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domingo, 16 de setembro de 2012

Pe. Henrique Cláudio de Lima Vaz

 

Henrique Cláudio de Lima Vaz, S.J. (Ouro Preto, 24 de agosto de 1921 — Belo Horizonte, 23 de maio de 2002) foi um padre jesuíta, professor, filósofo e humanista brasileiro.
Juventude e formação inicial
O Padre Vaz nasceu em Ouro Preto. Era irmão de Dom José Carlos de Lima Vaz. Entrou na Companhia de Jesus em 28 de março de 1938. Fez seus estudos filosóficos no antigo escolasticado dos jesuítas em Nova Friburgo. Em 1945, foi para Roma estudar Teologia na Pontifícia Universidade Gregoriana, onde concluiu o curso de licenciatura com uma dissertação intitulada O problema da beatitude em Aristóteles e Santo Tomás.
Sua ordenação presbiteral deu-se a 15 de julho  de 1948. Completou sua formação religiosa em Gandia, na Espanha. Voltando a Roma, obteve em 1953 o doutorado em Filosofia pela Universidade Gregoriana, com a tese De dialectica et Contemplatione in Platonis Dialogis, que versou sobre a dialética e a intuição nos diálogos platônicos da maturidade.
Magistério
Lima Vaz trabalhou no magistério filosófico universitário durante quase 50 anos. Primeiro na Faculdade de Filosofia da Companhia de Jesus em Nova Friburgo (1953-1963), que depois foi transferida para São Paulo (1963-1974)- período em que Lima Vaz esteve ausente do ensino na falcudade - e, depois para o Rio de Janeiro (1975-1981) e, novamente transferida para Belo Horizonte (1982-). Ensinou também em cursos do Departamento de Filosofia da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal de Minas Gerais de 1964 a 1986, da qual recebeu em 2001, o título de Professor Emérito.


Ação Popular
Nos anos 60 tornou-se mentor da Juventude Universitária Católica (JUC) e da Ação Popular, na sua primeira fase. Num cenário agitado e confuso como o da época, os artigos de Lima Vaz tiveram o impacto de uma lufada de ar puro sobre uma geração cristã, que se sentia asfixiada por uma tradição religiosa alheia aos desafios políticos e culturais do seu tempo. Lima Vaz soube como ninguém oferecer uma análise crítica do pensamento marxiano numa atitude intelectual firme e aberta ao debate, criticando todo reducionismo intra-histórico pelo chamado à transcendência, mas, ao mesmo tempo, questionando a posição tradicional a partir do pensamento dialético.
Fé e Razão
A religião e a fé, para Lima Vaz, não eram algo extrínseco com o qual se relacionava: nelas vivia e delas se alimentava espiritualmente. Por isso ele afirmava não experimentar conflitos interiores a respeito da compatibilidade entre suas convicções religiosas e sua vocação de filósofo. Desde o início deixou-se guiar pela diretriz de Santo Agostinho: "crê para entenderes e entende para creres". Desta forma, seu trabalho filosófico manteve-se rigorosamente dentro das exigências metódicas e doutrinais da razão. E, todas as vezes que atingia as fronteiras onde a razão se encontra com a fé, essa linha divisória era explicitamente traçada.
Erudição
Um erudito, Lima Vaz possuía uma sólida e vasta cultura científica e humanística, bem como um amplo conhecimento filosófico de todo o pensamento ocidental.
Vinculado fundamentalmente à Metafísica clássica, possuía um vivo interesse pelo pensamento moderno e seus principais representantes, deixando-se seriamente questionar pela modernidade. Grande destaque deve ser dado, também, ao seu profundo conhecimento da obra de Hegel.
Nos seus últimos trabalhos buscou analisar a realidade sociocultural contemporânea e a crise da modernidade sob os aspectos filosóficos, éticos, políticos e religiosos. Nestas suas investigações, tomou posição no debate de idéias a respeito do sentido transcendente da existência humana e dos rumos de nossa civilização.
