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sexta-feira, 1 de agosto de 2014

O acompanhamento espiritual na vida cristã



Trabalho realizado por D. Paulo Domiciano, osb

novembro de 2005




Com este trabalho pretendo expor, de maneira bastante sucinta, o tema do acompanhamento espiritual, também conhecido como direção espiritual, como parte integrante na dinâmica do cr escimento na vida espiritual.

Todo cristão, pelo fato de o ser, é chamado à plenitude da vida cristã (LG 5). Tal plenitude é a realização da vocação batismal à santidade, entendida como comunhão com Deus e com os homens, n a caridade. Para a concretização de tal vocação tomamos um “cam inho”, que por sua vez, não se percorre sozinho, mas onde outros, que já o trilharam, poderão nos auxiliar.

Pretendo, portanto, apresentar os elementos básicos desse processo de desenvolvimento, sua função no crescimento espiritual e humano, as disposições necessárias para aquele que deseja ser acompanhado e as de quem acompanha.




O que é acompanhamento espiritual

É chamado “espiritual” por estar relacionado às realidades interiores da pessoa. Prefiro o termo “acompanhamento” a “direção ”, visto que “direção”, suscita em muitos, por diversos razões, a idéia de um “dirigismo”, ou seja, de autoritarismo, repressão o u imposição em relação à pessoa e a sua liberdade. Quando na realidade, a direção espiritual refere-se ao guiar pessoal e íntimo da pessoa, a uma relação estável entre as pessoas, uma das quais recebe da outra ajuda que a ilumina, sustém e acompanha no discernimento e realização da vontade de Deus, para progredir na santidade. Não se trata de anular a pessoa do dirigido ou sua autonomia, nem estabelecer relações de dependência viciosa em ambas as partes, pois de modo algum se pode suprir o indivíduo naquilo que deve ser resposta pessoal ao chamado pessoal de Deus. Portanto, expressões como “acompanhamento espiritual”, “orien tação espiritual” etc, pretendem não substituir o termos “direção”, m as ressaltar as

dimensões mais amplas e talvez esquecidas da verdad eira e tradicional direção espiritual.

O acompanhamento espiritual (AE) é a ajuda oferecida por alguém com experiência a um fiel que caminha para a plenitude da vida em Cristo e no Espírito. Não se trata do trabalho pastoral volt ado para toda a comunidade cristã, mas daquele prestado a um de seu s membros, chamado, junto com os outros a ser perfeito “como o Pai celeste é perfeito" (Mt 5,48).

Na caminhada para Deus há o concurso de fatores esp irituais e humanos. O AE visa a abrir cada vez mais o espírito à ação do Espírito Santo e ativar os recursos psicológicos, para engajá-los no esforço consciente e motivado rumo ao amadurecimento humano e espiritual de toda a pessoa.

O trabalho que se desenvolve sobre o plano humano e psicológico é considerado hoje como premissa indispensável para i ntroduzir de modo coerente e eficaz os fatores sobrenaturais: a fé, a graça, os valores, a oração, os meios propostos pela ascética etc., que constituem o dinamismo válido e necessário no esforço de convers ão e de perfeição.

Tal perspectiva tem suas bases firmadas na teologia bíblica, onde o homem criado por Deus –corpo, alma e espírito – é um ser único e indivisível. Por isso, é inútil buscar apenas um aperfeiçoamento espiritual, como se isso fosse possível, esquecendo-se do todo. Só teremos sucesso em nosso empreendimento de conversã o rumo

à perfeição se nos conscientizarmos da necessidade de voltarmos os olhos para cada uma das dimensões de que somos cons tituídos de uma maneira global e totalizante. “Que eles sejam UM” ou UNOS (cf. Jo17).

