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segunda-feira, 29 de abril de 2013

O HOMEM VELHO E O HOMEM NOVO


O plano da economia da criação do homem, São Paulo no-lo indica num capítulo da primeira carta aos Coríntios, consagrado à ressurreição:
Está escrito (Gên. 2, 7): o primeiro homem, — Adão —, tornou-se uma alma vivente. O último Adão, porém, será um espírito vivificante. Mas não é primeiro o espiritual, senão o animado (o psíquico), depois o espiritual. O primeiro homem é de terra, feito de pó; o segundo homem é do céu. (I Cor. 15, 45.)

Paulo contrapõe neste texto a ordem do animado, do psíquico, à ordem espiritual. O primeiro homem, conforme diz o Gênesis, foi criado "uma alma vivente". Mas, segundo a Bíblia hebraica, também os animais são almas viventes. O conjunto do reino animal, da ordem biológica, forma, pois, o que a Bíblia chama "a carne". O hebraico emprega de maneira equivalente as expressões "toda a alma vivente" ou "toda a carne" para exprimir a ordem biológica do mundo animal. "Toda a carne" é o conjunto dos seres vivos, tanto homens como animais, (cf. Gên. 6, 13, 17; 7, 15; S. 136, 25.) E, mais especialmente, para significar o conjunto dos homens. (Gên. 6, 12; Is. 40, 6; Jer. 12, 12; 23, 31; Zac. 2, IV.) A carne, portanto, no sentido bíblico, é a ordem biológica, animada, viva e consciente. E se, como o pensam muitos biólogos, a consciência é co-estensiva à vida, a Bíblia defende uma posição muito moderna, a saber que o biológico é também psicológico.

Paulo opõe esta ordem conjuntamente biológica e psicológica à ordem que ele chama de espiritual (pneumatikon?), e afirma que esta, oriunda "do céu", isto é, sobrenatural, vem em último lugar no plano da criação de Deus. Ela constitui um galardão outorgado ao homem, a fim de que possa realizar seu destino sobrenatural.

O primeiro homem é terrestre, vem da terra. Em hebraico, adam significa simplesmente homem, no sentido específico. Essa primeira humanidade é animal, provém do mundo animal. A segunda, porém, — o segundo Adão —, será do céu, graças a uma transformação operada pela" obra de Deus através do Cristo e no Espírito.

Duas etapas são, portanto, necessárias para realizar o homem e encaminhá-lo para a plenitude de seu destino, conforme o texto profético do Gênesis que promete criá-lo à imagem e semelhança de Deus. A primeira continua apenas a criação natural empreendida já com a cosmogênese e com a biogênese. A segunda, porém, transpõe um limiar decisivo passando da ordem natural para a sobrenatural e é formada pela criação de uma humanidade santa, espiritual, na qual habita o Espírito Santo de Deus, para participar com o Cristo da vida trinitária de Deus. A criação inteira foi encetada no Cristo e é nele que ela continua pela sobre-naturalização da humanidade e pela constituição de uma humanidade espiritual. E é ainda no Cristo que ela terá seu remate quando o Corpo Místico tiver atingido sua idade e conformação perfeita, a plenitude; numa palavra, quando Deus for tudo em todos.

Esta Obra só acabará com a Ressurreição, quando o Cristo entregar o reino nas mãos do Pai.

