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sábado, 20 de junho de 2015

Por que os cientistas têm fé no papa Francisco


A nova encíclica da Igreja é a maior esperança para disseminar a mensagem da ciência sobre as mudanças climáticas
"Lanço um convite urgente para renovar o diálogo sobre o futuro do planeta”, diz o documento de 190 páginas publicado no dia 18 de junho. Poderia ser de um relatório de ONGs ambientalistas. Ou de cientistas que estudam o clima. Mas não. Trata-se de um documento religioso, a primeira encíclica escrita exclusivamente pelo papa Francisco e que trata de problemas ambientais, poluição e clima. Francisco preparava essa encíclica há pelo menos dois anos. Consultou cientistas, ativistas e membros da Igreja. Dom Erwin Kräutler disse em entrevista a ÉPOCA no ano passado que o papa dedicasse parte da encíclica à Amazônia – o que o pontífice fez. O resultado foi o documento papal Laudato Si – sobre o cuidado da casa comum, que tem o potencial de se tornar uma das encíclicas mais poderosas da Igreja.
Uma encíclica é uma carta do papa abordando temas importantes para a Igreja e destinada aos católicos. A carta pode tratar sobre questões de fé e costumes, mas muitas vezes delibera sobre grandes temas políticos e sociais do momento. Por exemplo, já houve uma encíclica defendendo o direito dos trabalhadores. Outra condenou o nazismo. Assim como seus predecessores Leão XIII e Pio XII, Francisco escolheu um tema urgente de sua época. “As mudanças climáticas representam um dos principais desafios que a humanidade enfrenta em nossos dias”, escreveu o papa, no Twitter.
Francisco afirma que as mudanças climáticas são reais e causadas pela ação humana por meio da emissão de gases poluentes na indústria, nos escapamentos de automóveis e no desmatamento. Diz que quem mais sofrerá com os efeitos devastadores de um clima desregulado serão os mais pobres. O papa até mesmo repreende as lideranças mundiais por não assinar um acordo contra o aquecimento global. Não é à toa que a encíclica era tão aguardada por ambientalistas. É irônico imaginar que os logo os cientistas tenham tanta fé no poder evangelizador da Igreja. Mas realmente as palavras do papa podem ser o maior trunfo para convencer a fatia da população mudial (especialmente nos Estados Unidos) que ainda rejeita o consenso científico sobre o tema.
A teoria do aquecimento global começou no século XIX, com a descoberta de que alguns gases da atmosfera absorvem calor. Hoje sabemos que a temperatura média do planeta aumentou 0,8 grau célsius desde a Revolução Industrial, e a tendência é continuar aumentando, estimulando eventos extremos em todo o mundo. Isso já é um consenso científico. Ele foi reforçado diversas vezes pelo painel da ONU, que reúne milhares de pesquisadores, o IPCC. Também é reafirmado pelas grandes academias de ciência do mundo, como a Sociedade Real Britânica e a Associação Americana para o Avanço da Ciência, e por editoriais das principais revistas científicas, como a Nature e a Science.
O consenso científico sobre o clima não conseguiu, no entanto, virar um consenso social. No Brasil, uma pesquisa da Datafolha deste ano revela que as mudanças climáticas trazem pouca preocupação a 10% dos brasileiros e nenhuma para 2% deles. Nos Estados Unidos, um estudo do Centro de Pesquisas Pew diz que 48% da população não acredita em aquecimento global provocado pela humanidade. A dificuldade em aceitar o que dizem os cientistas sobre o clima é compreensível. Por dois motivos. O primeiro se deve ao custo político e econômico de combater as mudanças climáticas. Será preciso fazer mudanças profundas na economia e no estilo de vida das pessoas. Será necessário transformar meios de transporte, de produção e de geração de energia. Negócios prosperarão e outros sofrerão. É natural resistir a isso. Alguns temem que, por trás da agenda ecológica, exista uma conspiração de esquerda para impor limites ao mercado e às liberdades individuais. Ou mesmo quebrar o capitalismo. Suspeitam que o discurso ecologista seja uma nova forma de visão comunista, como a melancia (verde por fora e vermelha por dentro). O segundo motivo é espiritual ou filosófico. Admitir que o ser humano é capaz de alterar o clima do planeta – em outras palavras, modificar a criação de Deus – soa, para alguns religiosos, como uma grande arrogância humana.
Superar essas resistências não é tarefa para qualquer um. O cientista político americano Andrew Hoffman, autor de um livro que explica como o debate climático foi capturado por um embate cultural, diz que poucas vozes estão acima de divisões ideológicas ou partidárias. O dono dessa voz deve ser carismático. Deve dilogar com conservadores e liberais. Ter o respeito das pessoas de sua própria religião, de outras crenças e até de ateus. Não ser acusado de defender as elites nem de lutar contra elas. Ser ouvido por ricos e pobres, de países desenvolvidos ou em desenvolvimento. O papa Francisco tem essas qualidades.
Isso não significa que seu sucesso será imediato. Nos dias que se seguiram à publicação da encíclica, diversas lideranças conservadoras criticaram o papa, especialmente nos Estados Unidos. Pré-candidatos do partido Republicano a Presidência americana, como Jeb Bush e Rick Santorum, disseram que, mesmo sendo católicos, não seguirão as palavras do papa em suas propostas. A encíclica, entretanto, foi bem recebida entre conservadores europeus e deverá ser trabalhada por toda a hierarquia da Igreja Católica nos próximos meses, chegando aos fiéis em cada paróquia. Os primeiros resultados podem aparecer no final do ano, quando os líderes mundiais se reunirão em Paris para tentar assinar um acordo climático global. A influência do papa pode ser o empurrão que faltava para incluir os conservadores na difícil tarefa de conservar o planeta.

 

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