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segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

CF 2016 - A alegria pela IV Campanha da Fraternidade Ecumênica – CFE

 

Tema:

Casa Comum, nossa responsabilidade

Lema:

Quero ver o direito brotar como fonte e correr a justiça qual riacho que não seca” (Am 5,24)
  1. As Igrejas que integram o Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil (CONIC) assumem como missão expressar em gestos e ações o mandato evangélico da unidade, que diz: “Que todos sejam um, como tu, Pai, estás em mim e eu em ti; que também eles estejam em nós, a fi m de que o mundo creia que tu me enviaste” ( Jo 17,21).
  2. O testemunho ecumênico coloca-se na contramão de todo tipo de competição e de proselitismo, tão frequentes no contexto religioso. É uma clara manifestação de que o diálogo e o testemunho conjunto são possíveis. É um apelo dirigido a todas as pessoas religiosas e de boa vontade para que contribuam com as suas capacidades para a promoção da convivência, da justiça, da paz e do cuidado com a criação. É, também, uma comprovação de que Igrejas irmãs são capazes de repartir dons e recursos na sua missão.
  3. A caminhada ecumênica realizada pelo CONIC tem mais de três décadas. É uma trajetória marcada por fraternidade, confiança, parceria e protagonismo. Dessa trajetória, podem ser destacados como expressões concretas de comunhão fraterna as três Campanhas da Fraternidade Ecumênicas, realizadas nos anos 2000, 2005 e 2010. Todas elas marcaram profundamente a vida das Igrejas que nelas se envolveram.
  4. A motivação para essas Campanhas fundamentou-se na compreensão de que, no centro da vivência ecumênica, está a fé em Jesus Cristo. Isso se deu, porque o movimento ecumênico está marcado pela ação e pelo desafio de construir uma Casa Comum (oikoumene) justa, sustentável e habitável para todos os seres vivos. Essa luta é profética, pois questiona as estruturas que causam e legitimam vários tipos de exclusão: econômica, ambiental, social, racial e étnica. São discriminações que fragilizam a dignidade de mulheres e homens.
  5. É exatamente isso que acontece quando, neste ano, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) coloca outra vez à disposição do CONIC a Campanha da Fraternidade, seu mais conhecido projeto de evangelização.
  6. Com esse espírito, no ano 2000, na virada do milênio e no contexto do Grande Jubileu, foi realizada a primeira Campanha da Fraternidade Ecumênica com o tema “Dignidade humana e paz” e com o lema “Novo milênio sem exclusões”. No ano de 2005, foi realizada a segunda Campanha da Fraternidade Ecumênica. O tema foi “Solidariedade e paz” e o lema “Felizes os que promovem a paz”. A Campanha Ecumênica de 2010 provocou o debate sobre o papel da economia na sociedade. O tema foi “Economia e vida”, aprofundado com o lema bíblico “Vocês não podem servir a Deus e ao Dinheiro” (Mt 6,24c).
  7. A Campanha da Fraternidade Ecumênica de 2016 apresenta o tema “Casa Comum, nossa responsabilidade” e tem como lema “Quero ver o direito brotar como fonte e correr a justiça qual riacho que não seca” (Am 5,24). O objetivo principal é assegurar o direito ao saneamento básico para todas as pessoas e empenharmo-nos, à luz da fé, por políticas públicas e atitudes responsáveis que garantam a integridade e o futuro de nossa Casa Comum.
  8. Nesse tema e nesse lema, duas dimensões básicas para a subsistência da vida são abarcadas a um só tempo: o cuidado com a criação e a luta pela justiça, sobretudo dos países pobres e vulneráveis. Nessa Campanha da Fraternidade Ecumênica, queremos instaurar processos de diálogo que contribuam para a reflexão crítica dos modelos de desenvolvimento que têm orientado a política e a economia. Faremos essa reflexão a partir de um problema específico que afeta o meio ambiente e a vida de todos os seres vivos, que é a fragilidade e, em alguns lugares, a ausência dos serviços de saneamento básico em nosso país.
  9. Perguntamos: como estão estruturadas as nossas cidades? Quem realmente tem acesso ao saneamento básico? No ano de 2014, o sudeste do Brasil viveu uma das maiores crises hídricas já registradas na história recente do país. Quem foi responsabilizado por isso? Por que os serviços de saneamento básico, considerados como direito humano básico pela Organização das Nações Unidas, estão em disputa?
  10. Com essa CFE colocamo-nos em sintonia com o Conselho Mundial de Igrejas e também com o Papa Francisco. Ambos têm chamado a atenção para o fato de que o atual modelo de desenvolvimento está ameaçando a vida e o sustento de muitas pessoas, em especial as mais pobres. É um modelo que destrói a biodiversidade. A perspectiva ecumênica aponta para a necessidade de união das igrejas diante dessa questão. Nossa Casa Comum está sendo ameaçada. Não podemos, portanto, ficar calados. Deus nos convoca para cuidar da sua criação. Promover a justiça climática, assumir nossas responsabilidades pelo cuidado com a Casa Comum e denunciar os pecados que ameaçam a vida no planeta é a missão confi ada por Deus a cada um e cada uma de nós.
  11. É uma alegria compartilhar que nessa CFE, além das cinco igrejas que integram o CONIC, somaram forças também: a Aliança de Batistas do Brasil, o Centro Ecumênico de Serviços à Evangelização e Educação Popular (CESEEP) e a Visão Mundial. Outra novidade é que a IV Campanha da Fraternidade Ecumênica será internacional, porque a Misereor, organização dos bispos católicos alemães para a cooperação e o desenvolvimento, integrou-se nesse mutirão. Nossa oração e desejo é que mais igrejas e religiões entrem nessa caminhada.
Uma Campanha da Fraternidade Ecumênica que cruza fronteiras
  1. Desde o ano de 1958, a Misereor realiza junto às comunidades católicas da Alemanha a Campanha de Quaresma. Esta Campanha é uma expressão concreta da comunhão e da solidariedade da Igreja no mundo inteiro. Ao longo de sua história, a Misereor contribuiu para fortalecer a voz dos povos do Sul, que lutam e buscam caminhos que possam conduzir ao bem-viver todos os homens e todas as mulheres.
  2. Acolher a Misereor como irmã de caminhada na IV CFE significa assumir que a cooperação para o desenvolvimento vai além de alguma ajuda pontual para algum grupo específico. Desde uma perspectiva de fé, significa também assumir a responsabilidade comum pelo futuro da Terra.
  3. Ao unirem-se nessa IV CFE, CONIC e Misereor experimentam uma nova forma de cooperação. A concepção que orienta essa parceria é que os grandes desafios do futuro, em especial aqueles relacionados aos direitos humanos e à justiça climática, não podem ser enfrentados e muito menos resolvidos por um país sozinho. É necessário que essa responsabilidade seja assumida ecumenicamente, indo além das fronteiras geográficas e confessionais.
