São Paulo - SP

A Semana Santa - A festa anual da Páscoa

A Semana Santa - A festa anual da Páscoa


Segundo alguns estudiosos, a narração da paixão segundo S. João foi fortemente influenciada pela prática litúrgica das Igrejas da Ásia Menor que celebravam a Páscoa no dia 14 de Nisan, aniversário da morte de Cristo. A narração da ceia nos evangelhos sinópticos seria o testemunho da páscoa litúrgica da era apostólica nas comunidades de tradição sinóptica. 1 Cor 5, 7-8 e a primeira epístola de Pedro, considerada uma homilia pascal e batismal, fornecem outras indicações sobre a celebração da páscoa pelos primeiros cristãos. É preciso chegar ao século II para encontrar alguma documentação que ateste a celebração anual da páscoa, o seu conteúdo e alguns elementos litúrgicos.
No final do século II as igrejas da Ásia Menor celebravam a páscoa e o fim do jejum no dia 14 de Nisan (daí o nome de “quarto decimanos”), aniversário da morte de Cristo, independentemente do dia da semana. As outras igrejas, mais dependentes de Roma, não interrompiam o jejum no dia 14 de Nisan, dia da morte de Cristo, porque celebravam a Páscoa no domingo seguinte.
Esta diversidade de datas no que respeita à celebração da Páscoa, no tempo do Papa Vítor (189-199), deu origem a uma controvérsia que ameaçou a própria igreja. A questão não estava em saber se a expressão “celebrar a páscoa” indicava a celebração da morte ou a celebração da ressurreição do Senhor, mas era a questão do dia o que mais interessava: não sabiam se deviam escolher o dia da morte ou o dia da ressurreição. O que estava em causa era, fundamentalmente, a acentuação do mistério pascal e a tentativa de abandonar definitivamente os costumes judaicos.
Nesta controvérsia podemos distinguir três aspectos: um cronológico, outro litúrgico e outro teológico.
A contenda terminou com o Concílio de Niceia (325). Nele se afirmou que “os irmãos orientais adotassem a mesma prática dos romanos e dos alexandrinos e de todos os outros”. Apesar de uma discussão acerca desta norma, por volta de 387, a celebração da Páscoa ao domingo perdurou até 1582, quando o Patriarca de Constantinopla, Jeremias II, se recusou, em nome da fidelidade ao Concílio de Niceia, a adotar o calendário gregoriano, promulgado nesse mesmo ano, sem o consenso da Igreja grega. A celebração foi fixada no primeiro domingo depois da lua cheia de primavera, situada entre o dia 22 de Março e 25 de Abril.
O Concílio Vaticano II mostrou-se disponível para aceitar a fixação da festa da Páscoa num domingo certo do calendário gregoriano, «se obtiver o assentimento daqueles a quem interessa, especialmente dos irmãos separados da comunhão com a Sé Apostólica» (esta disposição constituí o primeiro parágrafo do Apêndice da Sacrosanctum Concilium).
A celebração litúrgica da Páscoa desenvolveu-se a partir da Vigília Pascal. Nesta noite - atesta Tertuliano para África e Hipólito para Roma - depois das leituras, celebrava-se também o Batismo e a Vigília terminava com a Eucaristia ao raiar do sol do dia seguinte. A Vigília era precedida por um jejum, que iniciava na Sexta-feira Santa e só terminava à hora da Vigília. O Tríduo Pascal de Cristo, morto, sepultado e ressuscitado - como lhe chamava S. Agostinho - desenvolveu-se à volta da Páscoa dominical, celebrada no domingo sucessivo ao 14 de Nisan. Este tríduo constava de três dias, Sexta, Sábado e Domingo.
Quando no século IV se começou a interpretar os acontecimentos do Evangelho, a instituição da Eucaristia foi colocada na quinta-feira; esta celebração acabou por quebrar a unidade do tríduo pascal, a antiga estrutura (Sexta, Sábado e Domingo), e começou com a ser constituído pela Quinta, Sexta e Sábado. A Sexta-feira santa foi, como sabemos, esmagada pela devoção popular (ex. A via crucis e as procissões do “enterro do Senhor”). A Vigília pascal desapareceu totalmente e os seus ritos foram celebrados na manhã de sábado.
O tríduo pascal: celebração e teologia
A liturgia do tríduo tem o seu fundamento na unidade do mistério pascal que consta inseparavelmente da morte e ressurreição de Cristo. Cada celebração abre-se à que se segue porque a morte supõe a ressurreição e esta supõe a primeira. O centro de gravitação é, no entanto, a vigília pascal com a renovação das promessas batismais e a celebração eucarística. Em síntese, devemos dizer que a tríduo é a “páscoa celebrada em três dias”.
As Normas Gerais sobre o Ano Litúrgico e do Calendário (CR, 18) esclarecem que, tendo Cristo realizado «a obra da redenção humana e da perfeita glorificação de Deus… especialmente através do seu mistério pascal, com o qual, morrendo, destruiu a nossa morte, e ressuscitando restaurou a vida», «o Sagrado tríduo da paixão e ressurreição do Senhor e o ponto culminante de todo o ano litúrgico». Portanto, a preeminência de que goza o domingo na semana, goza-a a páscoa no ano litúrgico». «O tríduo pascal da paixão e ressurreição do Senhor inicia-se com a Missa da Ceia do Senhor, tem o seu centro na Vigília Pascal e termina nas Vésperas do domingo da ressurreição» (CR, 19).
Desde a publicação do MR 1570 até ao século XX e, em particular, até à recente reforma do Vaticano II não se realizaram mudanças significativas na estrutura das celebrações pascais. A mudança mais relevante neste período foi a reforma da Vigília pascal por iniciativa de Pio XII em 1951, acolhida depois pela reforma da Semana Santa, o Ordo Hebdomadae Sanctae instauratus de 1956. Este Ordo foi retomado e aperfeiçoado depois do Vaticano II, por isso ocupamo-nos apenas da liturgia atuai, fruto das decisões do Vaticano II que representam a melhor recuperação dos elementos da antiga tradição romana e nos conduzem a uma visão unitária destas celebrações.
Os atuais livros litúrgicos usam a expressão moderna Sacrum Triduum Paschale para indicar o período que tem início na missa vespertina in cena Domini de Quinta-feira santa, com o centro na Vigília pascal, e termina com as Vésperas no domingo da ressurreição (Cf. CR 19; MR 1970). Como dizem as Normas Gerais, no número 18: “O tríduo da paixão e ressurreição do Senhor é o centro e vértice do Ano litúrgico”. O tríduo pascal comemora o mistério da morte e ressurreição de Cristo.
Deste modo, foi recuperado o antigo tríduo de Cristo, morto, sepultado e ressuscitado. A perspectiva celebrativa da páscoa anual e histórica, que determinou a celebração em três dias, segundo a tradição cronológica neo-testamentária, presente no antigo Kerygma de 1Cor 15, 3-4: «Eu recebi do Senhor o que também vos transmiti: Cristo morreu pelos nossos pecados segundo as escrituras, foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia segundo as escrituras...», porque o “hoje” da celebração é sempre memorial de um acontecimento.
De fato, a celebração vespertina de Quinta-feira Santa faz parte - como “prólogo” sacramental - dos três dias do tríduo, que compreende os três dias seguintes (Sexta-feira, Sábado e Domingo). É, fundamentalmente, o que nos diz a primeira oração inicial (o missal propõe duas) de Sexta-feira Santa: «Jesus Cristo vosso Filho instituiu (inaugurou) o mistério pascal». Podemos dizer que enquanto o tríduo nos apresenta a realidade do mistério pascal na sua dimensão histórica, a celebração de Quinta-feira santa transmite-o na sua dimensão ritual; é o momento “sacramental” do único mistério pascal. Deste modo, a Quinta-feira Santa está ligada ao tríduo, ainda que historicamente não faça parte dele.
Quinta-Feira Santa: missa “in cena Domini”
Esta celebração tem um caráter festivo, unitário e comunitário. Nela celebramos a instituição da Eucaristia, inseparável, para o o seu entendimento, da cruz e da ressurreição. Na última ceia Jesus antecipa no rito eucarístico a sua oblação numa perspectiva de vitória. Os momentos fundamentais da celebração vespertina de Quinta-feira santa são: a liturgia da palavra (Ex 12, 1-8.11-14; 1 Cor 11, 23-26: Jo 13, 1-15); o lava-pés, opcional; a liturgia eucarística; a transladação do Santíssimo Sacramento; e a denudação do altar (feita em silêncio depois da celebração). No que respeita à reforma de 1956, a novidade mais importante é a proclamação de Ex 12 na primeira leitura, na qual se encontram as prescrições da ceia pascal hebraica, e o salmo responsorial (Sl 115) com o refrão: «O cálice de bênção é comunhão do sangue de Cristo».
Dada a multiplicidade de elementos que confluem nesta celebração, torna-se necessário fazer uma leitura unitária. Uma rubrica do Missal prescreve que na homilia «comentam-se os grandes mistérios que neste dia se comemoram: a instituição da Eucaristia, o sacramento da Ordem e o mandato do Senhor sobre a caridade». Significa isto que o sacerdócio ministerial e a caridade são componentes irrenunciáveis de cada celebração eucarística. No que concerne à instituição da eucaristia, esta deve ser lida à luz da antiga tradição romana: a entrega (traditio) que o Senhor fez aos seus discípulos dos mistérios cultuais do seu corpo e do seu sangue para que o celebrassem.
A celebração vespertina de Quinta-feira Santa é, portanto, memorial daquele momento em que Jesus, antes de se entregar à morte, confiou para sempre à sua Igreja o novo e eterno sacrifício, convite nupcial do seu amor, para que esta o perpetuasse em sua memória.
Sexta-Feira Santa: celebração da paixão
A celebração de Sexta-Feira da Paixão do Senhor divide-se em três partes: liturgia da palavra (Is 52, 13-53, 12; Heb 4, 14-16; 5, 7-9; Jo 18, 1-19, 42); a adoração da Santa Cruz; comunhão eucarística. A reforma de 1956 tinha re-introduzido a comunhão dos fiéis, que ainda se mantém e que é causa de alguns problemas teológico-pastorais. Alguns interpretam esta estrutura, fruto de uma síntese de diversas tradições, de uma forma linear: “paixão proclamada (liturgia da palavra); paixão invocada (oração universal); paixão venerada (adoração da cruz); paixão comungada (comunhão eucarística). O problema não está, no entanto, na estrutura da própria celebração mas na harmonia desta celebração no conjunto do tríduo pascal, que se orienta para a celebração eucarística da Vigília pascal. Tendo ainda em conta o jejum prescrito pelas Normas Gerais sobre o Ano Litúrgico e do Calendário (28) para este dia, a problemática da comunhão de Sexta-Feira Santa é ainda mais evidente. O problema não é histórico e muito menos arqueológico, mas teológico: em primeiro lugar, recordemos que para além da presença eucarística, existem outras expressões da presença de Cristo (cf. SC 7); em segundo lugar, convém ter presente que a cruz gloriosa constitui o simbolismo central de Sexta-Feira Santa. É de tal maneira notório este simbolismo que até as duas orações (uma “depois da comunhão” e outra “sobre o povo”) que encerram esta celebração fazem especial menção à «gloriosa morte e ressurreição de Cristo» (depois da comunhão) e à «morte do vosso filho na esperança da ressurreição» (oração sobre o povo).