No entanto, não devemos confundir AE com terapia ps icanalítica. O acompanhador deve conhecer o melhor possível os mecanismos psicológicos mais comuns e as características comportamentais, mas o objeto do AE não é simplesmente ajudar a conseguir uma personalidade sã, estável e madura, mas pôr o acompanhado em cond ições de discernir a vontade de Deus sobre si mesmo e ajuda-lo a levá-la a cabo. É verdade que sem personalidade madura não se chagará à religiosidade adulta, à fé vivida com liberdade e alegria: quanto mais madura é a pessoa, mais clara e conscientemente pode viver sua vocação; porém também é verdade que quanto maior for a fé, mais forças ter-se-á para superar as deficiências própri as e as dos outros. Por isso, para que haja crescimento, é preciso que se promova ao mesmo tempo o desenvolvimento harmônico de toda a pessoa.

Razão do Acompanhamento Espiritual Por saber-nos in completos e imperfeitos buscamos a conversão, ou seja, nossa co nfiguração ao

modelo perfeito, o ícone do Pai, Jesus Cristo. Mesmo vivendo em Cristo e sendo movido pelo Espírito, graças ao batismo, continua-se sendo pecador. Vivendo entre esta dupla realidade, o cristão, ao mesmo tempo, sabe-se forte em Cristo, mas fraco em si mesmo.

Na vida cristã vivemos entre tensões, múltiplas pro vas e quedas do dia-a-dia, que não são estéreis, mas nos conduzem à fé purificada, nos conduzem a uma progressiva sensibilidade espiritual, a docilidade ao Espírito Santo. Elas nos revelam nossa verdadeira condição, nossa necessidade de Deus. Deus vai encontrando espaço para agir no homem, transformando-o segundo a imagem de

seu Filho, mudando-lhe o espírito e o coração e lhe introduzindo na vida divina. Como filho de Deus, o cristão recebeu o Esp írito de seu Filho para ser conduzido por ele, atuar segundo ele e dar frutos de “amor, alegria, paz, longanimidade, bondade, fidelidade, mansidão e temperança” (Gl 5,22-23) que lhe são próprios.

O que Cristo opera invisivelmente mediante o seu Espírito na Igreja, realiza-o em cada cristão visivelmente também por seu Espírito, mediante a missão de seus apóstolos, pelos diversos ministérios da comunidade eclesial. A mediação eclesial revela-se imprescindível não só em geral, mas em concreto para cada fiel. O fatotambém de depender da mediação de um outro, que por sua vez, caminha pelo mesmo caminho de busca de perfeição, implica em uma atitude de humilde submissão, a exemplo do próprio Jesus, que se fez homem e se submeteu a homens. A Igreja, ainda que considerando o AE um meio muito importante no caminho da perfeição, nunca a teve como elemento imprescindível para a ação do Espírito Santo na vida do cristão, nem para a resposta dele. Todavia neste como nos outros aspectos da vida do homem, a dependência de outros é o caminho mais normal e, com probabilidade, o mais eficaz para avançar com segurança.

As formas de relação acompanhante-acompanhado. Existem vários níveis de profundidade na dinâmica do acompanhament o. Assim, serão sucessivamente distinguidos, sem exagerar o alcance das denominações conservadas, o simples

diálogo de acompanhamento”, a “pedagogia espiritual ”, e enfim, a “paternidade espiritual” no sentido estrito da palavra. O diálogo do acompanhamento representa, sem dúvidas, o caso mais freqüente. Trava-se progressivamente, às vezes sem que se perceba de verdade. Uma intimidade estabeleceu-se progressivamente com uma pessoa de nosso grupo, de quem apreciamos certas qualidades:

capacidade de acolhimento, dom de simpatia, experiê ncia, prudência, espírito de fé. Sentimo-nos à vontade com ela, até mesmo para partilhar

essas coisas que não partilhamos com todo mundo. A freqüência das partilhas é variável, conforme as idades e as neces sidades. Far-se-á espontaneamente mais importante nos momentos de crise ou de graves decisões a tomar.

A pessoa escolhida poderá ser um padre, o confessor , uma freira, um companheiro de trabalho, um amigo. Às vezes, o serviço assim prestado será recíproco. Uma relação como esta é, antes de t udo, fraterna e amigável, ela se tece e se vive sobre um pé de igua ldade. Estes laços, aparentemente simples, merecem ser tomados a sério, pois, em longo prazo, podem se tornar profundos. Mas podem variar conforme as necessidades ou circunstâncias, não sendo duráveis e nem únicos. Vários desses laços podem coexistir ao mesmo tempo com outras pessoas, não tendo um caráter único e exclusivo, o que será determinante na relação de paternidade espiritual.