Importa, por conseguinte, que o homem nasça pela segunda vez. Tal é o ensinamento expresso do Evangelho de João:

"Aquele que não nascer do alto, não pode ver o reino de Deus. Nicodemos respondeu-lhe: Como pode um homem nascer, sendo velho? Porventura pode tornar a entrar no ventre de sua mãe e renascer? Jesus respondeu: Na verdade, na verdade te digo que aquele que não renascer da água e do Espírito, não pode entrar no reino de Deus. O que nasceu da carne é carne, e o que nasceu do Espírito é espírito". (João 3,3)

É exatamente o pensamento de São Paulo. O homem que primeiro foi criado como ser biológico e psicológico, isto é, uma carne, deve transformar-se pelo Espírito de Deus e no Cristo, a fim de se tornar um ser espiritual, capaz de Deus. Se alguém está em Cristo, nova criatura é. (2 Cor., 5, 17). As coisas antigas já passaram, eis que se tornaram novas, (ibid.) O que Cristo veio fazer foi uma humanidade nova. (Ef. 2, 15.) A nós nos toca cooperar nesta transformação, nesta mutação, despojando-nos do homem velho, a fim de revestir o homem novo: despojai-vos do velho homem que vivia conforme o primeiro modo de existência, — o velho homem que ia se corrompendo pelos desejos da vaidade —, e renovai-vos no espírito de vosso pensamento, revesti o homem novo, o homem criado segundo Deus na justiça e na santidade da verdade. (Ef. 4, 22.) Despojai-vos do velho homem com suas ações, e revesti o homem novo, o homem renovado para o conhecimento, à imagem daquele que o criou. (Col. 3, 9.)

