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segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Chestertoninas: A razão é sempre racional

 
Os dois vultos que eles seguiam rastejavam como moscas pretas através do enorme contorno verde de um monte. Era evidente que estavam profundamente entretidos a conversar e talvez não reparassem para onde se dirigiam, mas não havia dúvida que se estavam dirigindo para as elevações mais ermas e calmas do Heath. Os seus perseguidores ao ganharem distância sobre eles  tinham de tomar as posições pouco dignificantes dos caçadores de espera, agachando-se atrás de moitas e até rastejando deitados na erva cerrada. Por meio destas deselegantes habilidades, os caçadores até chegaram suficientemente próximo da presa para ouvirem o rumor da discussão, mas nenhuma palavra era perceptível a não ser a palavra “razão”, repetindo-se frequentemente num tom de voz excitado e quase infantil. Uma vez numa depressão abrupta do terreno e de um denso emaranhado de moitas, os detetives chegaram a perder de vista os dois vultos que estavam seguindo. Durante uns angustiantes dez minutos perderam a pista e quando a reencontraram ela levava ao cume de um monte sobranceiro a um anfiteatro com o cenário de um esplêndido e solitário pôr do Sol. Debaixo de uma árvore neste local imponente, mas desprezado, havia um velho banco de madeira em ruínas. Neste banco estavam sentados os dois padres conversando seriamente. Os deslumbrantes azul e verde ainda estavam presos ao horizonte que escurecia, mas a abóbada por cima deles estava mudando de verde-pavão para azul-pavão eas estrelas destacavam-se cada vez mais como jóias verdadeiras. Acenando silenciosamente para os seus ajudantes, Valentin conseguiu rastejar por detrás da grande árvore frondosa e, permanecendo aí num silêncio sepulcral, ouviu pela primeira vez as palavras dos estranhos padres.

Depois de os ter escutado durante um minuto e meio foi dominado por uma dúvida diabólica. Talvez ele estivesse arrastado os dois polícias ingleses pelos terrenos de uma charneca noturna para uma missão tão louca como procurar uma agulha num palheiro. Porque os dois padres estavam conversando exatamente como padres, devotamente, com sabedoria e vagar, sobre os enigmas mais elevados da teologia. O padre baixinho do Essex falava com mais simplicidade com a sua cara redonda voltada para as estrelas revigorantes, o outro falava com a cabeça inclinada como se não fosse digno de contemplá-las. Mas uma conversa tão clerical, tão inocente como aquela poderia ser ouvida num claustro branco italiano ou numa escura catedral espanhola.

A primeira coisa que escutou foi o final de uma das frases do Padre Brown, que terminava assim:

– … o que eles realmente queriam dizer na Idade Média a respeito dos céus serem incorruptíveis.

O padre mais alto acenou com a cabeça inclinada e disse:

– Ah, sim, estes infiéis modernos invocam a razão, mas quem é que pode olhar para aqueles milhões de mundos e não sentir que podem muito bem haver universos maravilhosos por cima de nós onde a razão é totalmente irracional?

– Não – disse o outro padre – a razão é sempre racional, mesmo no derradeiro limbo, no limite perdido das coisas. Eu sei que pessoas acusam a Igreja de rebaixar a razão, mas é exatamente o contrário. Só a Igreja no mundo torna a razão realmente suprema. Só a Igreja no mundo afirma que Deus está vinculado pela razão.

O outro padre levantou a sua face austera para o céu brilhante e disse:

– No entanto, quem sabe se naquele infinito universo…?

– Apenas infinito fisicamente – disse o padre baixinho, voltando-se vivamente no banco, – não no sentido de escapar às leis da verdade.

Valentin, por trás da árvore, estava puxando violentamente as unhas das mãos numa fúria silenciosa. Quase lhe parecia ouvir os risinhos dos detetives ingleses que ele tinha trazido até tão longe atrás de uma fantástica conjectura apenas para ouvirem a tagarelice metafísica de dois serenos velhos padres. Na sua impaciência não conseguiu ouvir a resposta igualmente elaborada do clérigo alto e quando se pôs à escuta de novo era outra vez o Padre Brown que falava:

– A razão e justiça abarcam a estrela mais remota e solitária. Olhe para aquelas estrelas. Não parecem diamantes e safiras? Pois bem, pode imaginar qualquer louca botânica ou geologia que quiser. Pense em florestas de diamantes com folhas de brilhantes. Pense que a lua é azul, uma única e enorme safira. Mas não julgue que toda essa louca astronomia iria fazer a mais pequena diferença à razão e à justiça do comportamento. Em planícies de opalas, em penhas talhados de pérolas, iria ainda encontra uma tabuleta como aviso: “NÃO ROUBARÁS”.