Em relação à reforma de 1956, a novidade encontra-se nas primeiras duas leituras. A primeira (a passagem do servo de IHWH de Isaías) é para ser compreendida à luz de Cristo sofredor. Conserva-se a proclamação da Paixão segundo S. João, para o qual a morte de Jesus não é uma derrota mas uma vitória; é uma “elevação” no duplo sentido da palavra: sobre a cruz e para a glória. A aclamação antes do Evangelho (Fil 2, 8-9) coloca-se na óptica de João quando anuncia a exaltação de Cristo obediente até à morte… Para além disso, numerosas variantes nos textos eucológicos configuram a celebração como memorial do sacrifício “pascal” de Cristo.
A paixão/morte de Cristo deve ser entendida à luz do seu aspecto soteriológico, que culmina com o convite sugerido na segunda leitura: «vamos, portanto, cheios de confiança, ao trono da graça, a fim de alcançarmos misericórdia e obtermos a graça de um auxílio oportuno» (Heb 4, 16).
Foram re-elaboradas as grandes intercessões, nas quais se evidenciam as orações V e VI, a primeira pela unidade dos cristãos e a segunda pelos judeus. No que concerne aos impropérios (o Missal italiano traduziu por “lamentações do Senhor” - lamenti del Signore) são exatamente o que a palavra indica, os impropérios que o Senhor levantado na Cruz dirige ao seu povo. Neles se percorrem as primeiras etapas da História de Israel nas quais Deus se manifesta como salvador; apesar destes acontecimentos se terem realizado em favor do povo este não o soube reconhecer, matando aquele que sempre o beneficiou. Na Idade Média os impropérios foram interpretados numa perspectiva anti-judaica. Devem, no entanto, ser entendidos como expressão da recusa da comunidade, judaica e cristã, diante de Deus que oferece continuamente a salvação.
A liturgia das horas, com os seus elementos característicos (salmos e leituras), apresenta-nos uma ampla releitura do mistério da cruz. As antífonas que acompanham a oração dos salmos da hora intermédia (Tercia, sexta e Noa) e as antífonas de Vésperas de Sexta-Feira Santa percorrem passo a passo os diversos momentos históricos do drama da cruz, até à última antífona de Vésperas que recorda o momento culminante do drama: «tendo tomado o vinagre, Jesus disse: tudo está consumado. E inclinando a cabeça, expirou».
A passagem patrística do Ofício de leituras, das Catequeses de S. João Crisóstomo, ilustra a força do sangue de Cristo e, em particular, explica o simbolismo da água e do sangue que saíram do lado de Cristo: o primeiro (a água) símbolo do Batismo; o segundo (o sangue) símbolo da Eucaristia. Portanto, conclui o santo bispo, «foi do lado de Cristo que se formou a Igreja, como foi do lado de Adão que Eva foi formada».
O Sábado Santo: o sepulcro de Cristo e a descida aos infernos
Com a reforma de Pio XII, retomada fundamentalmente pelo Vaticano II, o Sábado Santo adquiriu o seu aspecto originário: é o dia de Cristo sepultado. Não é um dia “aliturgico” como normalmente é chamado, porque a liturgia é sempre mais que a celebração da Eucaristia. Seria “aliturgico” se não se celebrasse a liturgia das horas, que aliás nos transmite o significado deste dia. A Igreja recomenda o jejum e a “veneração” do sepulcro na expectativa da ressurreição do Senhor, porque como diz a segunda antífona do Ofício de leituras, «o meu corpo descansará na esperança».
Tal como os dias anteriores, o sábado santo propõe a totalidade do mistério pascal. A interpretação que dele faz a Igreja está presente nos três salmos do Ofício de leituras que iluminam o mistério da Páscoa nos três momentos de morte, sepultura e ressurreição. O Sl. Nr. 4 celebra Cristo morto que repousa tranqüilo em Deus: «em paz me deito e adormeço tranqüilo, porque só vós, Senhor, me fazeis repousar em segurança» (v. 9). O Sl. 15 celebra a espera confiante da ressurreição de Cristo sepultado: «Vós não abandonareis a minha alma na mansão dos mortos, nem deixareis o vosso fiel sofrer a corrupção» (v. 10). Finalmente, o Sl 23 celebra a plena glorificação de Cristo que ultrapassa as portas do céu para ser entronizado à direita do Pai: «levantai, ó portas, os vossos umbrais, alteai-vos, pórticos antigos, e entrará o rei da glória» (v. 9). Assim também os dois salmos e o cântico de laudes (Sl 63, Is 38, Sl 150), iluminados pelas antífonas correspondentes, dirigem a nossa atenção para os três momentos: de morte («…O Senhor morreu inocente), de repouso na esperança («livrai-me, Senhor, das portas do abismo) e de glorificação («Eu estive morto, mas agora vivo para sempre, e tenho as chaves da morte e do abismo»). Os salmos das outras horas do Ofício e os outros elementos, como as leituras bíblicas, as invocações e as intercessões, sublinham ora um, ora outro momento do mistério pascal.
O tema específico do sábado Santo, para além do repouso de Cristo no sepulcro, é a sua “descida aos infernos”. Deste tema fala-nos longamente a belíssima homilia de um anônimo do IV século que é lida no Ofício de leituras. O tema reaparece na oração do dia e nas invocações de laudes e mais tarde vamos encontrá-lo durante o tempo pascal. Trata-se de um artigo de fé que a liturgia proclama no pouco usado símbolo dos Apóstolos e na IV Oração Eucarística, estranho à sensibilidade moderna e à consciência dos crentes, mas fundamental para o entendimento do sentido cristológico e soteriológico da Páscoa. A homilia de Sábado Santo (leitura patrística do Ofício de leitura) afirma a este respeito: «Deus adormeceu segundo a carne e despertou os que dormiam à séculos» e ilustra com imagens sugestivas o encontro de Cristo com Adão e os outros justos que jazem «nas trevas e na sombra da morte», aos quais o Redentor anuncia a salvação e conduz à eterna morada do reino dos céus: «e Cristo tomando Adão pela mão, levantou-o dizendo: desperta tu que dormes; levanta-te de entre os mortos, e Cristo te iluminará». A mesma doutrina encontra-se nas preces de laudes quando, na quarta petição, diremos: «Cristo, novo Adão, que descestes ao reino dos mortos para libertar os justos que, desde a origem do mundo, estavam encarcerados».
A descida de Cristo aos infernos tem, por conseguinte, uma dimensão eclesial - sacramental. É o que nos diz a oração daquele dia, a qual depois de ter recordado que o Filho de Deus («depois de ter descido à morada dos mortos») apresenta a seguinte súplica: «concedei aos vossos fiéis que, sepultados com Cristo no Batismo, também com Cristo ressuscitem para a vida eterna». No Sacramento do Batismo, o homem entra neste itinerário de solidariedade “dentro” e “para além” da morte de Cristo, pelo qual se torna membro da comunidade dos redimidos, como ilustra S. Paulo em Rm 6, 4-5, texto que inspira a última invocação de laudes: «Cristo, Filho de Deus vivo, que pelo Batismo nos sepultastes convosco na morte, conformai-nos cada vez mais à imagem da vossa ressurreição para vivermos uma vida nova.
A Ressurreição do Senhor: Vigília Pascal
Nesta noite «a Igreja espera a ressurreição de Cristo e celebra-a nos Sacramentos» (CR, 21). É a mãe de todas as vigílias, como lhe chamava S. Agostinho. No MR 1970 a vigília pascal está em relação com o domingo de páscoa: “Domingo de Páscoa in resurrectione Domini”
A primeira celebração do domingo de páscoa é, portanto, a vigília pascal. O simbolismo fundamental desta vigília é a de ser uma “noite iluminada”, ou melhor, “uma noite vencida pelo dia”, demonstrando através de símbolos, sinais e ritos que a vida da graça nasce da morte de Cristo. Por isso a Vigília é, por natureza, noturna. A espera, típica da vigilância, está em relação com a segunda vinda de Cristo, afirma-o uma rubrica que se encontra no missal, antes do formulário da celebração: «segundo uma antiqüíssima tradição, esta é uma noite de vigília em nome do Senhor, noite em que os fiéis celebram segundo a recomendação do Evangelho, de lâmpadas acesas na mão (Lc 12, 35), à semelhança dos servos que esperam o Senhor, para que quando Ele vier, os encontre vigilantes e os faça sentar à sua mesa».
A estrutura da celebração desta vigília introduz os participantes na contemplação da Páscoa em todas as suas dimensões: a liturgia da luz ou “lucernário” (bênção do fogo novo, preparação e procissão do círio e o canto do exultet ou “precónio pascal”) celebra a Páscoa cósmica, que assinala a passagem das trevas para a luz; a liturgia da palavra (com sete leituras (ou quatro obrigatórias) do Antigo Testamento mais duas do novo) celebra a Páscoa histórica evocando os principais momentos da história da salvação; a liturgia batismal celebra a Páscoa da Igreja, povo renascido da fonte batismal; a liturgia eucarística celebra a Páscoa perene e escatológica com a participação no banquete eucarístico, imagem da vida nova e do reino prometido.
A liturgia da palavra sofreu mudanças consideráveis ao longo dos séculos. As leituras constituíam a preparação última dos catecúmenos, antes de receber o Batismo. Os textos proclamados convidam-nos a percorrer todas (ou pelo menos as mais importantes) etapas da salvação que apontam para o momento único da Páscoa do Senhor. Esta Páscoa do Senhor é, pois, a Páscoa da Igreja, como proclama Rm 6, 3-11 (a primeira leitura do NT): «fomos sepultados com Cristo no Batismo na sua morte, para que, assim como Cristo ressuscitou dos mortos pela glória do Pai, também nós vivamos uma vida nova». A Páscoa é, portanto, um convite a viver e a renovar todos os dias o acontecimento salvífico que se realizou em nós no dia do nosso Batismo.
O Domingo de Páscoa celebra o acontecimento pascal como o «dia de Cristo Senhor». As leituras bíblicas contêm o kerygma pascal e apelam para as condições da vida nova em Cristo ressuscitado. Como diz a atual coleta para este dia (proveniente do sacramentário GeV), celebrar a Páscoa significa «ser renovados pelo Vosso Espírito [para que] ressuscitemos para a luz da vida», isto é, a luz de Cristo ressuscitado. A páscoa é, portanto, a celebração de um acontecimento central da vida de Cristo, realizado de uma vez por todas, pelo qual, através das diversas celebrações do tríduo pascal, alcançamos a salvação, a passagem da morte à vida no presente da vivência eclesial.