Síntese Filosófica
Sua síntese filosófica pessoal apoiava-se em três grandes influências: Platão, Tomás de Aquino e Hegel. Mas, seu autor predileto é, sem dúvida, Tomás de Aquino. Lima Vaz via na obra de Tomás de Aquino, especialmente na sua metafísica, tal profundidade, lucidez e equilíbrio nas questões fundamentais que, ainda hoje, suas intuições são, segundo Lima Vaz, capazes de fecundar a reflexão. E, nesta união fecunda de elementos antigos, como a metafísica de Tomás de Aquino, e perspectivas renovadoras, com ênfase na dialética hegeliana, Lima Vaz colocava-se em busca de uma vida ética, onde fosse possível a realização da humanidade na liberdade, na verdade, na beleza e na justiça.
Nos seus últimos escritos, Lima Vaz busca recuperar a idéia de sistema no sentido da articulação ordenada do pensamento, sem a qual não há leitura coerente da realidade, e a filosofia se esvai em gratuitos jogos de linguagem. A partir desta idéia de sistema Lima Vaz constrói, principalmente, sua Antropologia Filosófica e sua Ética Filosófica. Seu último livro, Raízes da Modernidade, propõe para o nosso tempo, tempo de incertezas e de renovadas articulações, o humanismo teocêntrico como itinerário para a realização plena do ser humano em sua existência pessoal e social.
Cultivou uma vida recolhida, simples, sem ostentação, impondo-se um ritmo de trabalho disciplinado e austero.
O Padre Vaz veio a falecer em Belo Horizonte no dia 23 de Maio de 2002, devido a complicações pós-operatórias.
Bibliografia
Obras de Lima Vaz
Livros
Escritos de Filosofia I: Problemas de Fronteira, São Paulo: Loyola, 1986
Escritos de Filosofia II: Ética e Cultura, São Paulo: Loyola, 1988.
Escritos de Filosofia III: Filosofia e Cultura, São Paulo, 1997.
Escritos de Filosofia IV: Introdução à Ética Filosófica I, São Paulo: Loyola, 1999.
Escritos de Filosofia V: Introdução à Ética Filosófica II, São Paulo: Loyola, 2000.
Escritos de Filosofia VI: Ontologia e História (2a. edição), São Paulo: Loyola, 2001.
Escritos de Filosofia VII: Raízes da Modernidade, São Paulo: Loyola, 2002.
Antropologia Filosófica I, São Paulo: Loyola, 1991.
Antropologia Filosófica II, São Paulo: Loyola, 1992.
Experiência Mística e Filosófica da Tradição Ocidental, São Paulo: Loyola, 2000.
Obras sobre Lima Vaz
AQUINO, M. F. "Experiência e Sentido I", Síntese, n.47, 1989, pp.29-50
AQUINO, M. F. "Experiência e Sentido II", Síntese, n.50, 1990, pp.31-54.
AQUINO, M. F. "Metafísica da subjetividade e linguagem I", Síntese, n.61, 1993, pp. 199-218.
AQUINO, M. F. "Metafísica da subjetividade e linguagem II", Síntese, n.67, 1994, pp. 495-528.
AQUINO, M. F. "Metafísica da subjetividade e linguagem III", Síntese, n.71, 1995, pp. 453-488.
AQUINO, M. F. "Sistema e Liberdade: a propósito de 'Ontologia e História'", Síntese, n.55, 1991, pp.499-504.
BARILE, J. P. "O Mundo das Idéias do Padre Vaz" (entrevista), Jornal O Tempo – Caderno Engenho e Arte – Belo Horizonte, domingo, 13/08/1997.
BARROS, J. T. "Ao mestre com carinho", Jornal de Opinião, n.680, Belo Horizonte, 10/06/2002.
BRUNELLI, M. "Ética e sua Crise", Síntese, n.55, 1991, pp.585-593.
CRUZ, P. C. "Antropologia e Razão Moderna no Pensamento de Lima Vaz", Pontificia Università della Santa Croce, Roma, 1997.
DE PAULA, J. A. "A dignidade da razão", Revista Ciência Hoje, n.146, vol.25.
DRAWIN, C. R. "Henrique Vaz e a opção metafísica", Síntese, n.94, 2002.
HERRERO, X. "Política e Justiça", Síntese, n.44, 1988.
KONDER, L. "Filosofia Brasileira", Jornal do Brasil – Rio de Janeiro, 28/08/2002.
LANDIM, R. "Entre a Razão e a Fé", Folha de São Paulo, 14/09/2002.
MAC DOWELL, J. (org.). "Saber Filosófico, História e Transcendência", São Paulo: Loyola, 2002.