Teilhard de Chardin


Biografia

Criado em uma família profundamente católica, Chardin entrou para o noviciado da Companhia de Jesus em Aix-en-Provence no ano de 1899 e para o juniorado em 1900, em Laval. Era a época das reformas liberais de Waldeck-Rousseau, que retirara das universidades católicas o direito de conceder graus e posteriormente dissolveu as ordens religiosas e expulsou vinte mil religiosos da França.1 Por este motivo, teve que deixar a França e os seus estudos prosseguiram na ilha de Jersey, Inglaterra, onde cursou filosofia e letras. Licenciou-se neste curso em 1902. Entre 1905 e 1908 foi professor de física e química no colégio jesuíta da Sagrada Família do Cairo, no Egito, onde teve oportunidade de continuar suas pesquisas geológicas, iniciadas na Inglaterra. Seus estudos de teologia foram retomados em Ore Place, de 1908 a 1912. Ordenou-se sacerdote em 1911.
Entre 1912 e 1914 cursou paleontologia no Museu de História Natural de Paris. Foi a sua porta de entrada na comunidade científica. Durante seus estudos teve a oportunidade de visitar os sítios pré-históricos do noroeste da Espanha, entre eles, a Caverna de Altamira.
Durante a Primeira Guerra Mundial, foi carregador de maca dos feridos e depois capelão em diversas frentes de batalha.
Passada a Guerra, retomou os estudos em Paris, onde obteve o doutorado em 22 de março de 1922 na Universidade de Sorbonne com a tese: Os mamíferos do eoceno inferior francês e seus sítios. Em 1920 tornara-se professor de geologia no Instituto Católico de Paris. O ambiente intelectual de Paris proporcionou-lhe encontros fecundos para o exercício intelectual. Costumava apresentar suas ideias a plateias de jovens leigos, seminaristas e professores. Do ponto de vista teológico, já assumira as ideias evolucionistas e realizava uma síntese original entre a ciência e a fé cristã.
Em 1922, escreveu Nota sobre algumas representações históricas possíveis do pecado original, que gerou um dossiê pela Santa Sé, acusando-o de negar o dogma do pecado original. Teve que assinar um texto que exprimia este dogma do ponto de vista ortodoxo e foi obrigado a abandonar a cátedra em Paris e embarcar para Tianjin na China. Este fato marcará uma nova etapa da sua vida: o silêncio sobre temas eclesiais e teológicos que duraria o resto da sua vida. Foi-lhe permitido trabalhar em pesquisas científicas e suas publicações deveriam ser cuidadosamente revisadas.
Embora proibido de escrever sobre temas eclesiais e teológicos, seus superiores imediatos estimularam suas pesquisas e escritos, desde que sua ortodoxia fosse assegurada por uma séria revisão, com a esperança de uma publicação posterior.
Em Pequim, realizou diversas expedições paleontológicas, e em 1929 participou da descoberta e estudo do sinantropo - o homem de Pequim. Também realizou pesquisas em diversos lugares do continente asiático, como o Turquestão, a Índia e a Birmânia.
Entre novembro de 1926 e março de 1927, estimulado pelo editor da coleção de espiritualidade Museum Lessianum, escreveu O Meio Divino a partir de suas notas de retiro. A obra foi submetida a dois censores romanos, que a consideraram aceitável. Ao ser submetida ao Imprimatur, o cônego encarregado submete a obra a teólogos romanos, que a consideraram suspeita pela originalidade. Apesar disto, cópias inéditas da obra passaram a circular, datilografadas e policopiadas.
Em Pequim, escreveu sua obra prima: O Fenômeno Humano. Encaminhou a obra a Roma em 1940, que prometeu o exame por teólogos competentes. Várias revisões foram encaminhadas sem que o nihil obstat fosse concedido.
Em 1946 retornou a Paris. Seus textos mimeografados continuavam a circular e suas conferências lotavam os auditórios. Foi convidado a lecionar no Collège de France. Diante de ameaças de novas sanções pela Santa Sé, dirige-se a Roma em 1948. A visita foi inútil: foi proibido de ensinar no Colégio da França e a publicação do Fenômeno Humano não foi autorizada.
Entre 1949 e 1950 deu cursos na Sorbonne que geraram a obra O grupo zoológico humano. Em 1950 foi eleito membro da Academia de Ciências do Instituto de Paris.
Em 1950, foi promulgada a encíclica Humani Generis pelo papa Pio XII, que na opinião de Chardin, bombardeava as primeiras linhas de seu trabalho.