Vejamos o belo exemplo de Jó:

 

Leitura do Livro de Jó 2, 1-13

Coberto de chagas, Jó e visitado pelos amigos

Ora, um dia em que os filhos de Deus se apresentaram diante do Senhor, Satanás apareceu também no meio deles na presença do Senhor.
O Senhor disse-lhe: De onde vens tu? Andei dando volta pelo mundo, respondeu Satanás, e passeando por ele.
O Senhor disse-lhe: Notaste o meu servo Jó? Não há ninguém igual a ele na terra, íntegro, reto, temente a Deus e afastado do mal. Persevera sempre em sua integridade; foi em vão que me incitaste a perdê-lo. Pele por pele!, respondeu Satanás. O homem dá tudo o que tem para salvar a própria vida. Mas estende a tua mão, toca-lhe nos ossos, na carne; juro que te renegará em tua face.
O Senhor disse a Satanás: Pois bem, ele está em teu poder, poupa-lhe apenas a vida.
Satanás retirou-se da presença do Senhor e feriu Jó com uma lepra maligna, desde a planta dos pés até o alto da cabeça.
E Jó tomou um caco de telha para se coçar, e assentou-se sobre a cinza.
Sua mulher disse-lhe: Persistes ainda em tua integridade? Amaldiçoa a Deus, e morre!
Falas, respondeu-lhe ele, como uma insensata. Aceitamos a felicidade da mão de Deus; não devemos também aceitar a infelicidade? Em tudo isso, Jó não pecou por palavras.
Três amigos de Jó, Elifaz de Temã, Bildad de Chua e Sofar de Naama, tendo ouvido todo o mal que lhe tinha sucedido, vieram cada um de sua terra e combinaram ir juntos exprimir sua simpatia e suas consolações.
Tendo de longe levantado os olhos, não o reconheceram; e puseram-se então a chorar, rasgaram as vestes, e lançaram para o céu poeira, que recaía sobre suas cabeças.
Ficaram sentados no chão ao lado dele sete dias e sete noites, sem que nenhum lhe dirigisse a palavra, tão grande era a dor em que o viam mergulhado.