A pedagogia espiritual é um caso mais específico, porém menos comum. Acontece quando um indivíduo pede para ser preparado ou formado, e por isso precisa de um “pedagogo”, em vista de um objetivo bem concreto. Pode ser uma situação delicada em sua vida, uma crise particularmente dolorosa a atravessar, uma nova etapa no crescimento a encarar, ou simplesmente a vontade de Deus a discernir na hora de uma decisão importante.

A paternidade espiritual, enfim, em um sentido mais estrito da palavra, é o que encontramos entre os irmãos das Igrejas Orien tais. É nela que nós ocidentais pensamos, não sem nostalgia e idealizaçã o, quando nos conscientizamos da necessidade de sermos acompanhados. Por um lado com razão, pois a paternidade espiritual é uma realidade que sempre existiu na Igreja; mas é preciso

tomar cuidado para não fazer um uso apressado e inc onsiderado de um vocabulário que pode ser marcado de ilusões.

Esta relação existe, mas, como um carisma, antes de tudo raro e substancialmente inimitável. Ao pai espiritual, est e carisma não vem de sua habilidade ou de sua experiência. Vem de Deus, como um dom imprevisível e como a revelação de sua filiação divina.

Tal paternidade espiritual revelar-se-á no interior de relações preexistentes: dois amigos, mestre de noviços, coordenador de grupo, irmão ou irmã de comunidade, confessor. Mas, ela nã o procede desta relação. É de uma outra ordem e sempre gratuita. Épor isso que não a devemos supor ou presumir. É com o tempo e o aprofundamento das relações que iremos percebendo, iluminados pelo Espírito, que se trata de uma relação pai-filho espiritual.

A paternidade de Deus verifica-se de mil maneiras na existência de cada crente, mas não necessariamente sob esta forma típi ca e exemplar. Não é preciso, aliás, lamentá-lo, nem procurar descobri r a todo custo o “pai” ou a “mãe” ainda não encontrados. Muito menos ser-l he-ia necessário crer-se investido de um papel parecido em relação a quem quer que seja. É principalmente aqui que conviria ser lento em cre nesta relação e espontaneamente reticente em empregar um vocabulári o da paternidade ou da filiação espirituais, o que corresponderá nun ca, senão muito excepcionalmente, à realidade vivida.

Um verdadeiro acompanhamento pode, aliás, exercer-s e de muitas outras maneiras, e não é proibido pensar que algo deste carisma excepcional está obscuramente presente em toda rela ção entre crentes. Somos, talvez, todos chamados a ser um pouco pai e mãe de uma multidão de irmãos. Sem pretendê-lo e freqüentement e sem que nos demos conta. À luz dessa graça “paternal”, como uma analogia principal, vários aspectos de nossas relações fraternas de tod os dos dias, mais humildes e mais modestas, podem aclarar-se com uma nova iluminação. Todas comunicam, sem dúvida, algo desta graça que Deus decidiu conceder-nos através de nossos irmãos e irmãs. O ac ompanhado. Diante disso que vimos, pressupõe-se que aquele que busca o AE tem consciência da necessidade de alguém que o conduza, ou melhor, que caminhe com ele neste caminho rumo a configuração de Cristo. Quem assim procede sabe-se protagonista de sua história pessoal e responsável de suas decisões. Não estará buscando q uem o supra na revisão de sua vida, no exame de sua consciência, n a análise de suas motivações e atitudes, mas quem o acompanhe e oriente em sua reflexão e o ilumine.

Suposta a liberdade e a livre eleição de quem busca essa ajuda de forma permanente, não meramente ocasional, devem existir nele, ademais, as seguintes atitudes: sinceridade – O que se está pro curando no AE? É a primeira pergunta que deve formular-se tanto o acompanhador como o acompanhado. Supõe-se que a pessoa quer verdadeiram ente conhecer-se a si mesma e ser autêntica, que está disposta a buscar lealmente a vontade de Deus e cumpri-la, que não se contenta co m o estilo de vida aceitável exteriormente, mas espiritualmente medíoc re.