  4. O Brasil e a Alemanha são países econômica e culturalmente diferentes. A partir dessas diferenças, entendemos que nossas responsabilidades são comuns, porém diferenciadas. A IV CFE será um exercício de experimentar essa unidade na diversidade. É por isso que na Alemanha o foco principal da Campanha será o “Direito e justiça”, enfatizando que os direitos humanos, econômicos, sociais e culturais são inegociáveis. Nesses direitos estão presentes o acesso à água potável e ao saneamento básico.
  5. O ano de 2015 foi de intenso debate sobre as mudanças climáticas. No contexto de preparação para a Conferência do Clima, promovida pelas Organizações das Nações Unidas (ONU), foram realizados vários espaços de reflexão e reivindicação por justiça ambiental. Duas ações expressam o comprometimento das igrejas com a justiça climática. A primeira delas é o chamado do Conselho Mundial de Igrejas (CMI) à “Peregrinação por justiça e paz” que denuncia a ação destrutiva do atual modelo de desenvolvimento, os mais afetados são os mais pobres. A “Peregrinação por justiça e paz” destaca a necessidade urgente da superação desse modelo de desenvolvimento que está baseado no consumo e na ganância.
  6. A segunda ação é a Encíclica do Papa Francisco Laudato Sí’: sobre o cuidado da Casa Comum. Essa encíclica é a voz profética que clama para que assumamos o desafio de proteger a Casa Comum unindo-nos por um desenvolvimento sustentável e integral.
  7. A ONU reconhece o papel imprescindível das religiões para a promoção de mudança de valores no que diz respeito ao meio ambiente. Ao nos unirmos como igrejas de dois países tão diferentes, estamos assumindo a responsabilidade comum em favor da criação.
  8. Na Alemanha, a dimensão ecumênica não estará ausente. Ela será fortalecida pela Prece Ecumênica para a Campanha da Quaresma. Essa prece foi elaborada de forma conjunta por Misereor, organização católica, Pão Para o Mundo e organização luterana, com participação do CONIC. A oração expressa a urgência de assumirmos a responsabilidade do cuidado com a Casa Comum: Deus, justo e misericordioso, a Tua Terra, nossa Casa Comum, está em um estado deplorável. Milhões de pessoas sofrem com a fome. Em muitos lugares, o direito à moradia, à água e ao saneamento básico, o direito à autodeterminação econômica, social e cultural é largamente desrespeitado. Estas realidades são difíceis de suportar. Assustam-nos. Fechamos os olhos e a sensação de que “não há nada que eu possa fazer” é forte. Paralisa-nos. Queremos sair dessa armadilha. Queremos acolher o dom da Tua Criação e assumir a responsabilidade por ela. Por isso, necessitamos da Tua ajuda e Te rogamos: Que o cuidado para com a nossa Casa Comum nos dê uma voz forte para denunciar todas as formas abusivas de exploração econômica. Que o saneamento básico e a água potável limpa se tornem acessíveis para todos os cidadãos e todas as cidadãs. Que Tu fortaleças a nossa esperança, para que o direito e a justiça virem realidade. Que nós, teus filhos e tuas filhas, sejamos profetas, preparemos o caminho para o Bem Viver e que estabeleçamos, através das nossas palavras e das nossas ações, relações dignas entre as pessoas, para com a Criação e para contigo, Deus. Amém!
E por que discutir sobre saneamento básico no Brasil?
  1. Como já dissemos, o abastecimento de água potável, o esgoto sanitário, a limpeza urbana, o manejo de resíduos sólidos, o controle de meios transmissores de doenças e a drenagem de águas pluviais são medidas necessárias para que todas as pessoas possam ter saúde e vida dignas.
  2. A combinação do acesso à água potável e ao esgoto sanitário é condição para se obter resultados satisfatórios também na luta para a erradicação da pobreza e da fome, para a redução da mortalidade infantil e pela sustentabilidade ambiental. Há que se ter em mente que “justiça ambiental” é parte integrante da “justiça social”.
  3. Segundo o relatório “Progresso no Saneamento e Água Potável –Atualização e Avaliação dos ODMs 2015”1 da UNICEF e da Organização Mundial de Saúde (OMS), 2,4 bilhões de pessoas ficaram sem acesso ao saneamento melhorado no ano de 2015.
  1. O Índice de Desenvolvimento do Saneamento no Brasil foi de 0,581. Essa posição é inferior aos países desenvolvidos, mesmo frente a vários países da América do Sul.
  2. Muito embora tenhamos uma lei que estabelece as diretrizes nacionais para o saneamento básico, este tema permanece um dos grandes desafios para a qualidade de vida de todas as pessoas.
  3. A responsabilidade pela Casa Comum é de todos, dos governantes e da população. As comunidades cristãs são convocadas por esta Campanha da Fraternidade Ecumênica a mobilizar em todos os municípios grupos de pessoas para reclamar a elaboração de Planos de Saneamento Básico e exercer o controle social sobre as ações de sua execução.
  4. Essa ação será orientada pelo tema da CFE “Casa Comum, nossa responsabilidade” e inspirada e iluminada pelo lema “Quero ver o direito brotar como fonte e correr a justiça qual riacho que não seca” (Am 5,24). Para tanto, assumimos os seguintes objetivos:
Objetivo geral:
Assegurar o direito ao saneamento básico para todas as pessoas e empenharmo-nos, à luz da fé, por políticas públicas e atitudes responsáveis que garantam a integridade e o futuro de nossa Casa Comum.
Objetivos específicos:
  1. Unir igrejas, diferentes expressões religiosas e pessoas de boa vontade na promoção da justiça e do direito ao saneamento básico;
  2. Estimular o conhecimento da realidade local em relação aos serviços de saneamento básico;
  3. Incentivar o consumo responsável dos dons da natureza, principalmente da água;
  4. Apoiar e incentivar os municípios para que elaborem e executem o seu Plano de Saneamento Básico;
  5. Acompanhar a elaboração e a excussão dos Planos Municipais de Saneamento Básico;
  6. Desenvolver a consciência de que políticas públicas na área de saneamento básico apenas tornar-se-ão realidade pelo trabalho e esforço em conjunto;
  7. Denunciar a privatização dos serviços de saneamento básico, pois eles devem ser política pública como obrigação do Estado;
  8. Desenvolver a compreensão da relação entre ecumenismo, fidelidade à proposta cristã e envolvimento com as necessidades humanas básicas.
"Onde há vontade, há um Caminho"

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Papa Francisco e patriarca russo fazem reunião histórica em Cuba