Em 1951, mudou-se para Nova York, a convite da Fundação Wenner-Gren, que patrocinou duas expedições científicas na África para pesquisar sobre as origens do homem sob sua coordenação.
Teilhard de Chardin faleceu em 10 de abril de 1955, num domingo de Páscoa, em Nova York. No campo científico deixou uma obra vasta: cerca de quatrocentos trabalhos em vinte revistas científicas.
No campo filosófico, seu pensamento pode ser editado por um comitê internacional porque ele deixou do direito de suas obras para um colega, não para a sua ordem religiosa. No mesmo ano de sua morte, as Éditions du Seuil lançaram o primeiro volume das Ouevres de Teilhard de Chardin.
O Santo Ofício solicitou ao Arcebispo de Paris que detivesse a publicação das obras. Em 1957, um decreto deste mesmo órgão decidiu que estes livros fossem retirados das bibliotecas dos seminários e institutos religiosos, não fossem vendidos nas livrarias católicas e não fossem traduzidos. Este decreto não teve muita adesão. Cinco anos mais tarde, uma advertência foi publicada, solicitando aos padres, superiores de Institutos Religiosos, seminários, reitores das Universidades que protejam os espíritos, principalmente o dos jovens, contra os perigos da obra de Teilhard de Chardin e seus discípulos. Segundo esta advertência, "sem fazer nenhum juízo sobre o que se refere às ciências positivas, é bem manifesto que, no plano filosófico e teológico, estas obras regurgitam de ambiguidades tais e até de erros graves que ofendem a doutrina católica".
A sua obra continuou a ser editada, chegando ao décimo terceiro volume em 1976, pelas Éditions du Seuil e foi traduzida em diversos idiomas. Seu trabalho teve grande repercussão, gerando diversos estudos a cerca de sua obra até nos dias atuais.
Apesar de toda a repressão, suas ideias foram sendo incorporadas ao discurso oficial da Igreja, como depreende-se da mensagem do Papa Bento XVI por ocasião da Festa da Santíssima Trindade de 2009, dirigida aos fieis em Roma: "Em tudo o que existe, encontra-se impresso, em certo sentido, o "nome" da Santíssima Trindade, pois todo o ser, até as últimas partículas, é ser em relação, e deste modo se transluz o Deus-relação; transluz-se, em última instância, o Amor criador. Tudo procede do amor, tende ao amor e se move empurrado pelo amor, naturalmente, segundo diferentes níveis de consciência e de liberdade.""Utilizando uma analogia sugerida pela biologia, diríamos que o ser humano tem no próprio "genoma" um profundo selo da Trindade, do Deus-Amor". E ainda mais claro, no dia 24 de Julho em Aosta, Italia o Papa Bento XVI diz: "Nós mesmos, com todo o nosso ser, temos que ser adoração e sacrifício, restituir o nosso mundo a Deus e assim transformar o mundo. A função do sacerdócio é consagrar o mundo a fim de que se torne hóstia viva, para que o mundo se torne liturgia: que a liturgia não seja algo ao lado da realidade do mundo, mas que o próprio mundo se torne hóstia viva, se torne liturgia. É a grande visão que depois teve também Teilhard de Chardin: no final teremos uma verdadeira liturgia cósmica, onde o cosmos se torne hóstia viva."
Pierre Teilhard de Chardin (Orcines, 1 de maio de 1881 — Nova Iorque, 10 de abril de1955) foi um padre jesuíta, teólogo, filósofo e paleontólogo francês que logrou construir uma visão integradora entre ciência e teologia. Através de suas obras, legou-nos uma filosofia que reconcilia a ciência do mundo material com as forças sagradas do divino e sua teologia. Disposto a desfazer o mal entendido entre a ciência e a religião, conseguiu ser mal visto pelos representantes de ambas. Muitos colegas cientistas negaram o valor científico de sua obra, acusando-a de vir carregada de um misticismo e de uma linguagem estranha à ciência. Do lado da Igreja Católica, por sua vez, foi proibido de lecionar, de publicar suas obras teológicas e submetido a um quase exílio na China.
"Aparentemente, a Terra Moderna nasceu de um movimento anti-religioso. O Homem bastando-se a si mesmo. A Razão substituindo-se à Crença. Nossa geração e as duas precedentes quase só ouviram falar de conflito entre Fé e Ciência. A tal ponto que pôde parecer, a certa altura, que esta era decididamente chamada a tomar o lugar daquela. Ora, à medida que a tensão se prolonga, é visivelmente sob uma forma muito diferente de equilíbrio – não eliminação, nem dualidade, mas síntese – que parece haver de se resolver o conflito."