A sinceridade para consigo mesmo e o acompanhante supõe coragem e humildade para reconhecer-se como se é – não como se quereria ser –, com qualidades e defeitos, sem pretender vangloriar-se por aquelas nem exagerar a própria pobreza e as próprias limitações. Porém, precisa também aceitar sem regateios aquilo que possa ser vontade de Deus e aquilo que pode indicar o acompanhador.

Quem está seguro de si mesmo se crê justo e refugia -se no cumprimento de algumas normas, dificilmente se descobrirá pecad or, necessitado de

conversão ou estimulado a progredir segundo o Espír ito. Facilmente buscará reconhecimento de seus méritos ou o aplauso do acompanhador.

Confiança – Este é o pressuposto elementar para a sinceridade e a abertura de coração, mas não se outorga senão a que m tem a credibilidade. Baseia-se na admiração, no reconhecimento espiritual do acompanhador, de sua experiência ou sua doutrina, n a simpatia que inspira em conjunto. Isto faz que se trate de alguma coisa de pessoal e misterioso, sem razões explícitas muitas vezes.

Oferecer a própria intimidade é pôr-se nas mãos de outra pessoa. Com efeito, ao acompanhador deve-se descobrir com simplicidade os desejos, dificuldades, critérios, percepções, tentações, tudo o que seja preciso para discernir com o acompanhado a vontade de Deus sobre este.

Docilidade – Outra vertente da confiança é a docilidade, o deixar-se conduzir. O acompanhamento não deve anular a própria liberdade, mas tampouco deve sub-valorizar a palavra do pai espiritual. É preciso haver uma disponibilidade para caminhar, pois o acompanhador não caminhará no meu lugar, apesar de estar caminhando ao meu lado. O acompanhador me auxiliará a identificar o caminho d e salvação que Deus tem para mim, mas não poderá me fornecer “rece itas” prontas e fáceis. Terei que assumir o caminho que leva à cruz de Cristo.

Escutar – Para que se reconheça essas pistas, que o acompanhador ajuda a encontrar, a atitude da escuta é indispensá vel. São Bento convida o discípulo a inclinar o ouvido do coração para receber

de boa vontade o ensinamento do mestre (cf. Pról RB 1). Muitas vezes, por nunca ter tido alguém em sua família ou entre os amigos, que o escutasse, o acompanhado encontra uma grande chance de se manifestar verbalmente nos encontros de acompanhamento. É claro que falar é muito importante, principalmente por parte do acompanhado, mas isso não basta; os encontros não podem servir apena s para “desabafar”. É preciso ouvir; desejar ser conduzido; estar disposto a aprender; ser discípulo. Isso não quer dizer, mais uma vez, que s e deva esperar respostas prontas ou “receitas” da parte do acompanhador, mas sim, estar disposto a levar em consideração seus apontamentos e interpelações, para que, juntos, discirnam a vontade de Deus. As respostas, na maior parte das vezes, terão que part ir do acompanhado. O acompanhador “O Espírito Santo dá a certos fiéis dons de sabedoria, de fé e de discernimento em vista do bem comum que é a oração (direção espiritual). Aqueles e aquelas que têm ess es dons são verdadeiros


ministros da tradição viva da oração.”(CigC 2690)

O AE ou a paternidade/maternidade espiritual é um ministério eclesial, é um carisma. Esta paternidade/maternidade está em re lação com a paternidade/maternidade de Deus e não tem nada have r com paternalismo ou substituição afetiva. Este ministério está a serviço da Igreja, pois a vida espiritual é um bem comum da comunidade cristã e não algo individualista. O pai espiritual está serv indo a um membro da comunidade e não um indivíduo isolado, por quem ele tem uma certa simpatia ou afinidade.