O Papa Francisco e o patriarca da Igreja Russa Ortodoxa Kirill fizeram uma reunião histórica nesta sexta-feira (12) no Aeroporto Internacional José Martí, em Havana, Cuba. Ao final do encontro, assinaram uma declaração conjunta, na presença de Raúl Castro.
O porta-voz do Vaticano, Federico Lombardi, afirmou que o encontro foi "um momento histórico e uma grande alegria para o papa". Ele acrescentou que a reunião foi "muito cordial" e que eles chegaram a "uma meta", que é "o ponto de partida de um caminho de unidade e compreensão, que não é fácil, mas muito valioso".
Em pronunciamento após a reunião, Kirill afirmou que o encontro com o papa permitiu "entender e sentir" a posição do outro e que os dois estão de acordo quanto à possibilidade de católicos e ortodóxos cooperarem na defesa do cristianismo. As duas autoridades pediram uma ação imediata da comunidade internacional para proteger os cristãos do Oriente Médio.
"Em muitos países do Oriente Médio e do norte da África, famílias inteiras, vilarejos e cidades de nossos irmãos e irmãs em Cristo estão sendo completamente exterminados", afirmaram na declaração conjunta. "Nós esperamos que nosso encontro contribua para o restabelecimento desta unidade desejada por Deus."
O papa chegou a Havana às 17h (horário de Brasília) e foi recebido na pista do aeroporto pelo presidente de Cuba. Também o receberam o cardeal Jaime Ortega, principal autoridade na hierarquia católica da ilha, e o arcebispo de Santiago de Cuba e presidente da Conferência de Bispos, Dionisio García.
Kirill chegou em Havana na quinta-feira e também foi saudado por Raúl Castro, aliado da Rússia. Raúl havia recebido o papa Francisco em Cuba cinco meses atrás.
Planejado há anos, o encontro é um importante passo para a reaproximação após uma cisão de mil anos que dividiu o cristianismo. Segundo a agência AP, o Papa Francisco já havia afirmado que se encontraria com o patriarca Kirill “onde ele quisesse”. A reunião em Cuba foi anunciada na semana passada pelas duas igrejas.

As igrejas Católica Apostólica Romana e Católica Apostólica Ortodoxa se separaram durante o Grande Cisma do Oriente, em 1054, quando os líderes das igrejas em Roma e Constantinopla excomungaram-se mutuamente. Desde então, elas divergem em uma série de assuntos, incluindo a supremacia do papa.
De acordo com a AP, a violência que ameaça extinguir a presença de cristãos - católicos e ortodoxos - no Oriente médio e na África aproximou as igrejas. Ambas têm se manifestado contra os ataques extremistas islâmicos e a destruição de monumentos cristãos, especialmente na Síria.
Em um comunicado conjunto, as igrejas afirmam que o encontro “irá marcar um importante estágio nas relações entre as duas igrejas”.
Cerca de dois terços dos cristãos ortodoxos do mundo, aproximadamente 200 milhões de pessoas, pertencem à Igreja Ortodoxa Russa. A Igreja Católica afirma ter 1,2 bilhão de fiéis.

Cuba
Chad Pecknold, teólogo da Unviersidade Católica da América e autor de “Cristianismo e Política: um breve guia histórico”, acredita que a escolha de Cuba seja significativa especialmente para Kirill, considerando os laços do país com o comunismo e a extinta União Soviética. O líder da Igreja Ortodoxa Russa estará em Cuba para sua primeira visita oficial à América Latina.
Outros analistas concordam que um país fora da Europa e oficialmente comunista não foi uma escolha ao acaso. Além disso, o Papa Francisco também reforçou seus laços com o país ao participar do processo de reaproximação de Cuba com os EUA.
México
Após o encontro, o Papa Francisco segue para uma visita ao México, onde fica até o dia 18 de fevereiro. Além de um encontro com o presidente mexicano, Enrique Peña Nieto, ele irá realizar missas para indígenas, um encontro com famílias, visita a uma prisão e homílias.
Um dos destaques da viagem deve ser sua missa de encerramento, na tarde de 17 de fevereiro, em Ciudad Juárez. Na ocasião, ele deve expressar sua solidariedade aos migrantes que tentam cruzar a fronteira com os Estados Unidos. A expectativa é de que 200 mil mexicanos e 50 mil texanos se reúnam para a benção do papa.

"Onde há vontade, há um Caminho"