O pensamento de Teilhard de Chardin

Como geopaleontólogo, Teilhard de Chardin estava familiarizado com as evidências geológicas e fósseis da evolução do planeta e da espécie humana. Como sacerdote cristão e católico, tinha consciência da necessidade de um metacristianismo que contribuísse para a sobrevivência do planeta e da humanidade sobre ele . No cerne da questão está a visão filosófica, teológica e mística de Teilhard de Chardin a respeito da evolução de todo o Universo, do caos primordial até o despertar da consciência humana sobre a Terra, estágio esse que, segundo ele, será seguido por uma Noogénese, a integração de todo o pensamento humano em uma única rede inteligente que acrescentará mais uma camada em volta da Terra: a Noosfera, que recobrirá todo o Biosfera Terrestre. A orientar todo esse processo, existe uma força que age a partir de dentro da matéria, que orienta a evolução em direcção a um ponto de convergência: o Ponto Ômega. Teilhard sustentava a ideia de um Panenteísmo cósmico: a crença de que Deus e o Universo mantém uma criativa e dinâmica relação de progressiva evolução.
Como escritor, a sua obra-prima é O Fenômeno Humano, além de centenas de outros escritos sobre a condição humana. Como paleontólogo, esteve presente na descoberta do Homem de Pequim. Ainda que ele esteve presente depois do descobrimento do “Piltdown Man” a evidência ponta a o fato que ele nunca perdeu prestígio com a falsificação de um suposto fóssil "O Homem de Piltdown". Como Teilhard disse em 1920: "anatômicamente as partes não cabem."
Segundo Chardin, a Terra seria composta de várias camadas esféricas:
  • Barisfera ou núcleo metálico terrestre;
  • Litosfera ou camada de rochas;
  • Hidrosfera ou camada de água;
  • Atmosfera ou camada de ar;
  • Biosfera ou esfera da vida;
  • Noosfera ou esfera do pensamento ou espírito humano:
  • Cristosfera ou esfera do fenômeno cristão.