O acompanhador , como ministro de Deus e servo da Igreja, é antes de tudo, discípulo de Jesus Cristo, que nunca chega a categoria de mestre. Não é chamado para ser simplesmente um transmissor de teorias ou instruções. Antes, deve estar identificado interiormente com o Mestre, com seus valores e ideais; deve percorrer o caminho da cruz com ele e deixar-se guiar ele mesmo pelo Espírito Santo. É testemunha do Ressuscitado, ou seja, é aquele que fez experiência do mistério pascal de Jesus Cristo em sua própria vida.

Sua condição de instrumento de Deus lhe exige a humildade. Não poderá, com efeito, impor suas idéias ou preferênci as pessoais como critério de atuação para o acompanhado. Pelo contrá rio, sua atividade deve ser a de pôr-se à escuta de Deus para se tornar ele mesmo disponível à ação divina.

Estar à escuta de Deus é um modo de abandonar-se a ele e deixar que o Espírito atue mediante a pessoa mesma.

A humildade indicada deve levar o acompanhador igualmente a expressar com simplicidade seu ponto de vista ou calar com paciência o que não vê com clareza que seja a vontade de Deus. É um modo de reconhecer sua própria pobreza e não suplanta a iniciativa ou a ação de Deus. Em última análise, Deus serve-se das pessoas, com seus talentos e também suas limitações.

Com isso, podemos deduzir, que para assumir este papel de pai/mãe espiritual, existem alguns requisitos ou disposições. Quem aceita a tarefa de acompanhar alguém na caminhada para a maturidade e a liberdade interior deve inspirar-se na concepção do homem positivo e aberto ao transcendente. Além disso, é necessário que conheça e aceite a si mesmo e que tenha alcançado nível normal de maturidade afetiva, de modo a não viver a relação de ajuda numa atitude ce ntrada em si mesmo. Além dessas qualidades, o pai/mãe espiritual precisa cultivar algumas disposições fundamentais e indispensáveis:

Experiência espiritual – deve ser um homem/mulher e spiritual, ou seja, com experiência de Deus em sua vida. Não se trata d e um ofício qualquer, nem de que qualquer um possa desempenha-lo.

Somente quem se sente chamado e capacitado por Deus poderá exercer esse ministério. Mais que o saber fazer importa o ser mesmo do acompanhador.

Preparação específica – o fato de ser dom não impli ca que quem o possui possa ficar de braços cruzados confiando no próprio carisma. Isso seria imprudente e revelaria que o acompanhador não avalia corretamente sua missão, não se interessando por ad quirir uma preparação adequada. É necessário que se tenha um bom conhecimento da teologia, do magistério, de espiritualidade, além de possuir um certo conhecimento de psicologia e das técnicas de diálog o pastoral convenientes para as entrevistas e a relação humana em geral.

Nenhum desses conhecimentos suprirá o dom do Espíri to Santo, o dom da prudência e do discernimento especialmente, nem sua própria experiência espiritual, que é o que, em última anál ise, dá a medida de sua capacidade como acompanhador espiritual.

É preciso saber em que consiste o seu ministério, para tanto ele quanto o acompanhado, não se contentem em manter uma convers ação distante do objetivo do AE. O acompanhador terá a responsabi lidade de mostrar ao acompanhado as bases da relação e dos encontros em função do que se pretende, sem, contudo, ferir-lhe a liberdade.

Discrição – ainda que não entre no sigilo sacrament al, a discrição e o segredo é algo suposto pela própria natureza do AE. A ausência desta condição destruiria o clima de confiança e desrespeitaria o universo interior daquele que abre o seu coração. Seria uma traição.

Autenticidade – tem liberdade em relação ao seu próprio mundo interior, aceitando-o com suas características positivas e negativas, e de apresentar-se aos outros com o rosto descoberto, evitando esconder-se atrás de máscaras. Está reconciliado ou pelo menos em um bom nível de reconciliação consigo mesmo.