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Tempo da Quaresma

A Quaresma é o tempo litúrgico de conversão, de reviver o nosso batismo, que a Igreja nos proporciona para preparar para a grande festa da Páscoa. É tempo para nos arrependermos de nossos pecados e de mudar de vida, correspondendo à graça de Deus que nos concede esse dom.
A Quaresma dura 40 dias: começa na Quarta-feira de Cinzas e termina na Quinta-feira Santa à tarde. Ao longo deste tempo fazemos a nossa parte para recuperar o ritmo e estilo de verdadeiros fiéis, que devemos viver como filhos de Deus.
Trata-se de um tempo privilegiado de conversão, combate espiritual, jejum, abstinência, esmola, sacrifício, oração e escuta da Palavra de Deus. A característica fundamental e indispensável da Quaresma é a conversão da vida velha para darmos passos na nova vida em Cristo! O número “quarenta” é bíblico e cheio de simbolismos: os quarenta dias do Dilúvio, os quarenta dias de Moisés no Monte Sinai, os quarenta anos de Israel no deserto, os quarenta dias do caminho de Elias até o Sinai e, sobretudo, os quarenta dias do Senhor Jesus no deserto, preparando sua vida pública, quando, após esses dias de jejum, é tentado pelo demônio. 
No segundo domingo da Quaresma, o mesmo Jesus que entrou na penitência dos quarenta dias aparece transfigurado com dois outros penitentes: Moisés e Elias! Aí aparece que a Lei e os Profetas se cumprem na vida de Cristo, o Messias Salvador. É tão bom isso, que Pedro quer construir três tendas!
Daí vem a importância de vivermos intensamente este tempo litúrgico nestes exatos quarenta dias para a penitência! É tão antigo que tem suas raízes na própria prática da Igreja apostólica.
A cor litúrgica deste tempo é o roxo, que significa penitência. É um tempo de reflexão, de penitência, de conversão espiritual; tempo e preparação para o mistério pascal. A espiritualidade da Quaresma aparece em seu caráter essencialmente cristocêntrico-pascal-batismal. Este tempo litúrgico é caminho de fé-conversão para Cristo, que se faz servo obediente ao Pai até a morte de cruz. 
Na Quarta-feira de Cinzas, quando iniciamos a Quaresma, o Evangelho ao qual devemos crer ao nos converter, nos indica alguns caminhos da espiritualidade quaresmal: a Oração, o Jejum e a Esmola.
A oração – neste tempo os cristãos se dedicam mais à oração. Uma boa prática é rezar a liturgia das horas, o terço, a via sacra, fazer a Lectio divina seja individualmente, seja em comunidade. Outra sugestão pode ser diariamente rezar um salmo após a leitura orante da Palavra de Deus, ou, para os mais generosos, rezar todo o saltério no decorrer dos quarenta dias. É costume também rezar a Via Sacra às sextas-feiras e a reza diária do Santo Rosário.
Jejum – na história da salvação é frequente o convite a jejuar. Já nas primeiras páginas da Sagrada Escritura o Senhor recomenda que o homem se abstenha de comer o fruto proibido: “Podes comer o fruto de todas as árvores do jardim; mas não comas o da árvore da ciência do bem e do mal, porque, no dia em que o comeres, certamente morrerás”. Dado que todos estamos entorpecidos pelo pecado e pelas suas consequências, o jejum é-nos oferecido como um meio para estarmos mais abertos à escuta da Palavra do Senhor. Assim fez Esdras antes da viagem de regresso do exílio à Terra Prometida, convidando o povo reunido a jejuar “para nos humilhar – diz – diante do nosso Deus”. O Omnipotente ouviu a sua prece e garantiu os seus favores e a sua proteção.
O Jejum pode variar muito de acordo com cada pessoa, e cada um deve escolher sua prática penitencial para este tempo. Por exemplo: renunciar a um lanche diariamente, ou a uma sobremesa, não comer carne às quartas e sextas-feiras, e tantas outras possibilidades. Na Quarta-feira de Cinzas e na Sexta-feira Santa os cristãos praticam o jejum e a abstinência: o jejum nos faz recordar que somos frágeis e que a vida que temos é um dom de Deus, que deve ser vivida em união com Ele. Os mais generosos podem jejuar todas as sextas-feiras da Quaresma. Mesmo durante o ano, existe a prática de, às sextas feiras, termos algum sinal penitencial.
Esmola - a Quaresma é tempo de mais um forte empenho de caridade para com os irmãos. A liturgia fala de “assiduidade na caridade operante”, de “uma vitória sobre o nosso egoísmo que nos torne disponíveis às necessidades dos pobres” (parte do prefácio da quaresma I e III). A verdadeira ascese exigida pelos textos bíblicos e eucológicos da Quaresma. Não há verdadeira conversão a Deus sem conversão ao amor fraterno (cf.1 Jo 4,20-21). A privação à qual o cristão é chamado durante a Quaresma, inclusive através do jejum corporal, exige que seja sentida como exigência da fé para tornar-se operante na caridade para com os irmãos. O jejum não tem significado em si mesmo, mas deve ser um sinal de toda uma atitude de justiça e caridade (cf. Is 1,16-17;58,6-7). De uma maneira muito especial, lembramos que no Domingo de Ramos temos a “coleta da solidariedade” como consequência às penitências quaresmais.
Portanto, Quaresma é um tempo propício para lutarmos contra os nossos defeitos mais arraigados. Podemos aproveitar esta época litúrgica para crescer em conhecimento próprio, fazendo um exame mais aprofundado da nossa vida para descobrir o que nos aproxima ou afasta de Deus. Depois, marcaremos metas palpáveis de melhora e nos esforçaremos por atingi-las. Se alguma vez falharmos, recorreremos com humildade e contrição ao sacramento da Penitência, e recomeçaremos com alegria. Aliás, essa é uma prática indispensável na Quaresma: a celebração penitencial ou da reconciliação, se possível muitas vezes durante este tempo. Se fizermos a nossa parte, que é lutar sempre confiantes na ajuda de Deus, Ele não deixará de nos conceder as graças necessárias para uma verdadeira conversão. E assim chegaremos renovados para a Páscoa da Ressurreição, vivenciando a nossa vida batismal.
* Orani João, Cardeal Tempesta, O.Cist. Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro, RJ



"Onde há vontade, há um Caminho"