 


Comunhão no Amor - A nossa comunhão é com o Pai

Comunhão no Amor
trad.: Pe. José Artulino Besen*
A nossa comunhão é com o Pai
e com o seu Filho Jesus Cristo. 1Jo 1,3
II - A Vida no Espírito

A ação espiritual
O fundamento de nosso caminho - fundamento que será clarificado tanto para aqueles que apenas estão no início, quanto para aqueles que já tomaram a resolução de continuar a caminhada até o final - é a descoberta de um amor verdadeiro e ardente a Deus, de uma fé livre que não tenha outra preocupação que somente Deus, de um abandono confiante à vontade de Deus, de uma disponibilidade constante em renegar-se a si mesmo. Este fundamento é, na realidade, o conteúdo dos mandamentos de Deus, é o evangelho transformado em regra de vida.
Esses quatro pontos nada mais são do que condições que necessária e integralmente devem fazer parte de nossa existência antes de iniciar o caminho. Contudo, é necessário que nossa alma, de qualquer modo, esteja aberta a eles e deles provemos o desejo. Em si, porém, este fundamento não basta para preparar nosso espírito, nem para garantir um caminho livre de perigos. Alcançar o fim do caminho, atingir o reino de Deus e a união com Deus, reserva ainda numerosas dificuldades.
Por isso, é oportuno apoiar neste fundamento uma ação que lhe seja conatural e que se regenere continuamente. Uma ação que se realize no homem por meio de Deus, uma ação enfrentada através das tentações, as provas e as muitas dores que interna ou externamente atingem o homem, uma ação que se complete durante todo o percurso por meio da penitência, da submissão e do abandono da própria vontade em Deus. Esta ação põe à prova a força e a solidez do fundamento, delas reforçando a capacidade de influência e delas ampliando a base. Por acaso podemos esquecer o modo pelo qual Cristo exprimiu o amor que o fez aceitar os sofrimentos, e como ele aprendeu a obediência através do sofrimento, obediência até a morte? Como, ainda uma vez, seu total abandono foi posto à prova quando exclamou do alto da cruz: Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste? (Mc 15,34)? Podemos esquecer o modo como ele exercitou a negação de si nos sofrimentos voluntários do Getsêmani: Mas não se faça a minha vontade, e sim a tua (Lc 22,42), até o final do Tudo está consumado (Jo 19,30)?
Vê-se, com clareza que, durante toda a sua vida terrena, Cristo não procurou assentar-se à direita do poder do Pai, mas sim, dele realizar a vontade. Por isso, enquanto estamos a caminho, não nos é lícito fixar o olhar em eventuais favores e dons de Deus, para consegui-los. Nem mesmo os menores favores devem se tornar objeto de exigência em nossa oração. O que nos é pedido é fazer com todo o coração a vontade de Deus e fazer dela a finalidade de nossa ação, com toda submissão e reconhecimento, quaisquer que sejam as situações que Deus permite e as circunstâncias que escolhe para nós, confiantes por estarmos sob sua proteção, aconteça o que acontecer. Sentir uma grande atração pela perfeição cristã: disso é que precisamos. É a única coisa agradável a Deus, mas deve ser uma atração conforme ao seu desejo e às modalidades por ele escolhidas.
A perfeição não é o objeto de um desejo projetado num futuro obscuro, mas uma necessidade do espírito, no exato momento em que se o vive. No hoje, nós possuímos a nossa vontade, as nossas intenções e podemos oferecê-las a Deus; já o futuro, é Deus que o possui totalmente: não dispomos absolutamente dele e por isso nada podemos oferecer-lhe. Quem acredita poder oferecer seu futuro a Deus é semelhante a quem oferta um capital fictício. Nada conhecemos do futuro; não entra na esfera de nosso poder e, espiritualmente, não podemos discerni-lo. O instante que agora vivemos: eis o que possuímos da existência.
No instante presente tomamos consciência de nós mesmos, podemos discernir com clareza os nossos defeitos, mas também as potencialidades não usufruídas. É também no presente que podemos contemplar, com base naquilo que verdadeiramente há em nós, a vontade de Deus relativa àquilo que nos é pedido fazer. A perfeição cristã se concretiza em nós, no hoje, em função da realidade que percebemos: ela, de fato, está em nós e, se quisermos, podemos vê-la com a mesma clareza com que agora vemos o céu sobre nós e a terra sob nós... Pelo contrário, se dermos um passo atrás para examinar nosso passado, encontramo-lo obscurecido e disperso como por um vento que nos atinge e ultrapassa, sem que possamos segui-lo ou saber para onde foi. Se fixarmos lá nossa imaginação, afundamos em nossos pensamentos, vamos ao encontro de nosso fracasso ou, pelo menos, não alcançamos a perfeição. E se buscamos possuir o futuro, nos aprisionamos na previsão de pensamentos nebulosos e obscuros que nos prejudicam a visão e impedem-nos de discernir a perfeição que Deus deseja para nós.
Assim, nossa única esperança está na realidade colocada diante de nós com a finalidade de uma ação consciente; de fato, se perdemos em nós a delicadíssima percepção do presente e por indolência deixamos escapar a ocasião de agir no momento presente, o único oportuno, é a vida inteira que foge de nós.
Todavia, as nossas ações, mesmo se encerram amor, fé e negação de si, abandono à vontade de Deus, de per si não nos levam a um estado de santidade nem nos predispõem a algum dom e, nem mesmo, podem fazer-nos entrar num estado de plena segurança e paz.
E então, quem pode nos dar todos esses dons? Deus! O Deus que não cessa de guiar a alma dócil nos caminhos difíceis e nas provações, de obscuridade em obscuridade, entre as inquietações provocadas que, aparentemente, não têm nenhum sentido. De tal modo, fazendo-a enfrentar a realidade e aceitar provas dolorosas, guia-a e a faz atravessar o drama do mundo e a hostilidade dos malvados; deste modo, Deus a inicia naqueles dons que não chamam a atenção e numa vida de grande espiritualidade.
Os dons de Deus não estão nas mãos dos anjos, nem nas alturas dos céus. Podemos encontrá-los no confronto diário que a cada dia a carne, o mundo e os homens nos impõem. Por si só este confronto não atrai o dom de Deus, mas é por causa de Deus que nos abstemos das culpas da carne e enfrentamos o mal que há no mundo e no homem.
O dom da lucidez espiritual brota somente das trevas obscuras que o espírito atravessa na inquietação e no atordoamento das provas, às voltas com a realidade em que está encoberta a verdade. A alegria verdadeira e a perseverança fiel têm como fonte escondida aqueles sofrimentos e dores que o homem instintivamente rejeita. Mas, graças à paciência, o homem acaba por descobrir que nestas provações havia apenas uma aparente coerção que mascarava uma verdade clara, firme e esplendorosa, no espírito de uma alegria divina, não enganadora. O homem não pode saborear o amor divino na sua graça e imensidão, a não ser depois que seu espírito passou pela provação da hostilidade, do ódio, da provocação dos homens.
Mas, sozinha, a obscuridade não produz luz alguma, assim como a tristeza, sozinha, não traz a alegria, nem ódio produz o amor. Sozinha, a terra não produz as plantas, pois é necessária a semente, semeada com atenção e cuidado. Além disso, para germinar, deve-se pôr sob a terra não uma semente qualquer, mas aquela que contém vida!
De modo análogo, é necessário que o espírito esteja vivo e em estado de perfeita submissão a Deus, para que a mão misericordiosa o ponha na terra das provações, com aqueles cuidados e naquele modo exato que o ajudarão a tirar proveito da obscuridade, da dor, do desprezo e assim permitir-lhe-á comunicar o movimento de vida eterna, na qual se manifestam os atributos da eternidade: alegria, amor, paz e perseverança.
Deste modo, constatamos que, para o homem a caminho, é exigido estar num estado de vigilância constante nos confrontos de toda a realidade de sua vida, voltando o olhar atento àquela verdade onipresente que há nele e que exige ação e fadiga. É pedido ao homem estar pronto para enfrentar toda circunstância que seja causa de mal-estar e de antagonismo, com uma atitude positiva que saiba reconhecer os perigos reais e tirar proveito de tudo aquilo que acontece nele e para ele. É-lhe exigido buscar em toda atitude a união com Deus, submetendo-lhe inteiramente a vontade. Sem inquietação ou perturbação, qualquer que seja a situação, e sem angústia nem hesitação, por mais prolongada que seja a prova. E tudo isso sem precipitar-se em fazer suposições sobre as causas e sem, nem mesmo, apressar-se em querer conhecer as conseqüências.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