MONDONI, D. "In Memoriam", Síntese, n.94, 2002.
NOBRE, M. e REGO, J. M. Conversa com Filósofos brasileiros, São Paulo: Editora 34, 2000.
PALÁCIO, C. (org.), Cristianismo e História, São Paulo: Loyola, 1982.
RIBEIRO, Elton Vitoriano. A questão da intersubjetividade no pensamento ético-filosófico de H. C. de Lima Vaz. Dissertação de mestrado. Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Programa de Pós-Graduação em Filosofia, 2003. (Orientador: Edgar J. Jorge Filho).
SAMPAIO, R. G. O Ser e os Outros, São Paulo: Ed. Unimarco, 2001.
SANTOS, J. H. "Ética e Medida", Síntese, n.55, 1991, pp.577-584.
SHIMMI, R. A. "Herança Cristã da Experiência de Sentido na Crise da Modernidade - considerações a partir do pensamento de Lima Vaz" (http://www.saobento.org.br/dissertacao/Dissertacao_-_Renato_Akira_Shimmi.pdf). Dissertação de mestrado. Faculdade de Filosofia do Mosteiro de S. Bento - São Paulo, 2011. Orientação de Franklin Leopoldo e Silva.
SHIMMI, R.A. "Lima Vaz e a Herança Teológica da Modernidade - A experiência de sentido http://pt.scribd.com/doc/102714029/LIMA-VAZ-E-A-HERANCA-TEOLOGICA-DA-MODERNIDADE-renato-akira-shimmi
SOUZA, L. A. G. "Pe. Vaz, mestre de uma geração de cristãos", Síntese, n.55, 1991, pp.643-651.
TEIXEIRA, F. "O vigor de um humanista", Jornal de Opinião, n.680, Belo Horizonte, 10/06/2002.
TOLEDO, C. e MOREIRA, L. (orgs.), Ética e Direito – Textos de H. C. de Lima Vaz, Belo Horizonte: Ed. Landy, 2002.
Padre Vaz, filósofo de um mundo em busca de sentido
Com a morte do padre Henrique Cláudio de Lima Vaz, professor emérito
da UFMG, o pensamento brasileiro perde seu mais expressivo filósofo. Seu trajeto filosófico estende-se por toda a filosofia ocidental, num arco que vai de Platão até o exame da modernidade mais recente, sobre a qual versa seu último livro, Raízes da Modernidade, que não chegou a ver impresso, pois saiu da editora no exato dia em que morreu.
Dono de um conhecimento prodigioso de toda a tradição clássica, lida nas fontes originais e intensamente meditada, não ficou preso à exegese erudita dos textos. O conhecimento da metafísica grega, aliada ao estudo dos autores cristãos, deu a seu pensamento a densidade necessária para enfrentar o criticismo moderno. Dois autores despontam como referência obrigatória: Santo Tomás, espécie de norte magnético a indicar a direção, e Hegel, esse novo Aristóteles enciclopédico que se aventura a rememorar toda a cultura ocidental.
Para chegar a Hegel, contudo, há que se atravessar a imensa barragem das três críticas de Kant. Padre Vaz estudou-as com exemplar cuidado. Para sair de Hegel, no entanto, a modernidade exige um rito de passagem por Marx. Henrique Vaz não se esquivou dessa passagem, mas realizou-a como que de modo preventivo, antes mesmo de iniciar-se em Hegel.
Os conturbados anos 60 da vida brasileira fizeram-no compreender as urgências da política e impuseram-lhe a tarefa de uma leitura crítica e cristã do pensamento marxiano. Para entender o mundo moderno, aconselhava Hegel, substitua-se a prece matutina pela leitura dos jornais; Vaz corrige o mestre alemão: a leitura após a prece dará, sem dúvida, frutos melhores. A juventude católica não haveria de renunciar à fé pela política, deveria antes dar o testemunho da fé na própria militância política. Seus escritos daquela época não deixam dúvida quanto a esta opção definitiva. Em sua última entrevista, Padre Vaz fala de sua participação política naqueles anos, do trabalho com a Juventude Universitária Católica (JUC) e com o Movimento de Educação de Base, bem como de textos, como Cristianismo e Consciência Histórica, de 1961, que exerceram considerável influência nos movimentos cristãos, embora, modestamente, dissesse que "eram textos de reflexão, não de ação". Os estudos sobre Hegel desenvolvem-se a partir de 1970, na UFMG, através de uma série de cursos sobre o filósofo da Fenomenologia do Espírito, que se estenderam até sua aposentadoria, em 1987. Foram cursos memoráveis sobre a Fenomenologia, a Ciência da Lógica, a Enciclopédia das Ciências Filosóficas e a Filosofia do Direito. Vem desta época seu renome como especialista na filosofia de Hegel, da qual, de fato, tornou-se tão conhecedor quanto já era da filosofia platônica.