Aceitação incondicional – é a atitude de respeito pelo outro, baseada numa visão positiva do homem em geral. A formação m oralista, a atitude egocêntrica (eu sou a medida) e o papel de mestre e juiz atribuído ao pai espiritual tornam muito difícil a acolhida. Essa acolhida é essencial, pois gera no acompanhado o encorajamento para entrar no próprio mundo interior, para conhecê-lo e aceitá-lo; o início do processo de melhoria da auto-imagem; a superação de estados de desânimo, de rrota, insegurança ou ansiedade; a conquista gradual de autonomia sadia pessoal; a força para superar os momentos críticos, na caminhada rumo a perfeição.

Empatia – é o que permite compreender o outro em um nível mais profundo; significa “entrar na pele do outro”, participando da sua experiência de sofrimento ou dificuldade. Esse esfo rço muitas vezes é impedido por parte do acompanhador por sua posição egocêntrica (dá exemplos a partir de si mesmo), pelo dirigismo (propor perguntas e respostas, soluções simplistas) ou pela tendência d e julgar (condenação).

Capacidade de escutar – diria que esta é, talvez, a mais importante das atitudes ou qualidades de um bom acompanhador espiritual. Na maior parte dos casos, o acompanhado precisa apenas ser ouvido; saber-se ouvido; perceber que existe alguém que o ouve gratuitamente, sem exigências, cobranças ou expectativas. Sobres este ponto, especificamente, gostaria de aprofunda-lo a seguir.

A condição de escutar. Como vimos, a capacidade de escutar é tão importante para o acompanhador como para o acompanhado. Nesta relação entre estas duas pessoas, a escuta será o e lemento de união, o lugar de encontro.

A escuta é esta atitude de respeito e reverência pa ra com o outro, de distância e de proximidade ao mesmo tempo, sem feri r a individualidade, o segredo ou a intimidade não revelada. É ainda atitude de humildade, pois nesta relação comum, ambos estão aí para serem formados pelo grande acompanhador e mestre, Jesus Cristo, que emerge desse encontro no Espírito. Ouve-se na realidade o próprio Cristo neste encontro; o Verbo se encarna entre nós na pessoa do outro. Se o acompanhador não está disposto a escutar, mas somen te quer falar ou “ensinar”, não há relação de troca. A relação anda em mão única. Assim também, se o acompanhado não se coloca em atitude de escuta atenta para distinguir a voz suave do Espírito Santo, que o conduzirá à plenitude, seu objetivo de procurar um acompanhador é vão. Ele não precisa de mestre, pois é seu próprio mestre.

Há uma queixa freqüente entre os cristãos: “Não enc ontro pai espiritual”; ou então: “Não há mais pais espirituais na Igreja h oje”. Não que algo de objetivo não corresponda a esta queixa. Existem hoj e, sem dúvida, um clima e certas condições que não facilitam mais a e closão de uma tal relação.

Subsiste, contudo, o fato de que o pressuposto essencial de um acompanhamento estará sempre do lado daquele que pr ocura sinceramente, e que não lhe será possível não encon trar, se ele próprio está pronto. O provérbio da sabedoria hindu verific a-se aqui: “Quando o discípulo está pronto, o mestre aparece”. Encontram os uma afirmação análoga em um apoftegma célebre: “Um pai do deserto pergunta a outro

pai: Por que os monges de hoje não têm mais palavra s a dar? (ou seja: por

que não existem mais bons pais espirituais?) – Resp osta: Porque os filhos não sabem mais escutar.”

A qualidade da busca e da escuta acaba por suscitar o acompanhante. Certos autores antigos dirão: a qualidade da fé. É a resposta de Doroteu de Gaza a monges que se queixavam de não encontrar o pai espiritual tão longamente procurado, capaz de revelar-lhes a v ontade de Deus: basta, respondeu

ele, buscar verdadeiramente e humildemente a vontade de Deus. Após o que, poderíamos, a rigor, dirigir-vos a quem quer que fosse, mesmo a uma criancinha. Pois, Deus colocaria suas própria palavras na boca da criancinha, para atender à fé daquele que busca sinceramente. Por outro lado, mesmo que nos dirigíssemos a um profeta, mas sem uma fé suficiente, Deus colocaria, antes, um espírito de erro na boca do profeta, para confundir aquele que não está realmente dispos to a escutar.