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Santo Odilon


 
Como o modo de andar ou de falar de uma pessoa pode demonstrar a santidade de sua alma.
Cada época histórica possui grandes homens característicos. Santo Odilon o foi para a Idade Média: grandioso no sentido verdadeiro da palavra.
Apesar de possuir grande valor pessoal, o que sobretudo transparecia em nosso santo eram as graças sobrenaturais — incomparavelmente mais preciosas do que qualquer valor pessoal — que adornavam sua alma.
Sua personalidade tinha tal amplitude harmônica de aspectos, como não se encontra nos grandes homens do tempo da Revolução.
O modo de andar
Passemos a comentar trechos de sua vida, retirados de uma ficha biográfica: “Comecemos por seus méritos menores. E digamos que esse homem tinha um andar grave, uma voz admirável, ele falava bem. Era uma alegria vê-lo.”
Ao descrever o porte e o modo de ser do santo, o autor ressalta mais os sinais da virtude do que a virtude propriamente dita.
O modo de andar das pessoas as define muito, e por causa disso o biógrafo, contemporâneo de Santo Odilon, julgou que deveria começar a descrevê-lo pelo passo. O que é um passo grave? É um passo firme, varonil, de alguém que, ainda que não tenha diante de si obstáculos visíveis, anda vencendo. É um passo cheio de consequências e de ponderação.
Compostura respeitosa
Cada um de seus movimentos exprimia honestidade. Sua fisionomia era angélica e seu olhar sereno.”
Honestidade, no francês antigo, significava compostura. Un honnête homme significava um homem muito composto, muito digno. Vê-se, então, que todo o modo de ser de Santo Odilon era cheio de compostura e de dignidade.
É preciso ressaltar também que na Idade Média o conceito de anjo não era o desse tipo de anjinho gorduchinho, com ares de irresponsável. Não seria um elogio dizer para alguém que ele tem aquela carinha. A ideia que o medieval fazia dos anjos era a que está expressa nos vitrais medievais: os grandes heróis do Céu; príncipes na presença do Altíssimo.
Percebe-se, assim, o que o autor quer dizer quando afirma que “sua fisionomia era angélica”. Este era Santo Odilon, que grande figura!
Continua a ficha:
Cada dobra de seu hábito sacerdotal apresentava dignidade e mostrava o respeito que ele tinha por si mesmo e pelos outros.”
Santo Odilon sabia que era a “alma” do grande movimento de Cluny, o qual, por sua vez, era a “alma” irradiante da Idade Média.
A verdadeira humildade consiste em respeitar-se a si próprio como deve ser respeitado.
Sabendo ser Superior de uma Ordem religiosa, homem sagrado por Deus, ele se respeitava enormemente. Vemos que o porte desse varão de Deus era, ao mesmo tempo, principescamente angélico e cheio de humildade.
Alma luminosa
Continua a narração:
Ele trazia consigo qualquer coisa de luminoso, que convidava a imitá-lo e venerá-lo. A luz da graça, que estava nele, brilhava, por assim dizer, no exterior, e manifestava a qualidade de sua alma.”
O autor soube fixar essa luminosidade que havia em Santo Odilon, a qual nota-se em tantos santos. Ela é algo difícil de descrever, pois trata-se de uma luminosidade do olhar e de algo que paira em torno da personalidade.
Assim como há algo que distingue um homem morto daquele que apenas dorme, há também uma luz na fisionomia do santo, a qual o distingue de quem não o é.
Seu rosto exprimia a uma vez a autoridade e a benevolência.”
O autor acentua muito bem os contrastes: autoridade e benevolência.
Imaginemos um claustro medieval, repleto de ogivas, e Santo Odilon andando sozinho. Ao longe, um noviço o vê e se ajoelha, Santo Odilon passa e o abençoa.
É bem o contrário daquilo que a Revolução procura incutir nas mentalidades: quem tem autoridade é uma espécie de fera que subiu e, quando encontra a oportunidade de pisar nos outros, fica contentíssima, como quem diz: “Eu apanhei até subir; agora desconto nos que estão embaixo.”
Uma concepção da autoridade não pode ser mais ordinária do que essa.
Pelo contrário, a autoridade existe para fazer o bem. Sua missão é cumprir a benevolência. Benevolência quer dizer querer o bem dos outros.
Para os bons, ele se mostrava risonho e acolhedor, mas, para os orgulhosos e rebeldes, se tornava tão terrível que era difícil conseguirem fitar seu olhar.”
Que verdadeira maravilha! Eu tenho entusiasmo por essa arma do homem que é o olhar. Quão poucos homens a possuem! O autor dessa ficha soube ver o olhar terrível de Santo Odilon. Isso é admirável! Terrível como um exército em ordem de batalha!
Seus olhos brilhavam com brilho singular: eram olhos acostumados às lágrimas.”
Como o mundo moderno não compreende mais isso! O mundo moderno só gosta dos olhos habituados a rir; olhos estultos e néscios, os quais só dizem o que sente o egoísmo. O mundo antigo compreendia qual era o valor dos olhos habituados a chorar pelas coisas santas. Chorar pela Paixão de Nosso Senhor, chorar pelos pecados, pelos outros e por si. O pranto sagrado transforma o interior do olhar e o faz luminoso como uma linda rosácea banhada pelos raios do sol.
 “Mesmo em viagem, Santo Odilon trazia sempre um livro nas mãos. Enquanto viajava a cavalo, sua alma refazia as forças através da leitura.”
Não entendamos isso à maneira moderna, onde o indivíduo tira do bolso um livrinho e lê comodamente. Devemos pensar que os livros do tempo de Santo Odilon eram in-fólios, pesadões, feitos em pergaminho.
Apesar disso ele tinha sempre um livro consigo. Quer dizer, ele aproveitava todos os pequenos interstícios para ler alguma coisa e assim desenvolver seu espírito na meditação das coisas celestes.
Ademais, a locomoção não era como hoje em dia! Viajava-se a cavalo ou a burro. E as estradas, como eram? As mais precárias possíveis. As menores distâncias eram transpostas em longos períodos.
Imaginemos, então, que cena pitoresca: o cavalo trotando e Santo Odilon com uma das mãos na rédea e com a outra segurando um pergaminho escrito com umas letras enormes; ele enrola a folha que terminou de ler, pensa um pouco, coloca essa folha num saco, e tira outra página. O animal andando em meio de precipícios, onde Santo Odilon para e pede o auxílio do Anjo da Guarda! “Gloria tibi, Domine”... E continuava.
Autoridade e benevolência, virtudes indissociáveis
Santo Odilon difundia a caridade fraterna por sua própria feição, antes de ensiná-la. E ele a ensinava, sobretudo por seus atos. “Amando seus irmãos com o interno calor de sua alma, o santo queria engrandecer a cada um deles, e levá-los ao amor de Deus. Jamais desprezava ou rejeitava pessoa alguma; por sua caridade — verdadeiramente divina — ele convidava a todo o mundo, sem nenhuma reserva, a aproveitar de sua indulgência, pois aquele que é verdadeiramente grande arde nesse desejo de amar o próximo.”
Santo Odilon foi abade de Cluny numa época em que a íntima conjugação das instituições temporais e espirituais fazia de um abade um personagem de grande importância. E, tomando em consideração que Cluny representava a maior abadia francesa do tempo, ser seu abade significava ser um dos homens mais consideráveis da estrutura política e social da Idade Média.
Ademais, o mosteiro de Cluny possuía os direitos feudais sobre grande quantidade de terras, e isso dava a Santo Odilon não só o poder espiritual, mas também o material. Ele, por sua reputação pessoal, pelo prestígio de sua santidade e cultura, estava elevado muito acima de seus contemporâneos.
Esse homem, tão insigne por uma porção de circunstâncias, sabia, entretanto, ser muito paterno para com os monges colocados sob a sua jurisdição.
Então, o biógrafo mostra como ele se aproximava de cada um com afeto, entrando em seus problemas pessoais para resolvê-los, e fazendo junto a cada um o papel de Bom Pastor.
Continua a ficha:
Pois, como é natural, quanto mais alto é um homem, tanto maior é a caridade que ele tem para com os seus irmãos.”
Segundo o espírito que sopra no mundo depois do Protestantismo e da Revolução Francesa, tem-se a errada ideia de que quanto mais um homem é elevado, mais ele despreza os que estão abaixo de si; o superior vê no inferior um concorrente, o qual quer subir e necessita ser espancado para não ter êxito; o inferior, por sua vez, vê no superior um tirano que está lhe explorando e precisa ser derrubado. Desse modo, em qualquer lugar onde haja um degrau hierárquico, há uma luta entre superior e inferior.
Na história de Santo Odilon vemos o contrário. Quanto mais elevado está um homem, mais ele deve tender à bondade, à proteção dos inferiores e a exercer uma autoridade benfazeja.
Onde está o fundamento da ideia de autoridade, como ela era exercida por Santo Odilon?
São Tomás de Aquino explica, esplendidamente, que o superior está para com o inferior como uma imagem de Deus. Quer dizer, ele deve proteger o menor, orientá-lo, guiá-lo, à semelhança de como Deus protege todas as suas criaturas.
Na ordem estabelecida por Deus, os anjos são desiguais, o superior guia o inferior.
Isso se verifica também no mundo humano. Os mais eminentes — por seu poder, talento ou autoridade — devem representar a Deus junto aos que estão abaixo de si e fazer-lhes bem.
Segundo essa consideração, quanto mais alta é a autoridade de alguém, maior é a responsabilidade que ele tem de fazer bem aos outros.
Por isso os súditos devem amar especialmente suas autoridades e querer bem aos que estão constituídos numa dignidade especial.
Este é o princípio que rege a Santa Igreja Católica. Por exemplo, numa paróquia, não é razoável que um fiel ame o seu Vigário e espere dele toda proteção e apoio? Mas, o fiel deve amar ainda mais ao Bispo. E, por isso, não há motivos para esperar maior bondade do Bispo do que do Vigário? E o Papa, não deve ser ainda mais venerado? E não há também motivos para esperar mais indulgência dele do que do Prelado?
A “poluição” do mundo moderno
Essas são considerações que nos descansam da brutalidade de todos os dias!
Não é verdadeiro que nos despolui pensar nisso?
Quando leio nos jornais matérias referentes à poluição em nossas cidades, tenho vontade de dizer: “Vocês não percebem que o que mais polui o mundo contemporâneo é o homem contemporâneo? Não há chaminé que polua mais do que a Revolução!” A verdadeira despoluição se daria quando tivéssemos na terra verdadeiros “Santos Odilons”...
Ó Cruz, meu refúgio, ó Cruz, meu caminho e minha força, ó Cruz, estandarte inexpugnável, ó Cruz, arma invencível!
A Cruz repele todo mal, a Cruz afugenta as trevas. Pela Cruz, percorrerei o caminho que conduz a Deus. A Cruz é minha vida, mas para ti, ó inimigo, ela é a morte. Que minha nobreza seja a Cruz de Nosso Senhor.
(Invocação à Cruz, por Santo Odilon, Abade de Cluny)
Ó Cruz, meu refúgio, ó Cruz, meu caminho e minha força, ó Cruz, estandarte inexpugnável, ó Cruz, arma invencível!
A Cruz repele todo mal, a Cruz afugenta as trevas. Pela Cruz, percorrerei o caminho que conduz a Deus. A Cruz é minha vida, mas para ti, ó inimigo, ela é a morte. Que minha nobreza seja a Cruz de Nosso Senhor.
(Invocação à Cruz, por Santo Odilon, Abade de Cluny)
"Onde há vontade, há um Caminho"