G. K. Chesterton, A Inocência do Padre Brown
Livro


"Onde há vontade, há um Caminho"

Chesterton e sua ortodoxia


Gilbert Keith Chesterton, como grande parte das mentes brilhantes que surgiram no início do século XX na Europa, é um dos pensadores brilhantes que o Brasil desconhece. Se você, leitor, também nunca ouviu falar de Chesterton como um dois maiores escritores e polemistas europeus, saiba que o banimento sofrido pelo autor aqui no país pelas mentes “progressistas” e que não conseguiam ver num pensador católico um exemplo de grandeza intelectual imperou sobre a fama desse grande erudito reconhecido na Europa e nos Estados Unidos. Me arrisco até a dizer que o poder intelectual de Chesterton é tão grande quanto o desconhecimento de quem foi ele para a cultura inglesa. Ortodoxia é a continuação de Hereges, livro no qual G. K. Chesterton combate as teses de homens de inegáveis atributos intelectuais, como Bernard Shaw e Bertrand Russell. Ortodoxia nada mais é que uma resposta à crítica da época, que acusava Chesterton de criticar apenas seus desafetos e nunca defender sua crença. Mas a obra não é só isso; não se trata apenas de um livro que ele expõe as contradições do pensamento de H. G. Wells e a a arrogância de Nietzsche. Chesterton é mais que um adversário ferrenho do cientificismo e do ateísmo moderno – é um marco do cristianismo perdido há muito tempo. Como afirmou Philip Yancey, que anota o prefácio do livro, Chesterton reconhecia que o comportamento dos cristãos servia de forte argumento aos seus críticos.

Sobre Tolstoi e Nietzsche, Chesterton não poupa as palavras, afirmando que o escritor russo e sua predileção pela vida simples do campo, pela compaixão, pelos camponeses e a miséria material, eram tantativas de um aristocrata que queria viver na pobreza para entendê-la. Ao contrário de Tolstoi, Joana d’Arc sim foi louvável porque foi realmente pobre e louvou isso. É importante ressaltar que Chesterton não é simplista a ponto de afirmar que Tolstoi é um nobre doidivanas que come peru e arrota mortadela, como a intelligentzia nacional. Não, Tolstoi foi mais que isso, e não chegou à hipocrisia de um Luis Fernando Veríssimo ou de um Chico Buarque. Tolstoi buscou a pobreza e o valor das coisas simples, mas o que Chesterton põe em jogo é: o que é mais importante, SER simples e procurar a beleza reclusa nos campos como Joana d’Arc ou TENTAR SÊ-LO, como Tolstoi? Já Nietzsche, mente mais deturpada, Chesterton usa também o exemplo da santa francesa para mostrar a frouxidão do sempre enfermo – entenda-se aqui tanto a enfermidade física quanto a mental – filósofo alemão. Enquanto Nietzsche elogiava a bravura, os altos valores éticos, a busca do orgulho e da coragem Joana d’Arc era tudo aquilo. Em uma das melhores passagens do livro, Chesterton afirma que “(Joana d’Arc) não temia um exército, enquanto Nietzsche tinha medo de uma vaca” e continua afirmando que enquanto o filósofo tecia elogios aos guerreiros a santa era uma guerreira superando Nietzsche que, assim como Tolstoi, queria ser algo que não era enquanto que Joana d’Arc era os dois ideais em uma pessoa só.