PREPARANDO O CICLO PASCAL – TRÍDUO

PREPARANDO O CICLO PASCAL – TRÍDUO


Na edição anterior reunimos uma série de lembretes a respeito da quaresma. Nossa Referencia principal foi a carta circular, “Preparação e celebração das festas pascais” (PCFP)1, que propõe com novo vigor as normas sobre o ciclo pascal. Também nos serviu de orientação o “Diretório sobre piedade popular e liturgia” (DPPL)2. Desta vez, vamos voltar a nossa atenção para o Tríduo Pascal, “fonte de luz” de todo o ano litúrgico.Sentido do tríduo pascal

O tríduo pascal, memória dos ‘últimos passos de Jesus, “começa com a missa vespertina na Ceia do Senhor, possui o seu centro na vigília pascal e encerra-se com as vésperas do domingo da ressurreição” (NUAL, 19)3. É a páscoa do Senhor, celebrada sacramentalmente em três dias: Sexta-feira da paixão, sábado da sepultura e domingo da ressurreição. É chamado “tríduo pascal, porque com a sua celebração se torna presente e se cumpre o mistério da páscoa, isto é, a passagem do Senhor deste mundo ao Pai” (cf. PCFP, 38).

“Partindo do tríduo pascal, como da sua fonte de luz, o tempo novo da Ressurreição enche todo o ano litúrgico com sua claridade” (CIC, 1168)4. “Por isso, a páscoa não é simplesmente uma festa entre outras; é ‘a festa das festas’ (...). O mistério da ressurreição, (...) penetra o nosso velho tempo com a sua poderosa energia, até que tudo lhe seja submetido” (CIC, 1169).

<><>
A data da páscoa
“No Concílio de Nicéia (325) todas as Igrejas chegaram a um acordo que a páscoa cristã fosse celebrada no domingo que segue a lua-cheia (14 de Nisan) depois do equinócio de primavera. A reforma do calendário no Ocidente (chamada ‘gregoriana’, do nome do papa Gregório XIII, em 1582) introduziu uma defasagem de vários dias em relação ao calendário oriental. Hoje as Igrejas ocidentais e orientais buscam um acordo, a fim de se chegar novamente a celebrar em uma data comum o dia da Ressurreição do Senhor” (CIC, 1170)



Onde celebrar

Certamente o documento não tem como referência as paróquias (urbanas ou rurais) formadas por várias comunidades, como temos no Brasil; nem comunidades com assembleias litúrgicas com bom número de membros e ministérios, embora refira-se a paróquias pequenas confiadas a um só padre. Fala da possibilidade dos fiéis se reunirem na igreja principal para celebrarem o tríduo e de mais de uma celebração presidida pelo mesmo padre em igrejas diferentes (cf. PCFP, n. 43). Não considera o tríduo pascal celebrado “na ausência do presbítero”, como acontece em algumas de nossas paróquias e comunidades, com muitos e bons frutos.

Preparação remota dos ministérios

Para o desenvolvimento conveniente das celebrações do tríduo pascal, requer-se um suficiente número de ministros e de ajudantes (acolitas e acólitos), “que devem ser diligentemente instruídos sobre o que devem fazer”. Mais do que isto: o mistério celebrado e seus ritos devem ser relembrados aos ministros e ajudantes. E mais: estes não são improvisados, mas frutos de uma pastoral litúrgica e de uma prática celebrativa séria; colhemos o que foi plantado.

<><>
Preparar ao longo da quaresma
Esta é uma experiência muito interessante: preparar o tríuduo pascal a partir da primeira semana da quaresma. Mais de uma reunião é reservada para cada celebração. O primeiro contato é com a seqüência ritual de cada celebração: preparada por alguém, com cópia para todos. Em cada rito dá-se o tempo necessário para os participantes lerem os textos, comentarem, tirar dúvidas, explicitar o sentido... Depois disto, passa-se para o método consagrado dos quatro passos: o mistério da celebração, a Palavra de Deus, sugestões para a realização dos ritos (cantos, etc) e, finalmente, distribuição dos ministérios e serviços. Com certeza será preciso marcar uma reunião para vivenciar alguns ritos.



Preparação do canto

Particular importância é dada ao canto do povo, dos ministros e de quem preside a celebração do tríduo pascal, atribuindo às conferências episcopais o dever de propor melodias para os textos e as aclamações. O documento fala de “um repertório próprio para estas celebrações” e a elas reservado (reserva simbólica), tendo em conta a devida participação do povo. Chega mesmo a apontar o que deve ser cantado, por exemplo: o relato da paixão e a oração universal, a proclamação da páscoa, a ladainha dos santos e a bênção da água batismal... (cf. PCFP, 42). No Brasil dispomos já um rico repertório apropriado e reservado para a celebração do tríduo pascal5.

<><>
Salmos cantados com melodia única
Em geral em nossas comunidades não dispomos de muita gente habilitada para o canto e a música. A grande quantidade e variedade de cantos fazem com que as pessoas envolvidas no ministério da música tenham sua participação limitada pela preocupação com as diferentes melodias. Uma boa solução foi dada pela 7ª edição do 2º fascículo do Hinário da CNBB: as versões dos salmos responsoriais da vigília aí apresentadas, tendo a mesma métrica, podem ser cantados com a mesma melodia, o que facilita, e muito, a atuação dos/as salmistas e sua participação no conjunto da celebração.

<><>

Lava-pés alternativos
Em algumas comunidades procurase preparar o lava-pés em sintonia com o apelo da Campanha da Fraternidade do ano. Muitas vezes também mulheres e crianças têm os seus pés lavados. Aquele que preside às vezes é sucedido por irmãos e irmãs da comunidade. Há, inclusive, pequenas comunidades onde os membros podem lavar os pés uns dos outros. O mandato de Jesus de lavar os pés mutuamente é compreendido como destinado aos ministros ordenados e a todos os membros da Igreja: algo extremamente significativo em um mundo marcado pela exclusão e pela competição.