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

G. K. Chesterton: "Por que sou católico"


 
A DIFICULDADE EM EXPLICAR “Por que eu sou Católico” é que há dez mil razões para isso, todas se resumindo a uma única: o catolicismo é verdadeiro. Para falar da Igreja Católica eu poderia preencher todo o meu espaço com sentenças separadas, todas começando com as palavras “é a única que...”.

Como por exemplo, a Igreja Católica é a única que previne um pecado de se tornar um segredo; é a única que fala como um mensageiro que se recusa a alterar a verdadeira Mensagem; é a única que assume a grande tentativa de mudar o mundo desde dentro; usando a vontade e não as leis...

Ou posso tratar o assunto de forma pessoal e descrever minha própria conversão. Acontece que tenho uma forte impressão de que esse método faz a coisa parecer muito menor do que realmente é. Homens muito mais importantes, em muito maior número, se converteram a religiões muito piores. Preferiria tentar dizer, aqui, coisas a respeito da Igreja Católica que não se podem dizer o mesmo nem sobre suas mais respeitáveis rivais. Em resumo, diria apenas que a Igreja Católica é católica. Preferiria tentar sugerir que ela não é somente maior do que eu, mas maior que qualquer coisa no mundo; que ela é realmente maior que o mundo. Mas, como neste pequeno espaço disponho apenas de uma pequena seção, abordarei sua função como guardiã da Verdade.

Outro dia, um conhecido escritor, muito bem informado em outros assuntos, disse que a Igreja Católica é uma eterna inimiga das novas ideias. Provavelmente não ocorreu a ele que esta observação, que ele próprio fez, não é exatamente nova: é uma daquelas noções que os católicos têm que refutar continuamente, porque é uma ideia muito antiga.

Na realidade, aqueles que reclamam que o catolicismo não diz nada novo, raramente pensam que talvez seja necessário dizer alguma coisa nova sobre o catolicismo. De fato, o estudo real da História mostra que os católicos sempre sofreram, e continuam sofrendo continuamente por apoiarem ideias realmente novas; desde quando elas eram muito novas para encontrar alguém que as apoiasse. O católico foi não só o pioneiro na área, mas o único; até hoje não houve ninguém que compreendesse o que realmente se tinha descoberto lá, naquele tempo (na origem do cristianismo).

Mas não apenas aí. São muitos os exemplos que se poderiam citar. Assim, por exemplo, quase duzentos anos antes da Declaração de Independência e da Revolução Francesa, numa era devotada ao orgulho e ao louvor dos príncipes, o Cardeal Bellarmine, juntamente com Suarez, o Espanhol, formularam lucidamente toda a teoria da democracia real. Mas naquela era do Direito Divino, eles somente produziram a impressão de serem jesuítas sofisticados e sanguinários, insinuando-se com adagas para assassinarem os reis. Então, novamente, os casuístas das escolas católicas disseram tudo o que pode ser dito e que constam de nossas peças e romances atuais, duzentos anos antes de eles serem escritos. Eles disseram que há sim problemas de conduta moral, mas eles tiveram a infelicidade de dizê-lo muito cedo, cedo de dois séculos. Num tempo de extraordinário fanatismo e de uma vituperação livre e fácil, eles foram simplesmente chamados de mentirosos e trapaceiros por terem sido psicólogos antes da psicologia se tornar moda.

Seria fácil dar inúmeros outros exemplos, e citar o caso de ideias ainda muito novas para serem compreendidas. Há passagens da Encíclica do Papa Leão XIII sobre o trabalho (Rerum Novarum, 1891) que somente agora estão começando a ser usadas como sugestões para movimentos sociais muito mais novos do que o socialismo. E quando o Sr. Belloc escreveu a respeito do Estado Servil, ele estava apresentando uma teoria econômica tão original que quase ninguém ainda percebeu do que se trata. Então, quando os católicos apresentam objeções, seu protesto será facilmente explicado pelo conhecido fato de que católicos nunca se preocupam com ideias novas...