Obras de Teilhard de Chardin

  • Cartas a Léontine Zanta
  • Cartas de Viagem
  • Cartas do Egipto
  • Ciência e Cristo
  • O Fenómeno Humano
  • Hino do Universo
  • Lugar do Homem no Universo
  • O Meio Divino
  • A Minha Fé
  • Reflexões e Orações no Espaço-Tempo
  • Sobre a Felicidade / Sobre o Amor


A Filosofia de S. Tomás de Aquino e as XXIV Teses Tomistas




D. Odilão Moura O.S.B.
       Tomás de Aquino é indubitavelmente o máximo teólogo da Igreja. Como teólogo foi sempre considerado, e por isso recebeu os títulos de Doutor Angélico, Doutor Comum, Doutor Universal. Embora a sua eminência teológica, esta não ofusca a sua excelência filosófica. Muitas vezes a ímpar sabedoria filosófica do Aquinense é esquecida, citado que é em geral como teólogo. A sua original e superior grandeza filosófica é, por vezes, desconhecida. As XXIV Teses Tomistas foram consignadas justamente para revelarem os postulados da autêntica filosofia de S. Tomás. Há realmente uma original e verdadeira filosofia de S. Tomás – o Tomismo, e não será legítimo denominá-la “filosofia aristotélico-tomista”. É inegável, como afirmam Maritain e Gilson, que a filosofia ensinada por S. Tomás lhe é própria. Não se pode deixar de reconhecer que S. Tomás seguiu as trilhas de Aristóteles, mas ele reformulou de tal modo os ensinamentos do Estagirita, que arquitetou uma outra filosofia.
       Basta considerar como revolveu a filosofia peripatética, introduzindo nela os conceitos de criação das coisas por Deus, da temporalidade da matéria-prima, do próprio ser, levando a suas últimas conseqüências aquilo que o Filósofo apenas esboçara. Aliás, nenhum filósofo deixa de se fundamentar em outro filósofo ou em outros, ao apresentar as suas próprias aquisições. Isto, no entanto, não lhe retira o título de criador ou iniciador de outra filosofia. Ninguém denomina a filosofia de Aristóteles “filosofia platônico-aristotélica”.
       Qual a nota fundamental da filosofia de S. Tomás ? É ser ela “realista”. Parte o Tomismo da realidade das coisas, não de idéias imaginadas pelo filósofo que delas conclui todo um sistema coordenado de teses. Origina-se o Tomismo da percepção sensível do mundo, para, após, dela tirar, no plano abstrativo da inteligência, todo um conjunto conseqüente e harmonioso de teses. Bem define a filosofia de S. Tomás o Pontífice Leão XIII, quando escreve na genial Encíclica Aeterni Patris: “O Doutor Angélico buscou as conclusões filosóficas nas razões principais das coisas, que têm grandíssima extensão e conservam em seu seio o germe de quase infinitas verdades, para serem desenvolvidas em tempo oportuno e com abundantíssimo fruto pelos mestres dos tempos posteriores”.
       “As razões principais das coisas”, eis o ponto de partida do Tomismo. Das coisas existentes, apreendidas pelos sentidos, conceituadas, após, pela inteligência, sobe S. Tomás até as explicações últimas das mesmas. E é subindo das percepções mais primitivas das coisas que S. Tomás chega à certeza do supremo Criador delas. Vindo das mudanças das coisas, da causalidade existente entre elas, da contingência, das perfeições, e da ordem harmoniosa das mesmas, pelo caminho das cinco vias, é que o Angélico atinge a sublimidade, a suma perfeição, o ato puro, de Deus. Conhece assim a última explicação das coisas que está em Deus. Por isso o realismo tomista é a filosofia do ser e a filosofia da verdade. A verdade é a obsessão de S. Tomás, justamente porque a verdade é a correspondência da mente com as coisas. Em primeiro lugar, as coisas; depois, a mente. Em primeiro lugar, o objeto; depois, o sujeito. Do conúbio sujeito-objeto nasce a harmoniosa construção tomista. Repugna-lhe toda doutrina subjetivista. O realismo tomista tem os pés no chão. Foge dos devaneios, por vezes atraentes, das filosofias que partem da negação da “coisa espiritual” e reduzem as coisas ao mundo corpóreo. Evidentemente, como não pode haver concordância do Tomismo com tais filosofias, não pode haver também concordância com o materialismo.
       Embora o Tomismo puro negue todas essas filosofias, contudo, havendo nelas algum elemento de verdade, assume-o S. Tomás. O Tomismo, por isso, é eminentemente crítico. A verdade é de todos, e o Angélico escreve que “toda verdade, dita por quem quer que seja , vem do Espírito Santo “, e diante das diversas opiniões dos filósofos: “não olhes por quem são ditas, mas o que dizem “. O critério supremo do Tomismo é a verdade imparcialmente aceita e proposta. Escreve S. Tomás: “O estudo da filosofia não é para se saber o que os homens pensaram, mas para que se manifeste a verdade” (De Coelo et Mundo, I,22). Naturalmente decorre da filosofia da verdade ser ela “a filosofia do ser”. O ato de ser é o fundamento primeiro das coisas e a última determinação da perfeição das mesmas. A noção do ser é a primeira que afeta a nossa inteligência, e perpassa todos os nossos conhecimentos. O ser é a própria natureza de Deus, isto é, sabemos certa e logicamente que Deus é. Todavia, conhecêmo-lo por analogia, não de modo unívoco. Se o Tomismo admite entes de razão, cuja realidade objetiva está tão somente na inteligência, os seres de razão nada mais são que idéias formuladas pela razão, para que melhor se atinja a realidade existencial das coisas. Somente em Deus o ser atinge a sua suprema perfeição. Deus une todas as perfeições na infinitude de um ser que vem de si mesmo e que desconhece mudanças e sucessão. Deus é o ser de ato puro destituído de qualquer imperfeição ou potência – a perfeita posse e simultânea de todas as perfeições: é o ser eterno (Boécio).
       O Papa Paulo VI com felicidade descreve a filosofia tomista como abrangendo o Ser “quanto no seu valor universal, quanto nas suas condições essenciais”. Ao que João Paulo II acrescenta em belos termos que “esta filosofia poderia ser chamada filosofia da proclamação do ser, o canto em honra daquilo que existe”.