<><>
Pão e oração em família
Uma prática possível e bem aceita. Pode incluir os vizinhos, mas prioriza unir os membros da mesma casa, onde nem todos participam do tríduo pascal. A partir do domingo de ramos, ou mesmo da quarta-feira de cinzas, pode ser preparada uma mesa com toalha e uma Bíblia e, se for conveniente, velas. Nesta noite, ao voltar para casa, um membro da família receberá pão e uma breve proposta de oração. Ao redor da mesa preparada em sua casa, irá rezar e partilhar o pão, lembrando a ceia do Senhor com seus discípulos.


SEXTA-FEIRA SANTA
Sentido

A Sexta-feira Santa não é dia de enfatizar o sofrimento de Cristo, mas de contemplar com atenção amorosa a sua morte vitoriosa, a sua bem-aventurada e gloriosa paixão. “Neste dia, em que ‘Cristo, nosso cordeiro pascal, foi imolado’ a Igreja, com a meditação da paixão do seu Senhor e Esposo e adorando a cruz, comemora o seu próprio nascimento do lado de Cristo que repousa na cruz, e intercede pela salvação do mundo todo” (PCFP, 58).
Jejum e abstinência

“É sagrado o jejum pascal destes dois primeiros dias do tríduo, em que, segundo a tradição primitiva, a Igreja jejua “porque o Esposo lhe é tirado. Na Sexta-feira da Paixão do Senhor, em toda a parte o jejum deve ser observado juntamente com a abstinência, e aconselha-se prolongá-lo também no Sábado Santo, de modo que a Igreja, com o espírito aberto e elevado, possa chegar à alegria do Domingo da Ressurreição” (PCFP, 39 e 60).
Manhã de sexta-feira
Ofícios

É recomendada a celebração comunitária, nas Igrejas, do ofício da leitura e das laudes matutinas na Sexta-feira Santa da paixão e também no Sábado Santo, com a participação do povo para contemplar em piedosa meditação a paixão, morte e sepultura do Senhor, à espera do anúncio da sua ressurreição (cf. PCFP, 40 e 62).

Nas matrizes – sem dúvida – e em todas as comunidades onde for possível deveriam ser organizados os ofícios e o ofício das leituras na manhã da sexta-feira santa. Desta forma estaríamos oferecendo algo consistente à assembléia litúrgica e aos “peregrinos” que visitam as igrejas neste horário. Ofício divino das comunidades e Liturgia das horas completam-se na preparação desses momentos comunitários de oração, ao redor do altar desnudado.
<><>
Meio-dia e oração em família
Há famílias onde se faz jejum ao longo de todo o dia; não se houve música; a alimentação é mínima e muito simples. Comidas típicas são feitas para a noitinha. Há, no entanto, uma tradição de se fazer jejum até a metade do dia e depois partilhar um almoço à base de peixe e tendo o vinho (não a cerveja) como bebida. Para muitos escravos era o único dia do ano realmente “santo”, sem trabalho, onde os “senhores” lhes davam o “quebrajejum”. Tal confraternização de familiares (e amigos) – como de costume – prolonga-se pela tarde (impedindo o povo de estar na igreja às quinze horas). Em ambos os casos cabe muito bem uma oração comum, sugerida pela comunidade eclesial.


Celebração da paixão do Senhor
Sentido

Pela ação litúrgica da tarde a Igreja "medita a paixão do seu Senhor, intercede pela salvação do mundo, adora a cruz e comemora a própria origem do lado aberto do Salvador" (DPPL, 142).
A cruz da adoração

“A cruz a ser apresentada ao povo seja suficientemente grande e artística. Das duas formas indicadas no missal para este rito, escolha-se a mais adequada. Este rito deve ser feito com um esplendor digno da glória do mistério da nossa salvação ...” (PCFP, n. 68). Adquirir essa cruz deve entrar na lista de prioridades da comunidade.

E não se pode esquecer: “Use-se uma única cruz para a adoração, tal como o requer a verdade do sinal” (PCFP, n. 69). Há antífonas, ‘lamentos’ e hinos apropriados para a adoração, “que recordam com lirismo a história da salvação”. Estão no hinário da CNBB. Outro desafio para os animadores do canto da comunidade: aprender o apropriado e deixar de lado o improviso.
O lugar da cruz depois da comunhão

Duas orientações muito válidas: “Depois da comunhão proceda-se à desnudação do altar, deixando a cruz no centro, com quatro castiçais. (Depois) Disponha-se na igreja um lugar adequado (por exemplo, a capela da reposição da eucaristia na quinta-feira santa), para colocar ali a cruz, a fim de que os fiéis possam adorá-la, beijá-la e permanecer em oração e meditação” (PCFP, n. 71).
<><>
Horário mais tarde: por quê?
A celebração litúrgica deve estar acima das “práticas piedosas”, mesmo na escolha do horário (PCFP, 72). Em muitos lugares o final da tarde e a noite são preferíveis por motivos vários: existe o costume do povo vir à igreja nesse horário, como ponto alto do dia; o calor do dia de verão é mais suave; a confraternização do almoço em família já terminou. Há o simbolismo das três horas da tarde, mas a celebração pode ser realizada “desde o meio-dia até ao entardecer, mas nunca depois das vinte e uma horas” (PCFP, n. 63). O motivo é facilitar a reunião dos fiéis. As práticas piedosas (se realmente necessárias) são realizadas após a celebração litúrgica.

Práticas piedosas

São também chamadas de “pios exercícios” a via-sacra, o grande sermão (das “sete últimas palavras de Jesus”), a descida da cruz, a procissão do Senhor morto, etc. As práticas piedosas para alguns são um complemento da celebração litúrgica; para outros são a expressão mais forte – às vezes única – da sexta-feira da paixão do Senhor. Uma advertência que merecia ser aprofundada: evitar o “hibridismo celebrativo distorcido” entre ação litúrgica e práticas piedosas (cf. DPPL, n. 143). Uma orientação valiosa: “Os textos e os cânticos destes pios exercícios correspondam ao espírito litúrgico deste dia” (PCFP, n. 72).
<><>
Vinho e oração em família
No final deste dia poderia novamente a família se reunir. Agora, o membro que participou da celebração da paixão trará da comunidade um copo de vinho engarrafado e uma nova proposta de oração: nova oração e partilha em lembrança da entrega do Senhor.


SÁBADO SANTO
Sentido

“Durante o Sábado Santo a Igreja permanece junto do sepulcro do Senhor, meditando a sua paixão e morte, a sua descida aos infernos, e esperando na oração e no jejum a sua ressurreição” (PCFP, 73). É momento de meditar sobre a sepultura do Senhor, certificação de sua morte, pertencente à forma mais antiga da fé: ‘Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras, foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras (1Cor 15,3-4).
<><>
Sábado santo hoje
O sábado santo, em nossos tempos, é um dia de compras e limpeza da casa. Até mesmo a sexta-feira santa em muitas cidades perdeu quase toda a reverência da população. Na Baixada Fluminense, para muitos é dia de descontração com churrasco e cerveja. O crescimento dos evangélicos parece ter ajudado a desvanecer o caráter religioso desses dias. Também é assim na maioria das cidades brasileiras?

Jejum pascal e algo mais

Algo não integrado em nossa prática: aconselha-se prolongar o jejum também no Sábado Santo, “de modo que a Igreja, com o espírito aberto e elevado, possa chegar à alegria do Domingo da Ressurreição” (PCFP, 39).