Contudo, o homem que fez essa observação sobre os católicos quis dizer algo; e é justo fazê-lo compreender muito mais claramente o que ele próprio disse. O que ele quis dizer é que, no mundo moderno, a Igreja Católica é, - isto sim, - uma inimiga de muitas modas influentes; muitas delas ainda se dizem novas, apesar de algumas delas começarem a se tornar um pouco decadentes. Em outras palavras, se alguém disser que a Igreja frequentemente ataca o que o mundo, em cada era, apóia, aí está perfeitamente certo. A Igreja sempre se coloca contra as modas passageiras do mundo, e ela tem experiência suficiente para saber quão rapidamente as modas passam. Mas para entender exatamente o que está envolvido, é necessário tomarmos um ponto de vista mais amplo e considerar a natureza última das ideias em questão; considerar, por assim dizer, a ideia da ideia.

Nove dentre dez do que chamamos novas ideias são simplesmente erros antigos. A Igreja Católica tem como uma de suas principais funções prevenir que os indivíduos cometam esses velhos erros; de cometê-los repetidamente, como eles fariam se deixados "livres". A verdade sobre a atitude católica frente à heresia, ou como alguns diriam, frente à "liberdade", pode ser mais bem expressa utilizando-se a metáfora de um mapa. A Igreja Católica possui uma espécie de mapa da mente que parece um labirinto, mas que é, de fato, um guia para o labirinto. Ele foi compilado a partir de um conhecimento que, mesmo se considerado humano, não tem nenhum paralelo humano.

Não há nenhum outro caso de uma instituição inteligente e contínua que tenha pensado sobre o pensamento por dois mil anos. Sua experiência cobre naturalmente quase todas as experiências; e especialmente quase todos os erros. O resultado é um mapa no qual todas as ruas sem saída e as estradas ruins estão claramente marcadas, bem como todos os caminhos que se mostraram sem valor, pela melhor de todas as evidências: a evidência daqueles que os percorreram.

Nesse mapa da mente, os erros são marcados como exceções. A maior parte dele consiste de playgrounds e alegres campos de caça, onde a mente pode ter tanta liberdade quanto queira; sem se esquecer de inúmeros campos de batalha intelectual em que a batalha está eternamente aberta e indefinida. Mas o mapa definitivamente se responsabiliza por fazer certas estradas se dirigirem ao nada ou à destruição, a um muro ou ao precipício. Assim, ele evita que os homens percam repetidamente seu tempo ou suas vidas em caminhos sabidamente fúteis ou desastrosos, e que podem atrair viajantes novamente no futuro. A Igreja se faz responsável por alertar seu povo contra eles; e disso a questão real depende. Ela dogmaticamente defende a humanidade de seus piores inimigos, daqueles grisalhos, horríveis e devoradores monstros dos velhos erros.

Agora, todas essas falsas questões têm uma maneira de parecer novas em folha, especialmente para uma geração nova em folha. Suas primeiras afirmações soam inofensivas e plausíveis. Darei apenas dois exemplos. Soa inofensivo dizer, como muitos dos modernos dizem: “As ações só são erradas se são más para a sociedade”. Siga essa sugestão e, cedo ou tarde, você terá a desumanidade de uma colmeia ou de uma cidade pagã, o estabelecimento da escravidão como o meio mais barato ou mais direto de produção e a tortura dos escravos pois, afinal, o indivíduo não é nada para o Estado: e assim surge a declaração de que um homem inocente deve morrer pelo povo, como fizeram os assassinos de Cristo.

Então, talvez, voltaremos às definições da Igreja Católica e descobriremos que a Igreja, ao mesmo tempo que diz que é nossa tarefa trabalhar para a sociedade, também diz outras coisas que proíbem a injustiça individual. Ou novamente, soa muito piedoso dizer: “Nosso conflito moral deve terminar com a vitória do espiritual sobre o material”. Siga essa sugestão e você terminará com a loucura dos maniqueus, dizendo que um suicídio é bom porque é um sacrifício, que a perversão sexual é boa porque não produz vida, que o demônio fez o sol e a lua porque eles são materiais. Então, você pode começar a adivinhar a razão de o cristianismo insistir que há espíritos maus e bons; que a matéria também pode ser sagrada, como na Encarnação ou na Missa, no Sacramento do matrimônio e na ressurreição da carne.
Não há nenhuma outra mente institucional no mundo pronta a evitar que as mentes errem. O policial chega tarde, quando tentar evitar que os homens cometam erros. O médico chega tarde, pois ele apenas chega para examinar o louco, não para aconselhar o homem são a como não enlouquecer. E todas as outras seitas e escolas são inadequadas para esse propósito. E isso não é porque elas possam não conter uma verdade, mas precisamente porque cada uma delas contém uma verdade; e estão contentes por conter uma verdade. Nenhuma delas pretende conter a Verdade. A Igreja não está simplesmente armada contra as heresias do passado ou mesmo do presente, mas igualmente contra aquelas do futuro, que podem estar em exata oposição com as do presente. O catolicismo não é ritualismo; ele poderá estar lutando, no futuro, contra algum tipo de exagero ritualístico supersticioso e idólatra. O catolicismo não é ascetismo; repetidamente, no passado, reprimiu os exageros fanáticos e cruéis do ascetismo. O catolicismo não é mero misticismo; ele está agora mesmo defendendo a razão humana contra o mero misticismo dos pragmatistas.

Assim, quando o mundo era puritano, no século XVII, a Igreja era acusada de exagerar a caridade a ponto da sofisticação, por fazer tudo fácil pela negligência confessional. Agora que o mundo não é puritano, mas pagão, é a Igreja que está protestando contra a negligência da vestimenta e das maneiras pagãs. Ela está fazendo o que os puritanos desejariam fazer, quando isso fosse realmente desejável. Com toda a probabilidade, o melhor do protestantismo somente sobreviverá no catolicismo; e, nesse sentido, todos os católicos serão ainda puritanos quando todos os puritanos forem pagãos.

Assim, por exemplo, o catolicismo, num sentido pouco compreendido, fica fora de uma briga como aquela do darwinismo em Dayton. Ele fica fora porque permanece, em tudo, em torno dela, como uma casa que abarca duas peças de mobília que não combinam. Não é nada sectário dizer que ele está antes, depois e além de todas as coisas, em todas as direções. Ele é imparcial na briga entre os fundamentalistas e a teoria da origem das espécies, porque ele se funda numa Origem anterior àquela origem; porque ele é mais fundamental que o fundamentalismo. Ele sabe de onde veio a Bíblia. Ele também sabe aonde vão as teorias da evolução. Ele sabe que houve muitos outros evangelhos além dos Quatro Evangelhos, e que eles foram eliminados somente pela autoridade da Igreja Católica. Ele sabe que há muitas outras teorias da evolução além da de Darwin; e que a última será sempre eliminada pela novíssima teoria da ciência mais recente. Ele não aceita, convencionalmente, as conclusões da ciência, pela simples razão de que a ciência ainda não chegou a uma conclusão. Concluir é se calar; e o homem de ciência dificilmente se calará. Ele não acredita, convencionalmente, no que a Bíblia diz, pela simples razão de que a Bíblia não diz nada. Você não pode colocar um livro no banco das testemunhas e perguntar o que ele quer dizer.