Tão importantes quanto os estudos sobre Hegel são os livros que publicou nos últimos anos: a série dos Escritos de Filosofia, em cinco volumes, sendo três sobre ética; os dois volumes sobre Antropologia Filosófica; e o breve, mas substancial Experiência Mística e Filosofia na Tradição Ocidental. Por fim, o livro póstumo ao qual já me referi: Raízes da Modernidade.
Quero, porém, deter-me em duas obras fundamentais para entender a trajetória intelectual e o caminho espiritual de Padre Vaz: os dois volumes sobre antropologia filosófica e o livro sobre a mística. A primeira parte da Antropologia expõe criticamente as concepções sobre o homem na filosofia ocidental, enquanto a segunda empreende uma discussão dos conceitos subjacentes à idéia de uma antropologia filosófica.
A filosofia crítica de Kant formulou três perguntas fundamentais: Que posso saber?; Que devo fazer?; Que posso esperar? A primeira é teórica e deve ser respondida pela ciência; a segunda, prática, deve ser respondida pela filosofia (ética); a terceira, religiosa, só pode ser respondida pela fé. Resumiu as três questões numa única: Que é o homem?
Henrique Vaz aprofunda a questão. Após o exame histórico, retoma o problema em sua origem e estuda as categorias que permitem compreender o homem: objetividade, intersubjetividade e transcendência. Cada categoria ultrapassa a antecedente, mas a mantém implícita. Assim, a categoria de intersubjetividade não nega que o homem seja um objeto, mas indica que é um objeto que nega a si próprio para tornar-se sujeito; a intersubjetividade "sublima" a categoria de objeto, ao mostrar que o sujeito espiritual estabelece com outro sujeito uma relação eu-tu, base da comunidade espiritual e humana do nós. Cada eu é o outro de um outro. Esta segunda categoria permite pensar os conceitos de espírito e pessoa. A terceira categoria, transcendência, conserva a intersubjetividade, mas, ao mesmo tempo, a transcende na direção do Absoluto. Em capítulo inspirado, mostra que a noção de transcendência perturba a inércia do pensamento e o leva à reflexão radical que forma o impulso que move a filosofia: "a reflexão sobre a transcendência", escreve ele, "constitui a terra natal da filosofia" (Antropologia, vol. II, p. 114). Esta tese permite-lhe descobrir a presença do Absoluto: o fim não poderia advir se não estivesse antes no princípio. A Antropologia Filosófica culmina num capítulo sobre a categoria de pessoa, articulada entre o tempo e a eternidade. "O ser e o modo dessa eternidade permanecem inacessíveis à demonstração filosófica. Dela, no entanto, uma figura ou imagem transparecem justamente nesse dinamismo da auto-afirmação e nesse surto profundo do eu sou que passa além de todo eidos finito e tende à plenitude infinita do ser" (vol. II, p. 236). A demonstração filosófica não vai além da indicação de um caminho transcendente que o homem deve percorrer. É a versão conceptual da sede de infinito que experimentamos em nossa vida finita e incompleta.
A antropologia filosófica culmina no conceito de homem como pessoa e espírito, deixando claro que o espírito é uma exigência que não se satisfaz com qualquer determinação finita. Assim, a antropologia filosófica não pode ser aprisionada na precariedade da vida mate-rial. Ela deve, pois, transformar-se em cristologia, pois o homem é incapaz de ser o mediador de si mesmo no caminho do Absoluto. Cristo é o mediador absoluto.
Na missa comemorativa de seus 80 anos, Henrique Vaz reiterou sua profissão de fé diante dos discípulos e amigos que foram saudá-lo: "Eu amo o Cristo". Nove meses depois, na missa de corpo presente, a comunidade, em resposta, cantou: "... e neste Homem / o homem enfim se descobriu". Ecce homo. Deus o acolha entre os santos.