Em algumas comunidades é feita uma limpeza especial do templo, em forma de mutirão. Ainda há tempo disponível para a confissão sacramental. O retiro de sábado santo começa a ser promovido, como veremos. “Recolhimento” dos membros da comunidade e seus catecúmenos é a proposta do Ritual da iniciação cristã dos adultos.
Ofícios pela manhã e à tarde

Diferentemente da Igreja antiga que, no Sábado Santo, não se reunia nem mesmo para as orações, hoje recomenda-se com insistência a celebração comunitária do oficio das leituras e das laudes com a participação do povo (cf. PCFP, 73 e 40). A comunidade reunida na igreja (não na capela da reposição), encontrará nos salmos, nos próprios relatos evangélicos referente ao sepultamento de Jesus e no texto patrístico do sábado santo, rica expressão do mistério deste dia. O Ofício Divino das Comunidades e a Liturgia das Horas oferecem indicações preciosas para o ofício da manhã, do meio dia e da tarde (vésperas).
Ritos com os catecúmenos

No sábado santo a Igreja recomenda que os catecúmenos façam jejum e reservem tempo para a oração, participando do “recolhimeno” de toda a comunidade. Há ritos previstos para esse dia como o “éfeta”, a recitação do creio, o sentido do nome... A Igreja sabe, no entanto, que o trabalho profissional nem sempre permite um encontro para a celebração dos ritos.
<><>
Retiro na tarde de sábado?
Pode ser feito com os catecúmenos, ao redor dos ritos e leituras bíblicas previstas. Além dos padrinhos e introdutores, podem participar membros da comunidade. Igualmente pode ser preparado um retiro para os membros da comunidade, mesmo que não haja batismo na vigília pascal. Os ofícios desse dia (seja no Ofício Divino das Comunidades, seja na Liturgia das horas) darão a orientação na escolha dos textos e dos cantos. Há comunidade que une o retiro ao começo da vigília pascal.

VIGÍLIA E DOMINGO DE PÁSCOA
Sentido do domingo e da vigília

“O domingo de páscoa é a máxima solenidade do ano litúrgico” (DPPL, 148). Segundo uma antiga tradição, esta noite é consagrada ‘em honra do Senhor’ “e a vigília que nela se celebra, comemorando a noite santa em que o Senhor ressuscitou, deve ser considerada a ‘mãe de todas as santas vigílias’. Nesta vigília, a Igreja permanece à espera da ressurreição do Senhor e a celebra com os sacramentos da iniciação cristã” (PCFP 77) (...) “Com efeito, a ressurreição de Cristo é o fundamento da nossa fé e da nossa esperança, e por meio do Batismo e da Confirmação fomos inseridos no mistério pascal de Cristo: mortos, sepultados e ressuscitados com Ele, com Ele também havemos de reinar” (PCFP 80)
<><>
Prática alternativa de começar de madrugada

A vigília pascal deve terminar antes do amanhecer. Embora não seja comum, é possível começar a vigília de madrugada, ao redor das quatro horas. Nem todas as cidades e bairros permitem o livre trânsito das pessoas, mas há muitas vantagens nesta opção. Na escuridão e no silêncio, desenvolve-se a mãe de todas as vigília cristãs. Um café da manhã comunitário também faz sentido.

Estrutura da vigília

“A vigília tem a seguinte estrutura: depois do lucernário e da proclamação da Páscoa (primeira parte da vigília), a santa Igreja contempla as maravilhas que Deus operou em favor do seu povo desde o início (segunda parte ou liturgia da Palavra), até ao momento em que, com os seus membros regenerados pelo Batismo (terceira parte), é convidada à mesa, preparada pelo Senhor para o seu povo, memorial da sua morte e ressurreição, à espera da sua nova vinda (quarta parte). Esta estrutura dos ritos por ninguém pode ser mudada arbitrariamente” (PCFP, 81).
Possibilidades do círio

Costumamos dar preferência aos círios pascais pintados (e escavados) com a cruz, o “a” (alfa) e o “z” (ômega), assim como a indicação do ano em curso. Mas essa não é a primeira opção do missal. A primeira é o círio despojado de qualquer inscrição. Ele é símbolo por ser uma grande vela e pelo material com que é feito, embora a maioria das comunidades não tenha condições de ter um círio de “cera virgem”. A segunda opção é fazer as inscrições na própria celebração, com um estilete. A terceira possibidade é a nossa costumeira.


Participação dos neófitos

Recém-nascidos é a tradução literal de neófitos; aqueles que foram iniciados no mistério de Cristo pelo batismo e pela confirmação na vigília pascal. Pela primeira vez, agora como membros do povo sacerdotal, participam das preces e levam os dons do pão e do vinho até o altar. Pela primeira vez participam da oração eucarística e da recitação da oração do Senhor e, como ápice da iniciação, se aproximam da mesa para a comunhão eucarística. É conveniente que participem de todo o tríduo pascal, embora sem comungar.
<><>
Ovos de galinha, água e oração em família

No final da vigília, os participantes podem receber ovos de galinha cozidos e, eventualmente, coloridos. (As crianças da comunidade poderão pinta-los na semana santa.) Um ovo para cada membro da família, a ser partilhado no café da manhã ou no almoço. A ressurreição do Senhor é lembrada com esse sinal de fecundidade e com uma oração proposta pela comunidade. O almoço de páscoa também costuma ser festivo e reunir parentes e amigos e pede uma bênção à mesa. Outro sinal que poderá ser levado para cada é a água benta, tão apreciada.

Mistagogia e “verdade dos sinais”

A primeira parte da vigília pascal “compreende ações simbólicas e gestos, que devem ser realizados com tal dignidade e expressividade, de maneira que os fiéis possam verdadeiramente compreender o significado, sugerido pelas advertências e orações litúrgicas. Na medida em que for possível, prepare-se fora da igreja, em lugar conveniente, o braseiro para a bênção do fogo novo, cuja chama deve ser tal que dissipe as trevas e ilumine a noite. Prepare-se o círio pascal que, no respeito da veracidade do sinal, deve ser de cera, novo cada ano, único, relativamente grande, nunca artificial, para poder recordar que Cristo é a luz do mundo. A bênção do círio seja feita com os sinais e palavras indicados no Missal ou por outros aprovados pela Conferência Episcopal” (PCFP 82).

“A liturgia da vigília pascal seja realizada de modo a poder oferecer ao povo cristão a riqueza dos ritos e das orações; é importante que seja respeitada a verdade dos sinais, se favoreça a participação dos fiéis e seja assegurada a presença de ministros, leitores e cantores” (PCFP 93).

“Ao anunciar a vigília pascal, evite-se apresentá-la como o último ato do Sábado Santo. Diga-se antes que a vigília pascal se celebra ‘na noite da Páscoa’ e como um único ato de culto. Recomenda-se encarecidamente aos pastores insistir na formação dos fiéis sobre a importância de se participar em toda a vigília pascal” (PCFP 95).

“Para poder celebrar a vigília pascal com o máximo proveito, convém que os próprios pastores adquiram um conhecimento melhor tanto dos textos como dos ritos, a fim de poderem dar uma mistagogia que seja autêntica” (PCFP 96).
Aspersão com água

“A missa do dia da Páscoa deve ser celebrada com grande solenidade”. O que é sugerido para todos os domingos do ano, aqui se recomenda de maneira especial: em lugar do ato penitencial, o rito da aspersão "com a água benzida durante a celebração da vigília”. Temos uma boa versão para o canto da antífona (Vidi aquam) sugerida para acompanhar o gesto da aspersão: ‘eu vi, eu vi, vi foi água a manar’ ou ‘Banhados em Cristo’. Com essa mesma água convém encher os recipientes (vasos, pias) que se encontram à entrada da igreja (cf. PCFP, 97)
“Vésperas batismais”

“Conserve-se, onde ainda está em vigor, ou, segundo a oportunidade, instaure-se a tradição de celebrar as vésperas batismais do dia da Páscoa, durante as quais ao canto dos salmos se faz a procissão à fonte” (PCFP, 98).
1 CONGREGAÇÃO PARA O CULTO DIVINO. Paschalis Sollenitatis: A Preparação e Celebração das Festas Pascais (carta circular), 1988. Foi publicada no Brasil com o Título: Preparação e Celebração das Festas Pascais, na coleção, Documentos Pontífícios, n. 224, p. 25.