A própria controvérsia fundamentalista se destrói a si mesma. A Bíblia por si mesma não pode ser a base do acordo quando ela é a causa do desacordo; não pode ser a base comum dos cristãos quando alguns a tomam alegoricamente e outros literalmente. O católico se refere a algo que pode dizer alguma coisa, para a mente viva, consistente e contínua da qual tenho falado; a mais alta consciência do homem guiado por Deus.

Cresce a cada momento, para nós, a necessidade moral por tal mente imortal. Devemos ter alguma coisa que suportará os quatro cantos do mundo, enquanto fazemos nossos experimentos sociais ou construímos nossas utopias. Por exemplo, devemos ter um acordo final, pelo menos em nome do truísmo da irmandade dos homens, que resista a alguma reação da brutalidade humana. Nada é mais provável, no momento presente, que a corrupção do governo representativo solte os ricos de todas as amarras e que eles pisoteiem todas as tradições com o mero orgulho pagão. Devemos ter todos os truísmos, em todos os lugares, reconhecidos como verdadeiros. Devemos evitar a mera reação e a temerosa repetição de velhos erros. Devemos fazer o mundo intelectual seguro para a democracia. Mas na condição da moderna anarquia mental, nem um nem outro ideal está seguro. Tal como os protestantes recorreram à Bíblia contra os padres, porque estes podem ser questionados, e não perceberam que a (sua interpretação particular da) Bíblia também poderia ser questionada, assim também os republicanos recorreram ao povo contra os reis e não perceberam que o povo também podia ser desafiado.

Não há fim para a dissolução das idéias, para a destruição de todos os testes da verdade, situação tornada possível desde que os homens abandonaram a tentativa de manter uma Verdade central e civilizada, de conter todas as verdades e identificar e refutar todos os erros. Desde então, cada grupo tem tomado uma verdade por vez e gastado tempo em torná-la uma mentira. Não temos tido nada, exceto movimentos; ou em outras palavras, monomanias. Mas a Igreja não é um movimento e sim um lugar de encontro, um lugar de encontro para todas as verdades do mundo.

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Fonte:
CHESTERTON, G. K. "Por que sou católico". Grupo Chesterton Brasil, traduzido por Antonio Emilia Angueth de Araujo. - do site Chesterton Brasil

O melhor em Chesterton é o sentido de alegria diante da vida

Podemos resumir o pensamento de Chesterton em cinco pontos:

1. A incapacidade de o mundo explicar-se a si e por si mesmo, mesmo cento e cinquenta anos depois de “A Origem das Espécies” de Darwin

Até hoje não se encontrou o “elo perdido”, que faria a ponte entre o homem primitivo e o moderno. Tal incapacidade está ligada à outra mais básica de alguém, como diria Tomás de Aquino, “esgotar a essência de uma mosca” sequer. Não nos são acessíveis nem o macrocosmo, nem o microcosmo, que são e nunca deixarão de ser um mistério para a humanidade.

2. O natural (e até o sobrenatural) é dotado de sentido – e por isso teria que ser dotado a tal por alguém

Se há magia, encanto nas coisas que vemos, quer seja na natureza, quer seja no homem, há de ter um mágico para conceber tudo isso. Essa atitude aberta para o mistério, que é considerada infantil, por estar ligada aos contos de fada, é a atitude que Chesterton pregava e praticava diante da totalidade do real. Isso é que faz com que aprender valha a pena e que torna a educação tão significativa.

3. Esse sentido é tão antigo e misterioso, quanto os dragões dos contos de fada

Vemos mais uma vez aqui a importância basilar que Chesterton atribuía aos contos de fada, aos quais dedica um capítulo inteiro de “Ortodoxia”. Porém vemos mais: o seu respeito pela tradição e por dar ouvidos aos mortos (não no sentido literal, mas no de dar atenção ao passado e às sabedorias milenares, que também estão contidas nos contos de fada). Por isso é que a vida é uma grande e interessante aventura.

4. A melhor forma de reverenciar essa entidade criadora e artística é devotando-lhe humildade (alegria) e discrição

A alegria é outro ponto basilar do pensamento e da vivência de Chesterton e que Lewis herdou com todas as letras. Ser cristão é ser alegre, ter senso de humor e rir com facilidade. Ser cristão, portanto, é ser simples, é seguir o exemplo do homem comum, que conta piadas e ri de sua própria desgraça. Não se trata de uma atitude pueril e ingênua, acrítica, mas aberta para as surpresas que a vida oferece, sem ficar o tempo todo tentando controlá-la. É saber relaxar e ter uma visão não estressada das coisas.

5. Todo o bem que se pode encontrar deve ser tratado e preservado como as ruínas de um palácio antigo

O bem é uma peça rara que precisa ser valorizada. Daí vem a ideia de restauração de valores perdidos pela humanidade ao longo do tempo e de ética.

Todas essas ideias soam estranhas ao homem contemporâneo, que é cético e não vê sentido na vida e nas coisas. Tudo são para ele constructos humanos. Não há a transcendência e não há base real para a fé.

E todos esses pensamentos estão relacionados à ortodoxia, que não é uma camisa de força, mas princípios basilares de fé que orientam a conduta de todo cristão. Negar a ortodoxia é negar a fé e a verdade. Entretanto, muitos teólogos da atualidade a negam, sem ao menos entender do que se trata.

Voltemos, então, com Chesterton, a considerar e professar o Credo dos Apóstolos.

Oração pela beatificação de Chesterton

Deus, nosso Pai,
Senhor que preencheu a vida do Teu servo Gilbert Keith Chesterton com um senso de reverência e alegria, e deu a ele uma fé que foi o fundamento do seu trabalho incessante, uma caridade para com todos os homens, em especial para seus oponentes, e uma esperança que brotou de sua permanente gratidão em relação ao dom da vida humana. Que a sua inocência, seu sorriso, sua contínua luta pela fé cristã em um mundo que perde a crença, sua permanente devoção a Santíssima Virgem Maria e seu amor por todos os homens, especialmente pelos pobres, traga entusiasmo para aqueles em desespero, convicção e fervor para os fiéis trépidos e o conhecimento de Deus para aqueles sem fé. Nós pedimos ao Senhor que nos conceda os favores que pedimos pela intercessão dele, o fim do aborto neste país [e especialmente por…] para que a santidade dele possa ser reconhecida por todos e a Igreja possa proclamá-lo Beato.
Nós suplicamos em nome do Nosso Senhor Jesus Cristo.
Amém.


"Onde há vontade, há um Caminho"