Chesterton tem a coragem e originalidade de introduzir no seus argumentos contra os adversários a “ética da Elfolândia”. Insere nos seus argumentos a ética presente nos contos de fadas como fundador da nossa moral. Os pilares dos nossos princípios éticos são os passados de pai para filho. Como a autor diz – a tradição é a democracia dos mortos, dos nossos antepassados que com sua experiência se fazem presentes a partir da tradição. É essa tradição e conceitos que são passados de geração em geração com os contos de fadas. Como exemplos, a exaltação aos humildes na história de Cinderela. A lição de que ninguém pode ser amável sem ser amado antes é o cerne de A Bela e a Fera. Nesse capítulo, os contos de fada são apresentados como o maravilhamento que perdemos ao admirarmos as belezas e simplicidades mundo. Assim, Chesterton enaltece a humildade perante os mistérios do mundo, batend de frente com a ambição de onisciência dos cientificistas e materialistas do início do século XX. O recado de Chesterton contra os adeptos desse progressismo científico é claro: cientistas devem cuidar apenas dos assuntos científicos, e não abordar tudo pela ótica de sua ciência para julgar questões que estão fora de seu alcance, como a moral ou teologia. É nesse recado aberto às filosofias de H. G. Wells, Bertrand Russel, Bernard Shaw, que Chesterton mostra o quão preocupante é uma sociedade baseada na ética ateísta e materialista. Hoje podemos ver que esses pensadores que Chesterton combateu foram os germens dos princípios éticos de Peter Singer e do “novo ateísmo” de Richard Dawkins e Sam Harris.

Ao contrário do pessimismo e fatalismo de alguns filósofos, Chesterton defendeu seu sentimento de alegria e reconforto para com o Universo. Em um exercício de imaginação, pede para que cada um deixe de lado a visão materialista do Universo como um lugar imenso e frio e comece a olhá-lo como um lugar aconchegante, nos incita a ter amor pelas coisas do Universo. Chesterton nos explica que quando rejubilamo-nos pela existência do Universo, esse é um bom motivo para amá-lo, mas a tristeza perante ele é um motivo muito maior para também assim fazê-lo. Assim como as maiores demonstrações de patriotismo se dão em situações críticas, em que a pátria nos desaponta profundamente, fazendo com que mostremos a ela o nosso amor agindo para surtir mudanças, do mesmo modo devemos agir para com o Universo. Cada vez que nos desapontamos com este, devemos respeitá-lo como respeitamos a nossa nação.

E Chesterton vai mais além: afirma, sabiamente, que o homem mais apto a destruir o lugar que ama é aquele que o ama por algum motivo. Somente posso considerar como amor sobre algo a contemplação a um objeto pelo qual não espero nada em troca, já é completo em si, constituído de elementos inexplicáveis que me fazem amá-lo. O perigo se encontra nos homens que precisam de algum motivo para amá-lo, assim como são perigosos os homens que necessitam de pretexto para amar o país. Eis o caso dos grandes ditadores. Por trás desse motivo para amar a sua pátria está velado uma alma destruidora em potencial. Ao não ver seus desejos saciados, esse homem considera seu amor a pátria um erro, um tempo perdido em um serviço inútil, e então volta-se contra ela em fúria incontrolável. Não é por acaso que o genial Goethe afirmou que “contra nada somos mais severos que com os erros que abandonamos”. Esse processo, portanto, não passa de uma punição retroativa à pátria pelos ideais e ações inúteis do homem revoltado ao ver seus motivos de amar a pátria destruídos. Esses homens dizem-se patriotas, mas exercem o patriotismo apenas se seus desejos de poder e revolução forem plenamente satisfeitos. A partir do momento em que esse revoltado assume o poder, vicia-se nele, buscando a perpetuação do poder temporal, nunca saciando a sanha de cada vez mais buscar e concentrar o poder na sua pessoa.

Chesterton é tão cativante que a leitura de seu livro sobre São Francisco de Assis e São Tomás de Aquino que o grande filósofo tomista Etiénne Gilson, impressionou-se tanto com a biografia do santo de Roccaseca que afirmou: “Considero, sem comparação alguma, que é o melhor livro nunca antes escrito sobre São Tomás. Só um gênio podia fazer algo assim. Todo o mundo admitirá, sem nenhuma dúvida, que se trata de um livro inteligente; mas os poucos leitores que tiverem passado vinte ou trinta anos estudando São Tomás de Aquino e publicado dois ou três volumes sobre o tema terão de reconhecer que a chispa de gênio de Chesterton lhes deixou ao rés do chão a erudição. Tudo o que eles tentavam expressar desajeitadamente em fórmulas acadêmicas foi expressado por Chesterton. Esse homem foi um dos pensadores mais profundos que jamais existiram.”

Já sobre Ortodoxia, Gilson afirma que é “a melhor obra de apologética produzida no século”. Não chego nem perto do conhecimento de Gilson, mas endosso o que o medievalista afirma. E tal concordância se deve à admiração a Gilson e à transformadora experiência que é ler Ortodoxia.

 


"Onde há vontade, há um Caminho"