2 CONGREGAÇÃO PARA O CULTO DIVINO E A DISCIPLINA DOS SACRAMENTOS. Diretório sobre piedade popular e liturgia; princípios e orientações. São Paulo: Paulinas, 2003. Cf. especialmente pp.112-156 sobre o ciclo pascal.

3 Normas Universais do Ano Litúrgico

4 Catecismo da Igreja Católica.

5 Cf. CNBB. Hinário Litúrgico da 2º fascículo. Quaresma, Semana santa, Páscoa, Pentecostes. São Paulo: Paulus, 2006. 7ª Edição, revisada e ampliada. Cf. também Cds: Tríduo pascal I e II. São Paulo: Paulus.

6 BERGAMINI, Augusto. Cristo, festa da Igreja; o ano litúrgico. São Paulo: Paulinas, 1994, p. 316.

7 Instrução Geral sobre o Missal Romano

8 Este ofício ampliado, encontra-se na página eletrônica da revista de Liturgia e da Rede celebra, com o nome: “Vigília com Jesus no Horto”.
“Dons para os pobres”

A celebração da Ceia, é o lugar e o critério para verificar a coerência entre a eucaristia e a comunhão fraterna, como acena o relato do lava-pés proclamado neste dia. Por isso, está previsto para a procissão das ofertas que se apresentem “os dons para os pobres, especialmente os que foram recolhidos no tempo quaresmal como frutos de penitência” (PCFP, 52), ou como resultado da Campanha da Fraternidade.
Doentes

“Para os doentes que recebem a Comunhão em casa, é mais oportuno que a Eucaristia, tomada da mesa do altar no momento da Comunhão, seja a eles levada pelos diáconos ou acólitos ou ministros extraordinários, para que possam assim unir-se de maneira mais intensa à Igreja que celebra” (PCFP, 53).
Reposição do pão eucarístico

Devemos ter cuidado com a condução deste rito. O essencial da celebração já se realizou: Palavra, lava-pés, eucaristia. A reposição do Santíssimo Sacramento não é o ápice dessa noite. Apesar da cruz, círios acesos e incenso, deve predominar a sobriedade na procissão e na reposição, para não se perder a densidade da celebração e sua continuidade com a paixão.
Adoração ao SS.

“A piedade popular é particularmente sensível à adoração do Santíssimo Sacramento... É preciso que os fiéis sejam esclarecidos sobre o sentido da reposição; realizada com austera solenidade...” (DPPL, 141). Os fiéis são convidados, à adoração silenciosa e prolongada, até a meia noite, quando começa o dia da Paixão do Senhor. É importante evitar, que depois da meia noite, continuem os turnos organizados de adoração para que esta continue, de fato, “sem solenidade” (cf. DPPL, 141 e PCFP, 56). Mais do que das explicações catequéticas, a clareza virá da maneira de proceder. A experiência tem mostrado a importância de valorizar o canto dos salmos nesta adoração e o documento sugere que “Durante a adoração eucarística prolongada pode ser lida uma parte do Evangelho de João (13-17)” (PCFP, 56), apontando a adoração como mistagogia da celebração.
Desnudamento do altar

Concluída a celebração, a mesa do altar é desnudada. “Convém cobrir as cruzes da igreja com um véu de cor vermelha ou roxa, a não ser que já tenham sido veladas no sábado antes do V domingo da Quaresma. Não se podem acender velas ou lâmpadas diante das imagens dos santos” (PCFP, n. 57).
Ofício

Na liturgia das horas não há um ofício próprio para oração da comunidade depois da reposição do Santíssmo. O Ofício Divino das Comunidades, contudo, apresenta o “ofício da agonia”, (ODC, p. 55)8. Não sendo a adoração uma ação litúrgica, o estilo proposto é o da leitura orante, intercalando a recitação comunitária de salmos e leituras com os momentos de silêncio e oração pessoal. Uma boa alternativa para este tempo prolongado de adoração!








A CELEBRAÇÃO NA CEIA DO SENHOR
Sentido

A celebração da Ceia do Senhor, “Recorda aquela última ceia em que o Senhor Jesus, na noite em que ia ser traído, tendo amado até ao extremo os seus que estavam no mundo ofereceu a Deus Pai o seu Corpo e Sangue sob as espécies do pão e do vinho e deu-os aos apóstolos como alimento” (PCFP, 44). Celebrada nas horas vespertinas da Quinta-feira Santa, tem caráter mais propriamente de ‘primeiras vésperas’ da ‘bem-aventurada paixão’, acenado já na antífona de abertura: devemos gloriar-nos na cruz... “Enquanto o Tríduo nos apresenta a realidade do mistério pascal único e unitário na sua dimensão histórica, a quinta-feira o transmite em sua dimensão ritual” (Bergamini, 316)6. É o momento sacramental da páscoa do Senhor, resumindo no Lava-Pés e no Sacramento do Pão e do Vinho, antecipadamente, todo o Mistério que vai se desdobrar no sacratíssimo Tríduo do Salvador, crucificado, sepultado e ressuscitado... O que deve ser sublinhado é a dimensão ritual, ou seja, o rito memorial, que torna presente o mistério pascal de Cristo (sem esquecer que a verdadeira eucaristia da páscoa, a missa da comunhão pascal é a da vigília, ápice da iniciação cristã).
Tabernáculo vazio

Para que apareça a ligação entre os gestos de Jesus que deram origem à liturgia eucarística (Jesus tomou o pão, deu graças, partiu e repartiu) “as hóstias para a comunhão dos fiéis devem ser consagradas na mesma celebração da missa”, por isso, “antes da celebração, o tabernáculo deve estar vazio”. O que está em jogo é a verdade dos sinais “para que a comunhão se manifeste mais claramente como participação do sacrifício celebrado” (IGMR, 56, h)7. “Consagrem- se nesta missa hóstias em quantidade suficiente para este dia e para o dia seguinte” (PCFP 48).
Capela da reposição

Nesta noite, consagrada à lembrança da eucaristia, com o sinal da adoração, a Igreja quer sublinhar a presença permanente de Cristo sob as espécies eucarísticas, como aspecto decorrente da celebração. Deste modo, o mistério eucarístico é considerado tanto na celebração da missa como no culto das santas espécies, que são conservadas depois da missa. Contudo a reserva do sacramento do Corpo do Senhor é destinada em primeiro lugar para a comunhão dos fiéis na ação litúrgica da Sexta-feira Santa e para o Viático dos enfermos (Cf. DPPL, 141 e PCFP, 55). As orientações parecem supor que havendo capela do Santíssimo, é para lá que devem ser conduzido procissionalmente o sacramento do corpo do Senhor, desde que haja espaço para abrigar certo número de fiéis. Caso contrário, “reserve-se uma capela para a conservação do Santíssimo Sacramento”. Algumas recomendações a propósito deste lugar da reposição: que seja ornado de modo conveniente, para que possa facilitar a oração e a meditação; que seja sóbrio, como convém à liturgia destes dias; o sacramento seja conservado num tabernáculo ou cibório fechados, nunca exposto em ostensório (cf. PCFP, 55).
Lava-pés

“O lava-pés que, por tradição, é feito neste dia a alguns homens escolhidos, significa o serviço e a caridade de Cristo, que veio ‘não para ser servido, mas para servir’ (Mt 20,8). Convém que esta tradição seja conservada e explicada no seu significado próprio” (PCFP, n. 51). Quanto ao beijo dos pés após a lavagem, como acontece no Vaticano e comumente entre nós, não é citado. O rito, como foi dito, expressa o serviço e a caridade do Cristo à humanidade.