Ainda uma vez, não é o saber, nem a experiência, ne m a competência do acompanhante que contam, mas, bem antes, a disponibilidade profunda daquele que busca.

Escutar é muito mais que o mero ouvir; no contexto do acompanhamento e diálogo espiritual, é mais importante que falar; não é em vão que temos dois ouvidos e uma boca somente: devemos escutar duas vezes mais do que falamos. Para isso devemos nos exercitar. Assim como se faz necessária uma reabilitação de um membro que ficou muito tempo imobilizado, também precisamos reabilitar os sentidos que ficaram esquecidos ou inertes por muito tempo. O homem, afastado de Deus pelo pecado, deixou de escutar. Ficou surdo à voz Daquele que chama o seu nome, escondeu-se desse chamado atrás das moita s. Escondeu-se dessa voz que lhe falava ao coração, através da criação, dos acontecimentos e do próximo.

Escutar é o que a espiritualidade beneditina ensina numa cultura que vê, que fala, mas muito raramente escuta. Nossa espiritualidade remete à escuta de quatro realidades, como remédio para nossa “surdez espiritual”: os Evangelhos, a Regra, um ao outro, e ao mundo que nos cerca. Muitos de nós ouvimos com facilidade uma ou duas dessas realidades, mas dificilmente ouvimos as quatro.

Ouvimos as necessidades dos pobres, mas nos esquecemos da leitura do Evangelho. Procuramos aconselhamento espiritual, mas ignoramos ou negligenciamos as intuições das pessoas com as quais vivemos. Preferimos ouvir-nos a nós mesmos a ouvir corações mais sábios por

medo de que possam nos levar para além de nós mesmos. A espiritualidade beneditina requer a combinação de tudo isso.

No fundo, estas quatro realidades são simplesmente quatro dimensões de uma única e mesma realidade: a Palavra de Deus. A Palavra de Deus que se manifesta ou se faz ouvir através das Escrituras, da Tradição, de nossos irmãos, da criação e da história.

É desse contato íntimo com a Palavra de Deus, que na tradição monástica chamamos de Lectio Divina, que descobrire mos a maravilha de escutar. É daí que receberemos a sabedoria, a humildade, a docilidade e a clareza da vontade de Deus em nossa história de salvação pessoal. Não há melhor escola de discipulado e de p astoreio que a Lectio Divina, visto que ela coloca nossas vidas à luz da Palavra, iluminando nossos corações e nos transmitindo a mentalidade de Cristo, para enxergarmos o mundo e as pessoas com os olhos de Cristo, julgarmos como Cristo, amarmos como Cristo. A Lectio Divina nos forma neste processo de ver a vida e as pessoas como elas verdadeiramente são. É sobre esta prática milenar no seio da Igreja , herdada por nossos pais do judaísmo, que prosseguiremos tratando.Lectio Divina como escola de escuta verificar livros da bibliografia

Bibliografia

OCCHIALINI, U. Direção Espiritual – in Dic. De Míst ica ed. Loyola/ed.Paulus

VALDERRÁBANO, J.F. Direção Espiritual – in Dic. Teo lógico da Vida Consagrada ed. Paulus

LOUF, A. Mais Pode a Graça – ed. Santuário

SZENTMÁRTONI, M. Introdução à Teologia Pastoral ed.    Loyola

CHITTISTER, J.D. Sabedoria que Brota do Cotidiano – viver a Regra de S.Bento hoje ed. Subiaco

VVAA Lectio Divina ontem e hoje ed. Subiaco COLOMBÁS, G.M. Diálogo com Deus ed. Paulus Bibliografia de apoio

CURY, A. Coleção “Análise da Inteligência de Cristo” ed. Academia de Inteligência

POWELL, J./BRADY, L. Arrancar Máscaras e AbandonarPapéis ed. Loyola

GRÜN, A. O céu começa em você ed. Vozes

------------- As exigências do silêncio ed. Vozes

------------- Perdoa a ti mesmo ed. Vozes

------------- O ser fragmentado ed. Idéias e Letras © Mosteiro da Transfiguração www.transfiguracao.com.br
 


 

"Onde há vontade, há um Caminho"