       O respeito tributado por S. Tomás a todos os filósofos externa-se nestas palavras, porque contribuem para que a verdade resplandeça: “Os homens mutuamente se auxiliam para a consideração da verdade. De duas maneiras: um auxilia o outro nesta consideração: direta ou indiretamente. Diretamente, são auxiliados por aqueles que encontraram a verdade, porque, como foi dito acima, enquanto cada um dos que a encontraram, as introduz num só contexto que introduz os pósteros em grande conhecimento da verdade. Indiretamente, enquanto os anteriores, errando a respeito da verdade, deram aos posteriores ocasião de se exercitarem, para que, havida por sua diligente discussão, a verdade apareça com clareza” ( In II Met. 1, n° 289 ).
       A filosofia do ser e da verdade, a tomista será também a filosofia de Cristo e, por isso, a filosofia da Igreja. Por que a “filosofia de Cristo”? Evidentemente Cristo não se manifestou como filósofo, nem formulou um sistema filosófico. A imagem que nos deixou de si não foi a de um filósofo, mas de um líder religioso. O seu linguajar nada possuía da terminologia de um filósofo. Não se afastou da linguagem popular. Não obstante, a sua mensagem religiosa contém implicitamente a filosofia do senso comum, da afirmação existencial das coisas, do princípio de contradição, dos princípios de causalidade e finalidade. Nela não se encontra o subjetivismo cartesiano, o criticismo kantiano, nem o idealismo hegeliano, nem o existencialismo sartriano e heideggeriano etc. Seria até ridículo tal mensagem da afirmação daquilo que vemos e tocamos não corresponder à realidade objetiva das coisas.
       Em profundas e relevantes explanações, o filósofo e teólogo Claude Tresmontant desvenda-nos, na Bíblia, uma implícita e subjacente filosofia metafísica e moral, que constitui o núcleo central do pensamento israelita. Cristo naturalmente não se afastou do pensamento do seu povo. Lê-se num dos magistrais livros de Tresmontant: “O cristianismo comporta – é isto que este trabalho quer pôr em luz – certas implicações e certas teses, uma certa estrutura metafísica que não são quaisquer. Quero dizer que as questões admiravelmente reconhecidas como derivadas do domínio metafísico, relativas ao ser criado e ao ser incriado, ao uno e ao múltiplo, o futuro, a temporalidade, o material e o sensível, a alma e o corpo, o conhecimento, a liberdade, o mal, etc. – o cristianismo acrescenta algumas respostas que lhe são próprias (ainda que comuns com o judaísmo), originais e que o definem, o constituem no plano metafísico. A doutrina cristã do Absoluto deriva por uma parte, e sob certo ângulo da metafísica… Por que a doutrina cristã do Absoluto não entrará com o mesmo titulo que as outras na história das filosofias humanas?(..) A Escritura Sagrada, a teologia bíblica, a teologia cristã contêm na verdade um número de doutrinas, de teses, que por direito decorrem da razão natural. Existe uma filosofia natural no interior da Revelação “. 
       Tal filosofia natural contida nas Escrituras, peculiar à cultura israelita, é a filosofia de Cristo e conseqüentemente, a de S. Tomás. Confirma-o o Papa Bento XV com estas palavras: “Aprovamos e fazemos nosso tudo que disseram Leão XIII e Pio X sobre a necessidade de seguir a doutrina de S. Tomás. Nem os nossos Predecessores nem nós temos que nos esforçar para recomendar e ordenar outra filosofia, senão a que é segundo Cristo, e por isso exigimos que nossos estudos filosóficos se façam em completo acordo com o método e os princípios da filosofia de S. Tomás, porque nenhuma outra serve para expor, defender vitoriosamente a verdade revelada “‘.
       Sendo o Tomismo a filosofia de Cristo, não pode deixar de ser senão a filosofia da Igreja, do Corpo Místico de Cristo. Conseqüentemente nada mais concorde com a autenticidade católica que a adoção da filosofia de S. Tomás. E também evidencia-se como gritante aberração um católico menosprezar, ou desejar conciliar, o Tomismo com o subjetivismo cartesiano, com o criticismo kantiano, com o idealismo hegeliano, etc.
       O Tomismo é a filosofia da Igreja, a preferida entre as demais pela Igreja. Contudo, já que “preferência não é exclusividade”, ela permite que um católico siga outra filosofia. Mas outra filosofia que defenda “o genuíno valor do conhecimento humano, os indestrutíveis princípios da metafísica – a saber, de razão suficiente, de causalidade, de finalidade, e que propugna a capacidade de a inteligência atingir a verdade certa e imutável”. Continua o Papa Pio XII, no Documento citado: “Nenhum católico pode pôr em dúvida quanto tudo isso é falso (isto é, a contradição das verdades acima), especialmente tratando-se de sistemas como o imanetismo, o idealismo, o materialismo, seja o histórico ou o dialético, ou ainda como o existencialismo quando professa o ateísmo, ou quando nega o valor do raciocínio no campo da metafísica”.
       Três Papas declaram que “A Igreja fez sua a doutrina de S. Tomás”.
       Concluamos esta longa introdução esclarecendo que S. Tomás não elaborou sozinho a sua filosofia, não a tirou apenas da sua genial inteligência, mas recebeu contribuição dos helênicos Platão e Aristóteles, dos israelitas Avicebron e Maimônides, dos árabes Avicena e Averróis, dos Padres da Igreja, sobretudo de Santo Agostinho, da metafísica implícita na Revelação, e com o seu agudíssimo espírito crítico uniu a herança recebida daqueles predecessores às suas contribuições pessoais, e formulou o seu admirável Realismo metafísico que nos legou. A essência deste Realismo está condensada nas XXIV Teses Tomistas.
       Pode ainda surgir a pergunta, por terem sido As XXIV Teses formuladas pela Igreja e por ela propostas, se a uma pessoa que confesse outro credo religioso que o católico, lhe serão aceitáveis as XXIV Teses de S. Tomás de Aquino. Evidentemente teremos uma resposta positiva, porque essas teses limitam-se ao campo da filosofia formulada pela razão natural. Ademais, as que se referem à temporalidade do mundo, à imortalidade de alma, á dualidade corpo e alma, à doutrina da criação, embora sejam afirmadas na Revelação, poderão ser descobertas pela própria razão natural. Elas se limitam, como foi afirmado acima, às filosofias que prescindem como tais da teologia e das verdades religiosas, dos mistérios e dogmas da fé.


Escreve a respeito desta afirmação o filósofo Jacques Maritain: “É um enorme erro – Gilson tem razão quando insiste nisso – dizer-se, como repetem muitos professores, que a filosofia de S. Tomás é a filosofia de Aristóteles. A filosofia de S. Tomás é a de S. Tomás. E seria também grande erro dizer que S. Tomás não deve à filosofia de Aristóteles sua filosofia. S. Tomás não se deteve no ente, foi direto ao ato de ser”. (Maritain. Jacques. O Camponês de Carona – Trad. União Gráfica. Lisboa, p. 164).
Este aspecto da conceituação tomista do ser foi com grande precisão formulado pelo filósofo e bispo argentino D. Derisi. (Cf. Derisi. O.D. Santo Tomas de Aquino y La Filosofia Actual. Ed. Universal. Buenos Ayres, 1975, p. 289.
Leão XIII. Enc. Aeterni Patris (04/08/1879) n° 22 – cf. infra Apêndice I.
Tresmontant. Claude. La Métaphysique du Christianisme et la Naissance de La Philosophie Chrètienne. Ed. du Seuil. Paris, 1961. p.14-15. A mesma doutrina, desenvolvida nas obras deste autor: La Doctrine des Prophetes d’Israel (Ed. du Seuil. Paris, 1958); La Metaphvsique Biblique. (Ed. Gabalda. Paris, 1951).
Bento XV. Discurso na Academia Romana. São Tomás de Aquino, aos 31.12.14.
Cf. Paulo VI. Alocução no VI Congresso Tomista Internacional, 1966
Pio XII. Enc. Humani Generis (16.06.1950) – cf. infra – Apéndice II.
Cf. Pio XI. Enc. Studiorum Ducem (29.06.1923); Bento XV. Enc. Fausto Appetente (28.08.21); Cf. João XXIII. Alocução (16.09.60).
11- Cf. Silva. Pe. Emilio. “Influencia da Filosofia Arabe na Sintese Tomista”. In: Hora Presente, n° 16, set., 1974, p. 219ss.